-->

Páginas

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20

Continuação dos comentários ao Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20
“Não poupes a vara a teu filho”
Cornélio a Lápide, em sua famosa obra de comentários sobre as Sagradas Escrituras, assim se exprime sobre esta questão: “Não poupes ao menino a correção; se o castigares com a vara, ele não morrerá, diz o Livro dos Provérbios (Noli subtrahere a puero disciplinam; si enim percusseris eum virga, non morietur). Castiga-o com a vara e salvarás sua alma do inferno (Tu virga percuties eum et animam eius de inferno liberabis) (23, 13-14). A correção é para o menino o que o freio é para o cavalo e o aguilhão para os bois.
“Os pais que são demasiadamente indulgentes com seus filhos não os castigam, mas os expõem aos suplícios do inferno. Quem tem excessiva indulgência para com seu filho, é o seu mais cruel inimigo. Assim, pais e mães, se amais vossos filhos, aplicai-lhes a vara das correções, para não acontecer que eles vão parar no inferno; se os livrais daquelas, será para condená-los a este. Escolhei!
“Repetimos: a salvação e a felicidade dos filhos resultam de uma boa educação e da justa severidade dos pais. Pelo contrário, uma condescendência licenciosa e a falta de correção são o princípio da má conduta e da condenação dos filhos: eles caem em excessos e crimes que os levam à desgraça eterna. Quantos filhos, no inferno, maldizem os seus pais e os encherão de imprecações durante os séculos dos séculos, por terem negligenciado repreendê-los, corrigi-los e castigá-los, tornando-se assim causa de sua eterna perdição!
“Compreende-se o ódio desses desgraçados, porque tais pais lhes deram, não a vida, mas a morte; não o Céu, mas o inferno; não a felicidade, mas a desgraça sem fim e sem limites. O menino guarda até sua velhice e até a morte os costumes de sua infância e de sua juventude, de acordo com as palavras da Sagrada Escritura: ‘O caminho pelo qual o jovem começou a andar desde o princípio, dele não se afastará mesmo quando envelhecer. (Adolescens juxta viam suam etiam cum senuerit non secedet ab ea) (Pr 22, 6). A árvore que cedo se entorta continua com sua má inclinação até ser cortada e lançada ao fogo”.2
Dever de gratidão de quem é corrigido
Na vida comum, não é raro acontecer o caso de sairmos de casa distraidamente com algum desalinho em nossa apresentação: meias de cores diferentes, roupa mal-colocada, etc. Basta que, por caridade, alguém nos advirta para nós nos manifestarmos cheios de gratidão; se, pelo contrário, ninguém nos avisasse, ficaríamos ressentidos. Ora, maior motivo temos para agradecer a quem nos admoesta pela nossa falta de virtude, sobretudo naquilo que possa vir a constituir escândalo.
Inclusive as considerações daqueles que trilham as veredas do paganismo mostram irem no mesmo sentido os ditames da sabedoria humana neste particular. Plutarco afirma que nós deveríamos pagar bem aos nossos adversários porque dizem as verdades a nosso respeito. Os amigos, segundo ele, só sabem bajular, adular e lisonjear. 3 É, aliás, o que encontramos nas relações habituais de hoje em dia, ou seja, não nos deparamos com alguma correção a não ser quando se estabelece uma inimizade, só aí acabamos por conhecer o que realmente os outros pensam sobre nós.
Hugo de São Vítor sintetiza de modo sábio os bons efeitos da correção. Quando é aceita com humildade e gratidão, ela detém os maus desejos, coloca freio às paixões da carne, derruba o orgulho, apazigua a intemperança, destrói a superficialidade e reprime os maus movimentos do espírito e do coração.4 Por isso é que ganhamos um irmão quando somos ouvidos com boa disposição da parte de quem corrigimos, pois lhe devolvemos a verdadeira paz de alma e o reconduzimos ao caminho da salvação.
III – Correção amistosa diante de testemunhas
“Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas”.
O empenho de salvar nosso irmão deve ser penetrado de forte zelo. Caso tenha sido infrutífera a advertência a sós, não se deve abandoná-lo, pelo contrário, é preciso insistir.
A orientação dada aqui pelo Divino Mestre não visa preencher o procedimento exigido pelo Deuteronômio: “Sobre o depoimento de duas ou três testemunhas morrerá aquele que tiver de ser morto. Mas não será morto sobre o depoimento de uma só. [...] Ambos os contendores comparecerão diante do Senhor, na presença dos sacerdotes e dos juízes que estiverem em exercício naqueles dias” (Dt 17, 6; 19, 17). Pelo contrário, ela tem por objetivo utilizar o instinto de sociabilidade como poderoso elemento de pressão psicológica para tentar “ganhar o irmão”.
Ainda estamos num âmbito de privacidade, e por isso a reputação social do infrator encontra-se resguardada. Por outro lado, a presença de testemunhas poderá criar-lhe certo temor saudável e, quiçá, tornar-lhe impossível deixar de admitir sua culpa. Se ele vier a reconhecê-la, verificar-se-á o efeito visado na primeira investida, expresso no versículo anterior.
A eficácia deste meio baseia-se no apreço que o transgressor possa devotar ao conceito que desfruta junto aos outros. Não se trata, portanto, de colocá-lo entre a espada e a parede, judicialmente falando, pois bem poderia uma ação desse teor mais suscitar um irreversível ódio do que propriamente conduzi-lo a um sentimento de dor por sua falta. Esses tais outros a serem convocados não devem exercer a função de testemunhas de acusação em juízo, mas sim a de auxiliares na correção amistosa. Portanto, a fama e o decoro do infrator serão objeto de todo cuidado possível.
“O que devemos fazer, caso não tenhamos persuadido nosso irmão, o Senhor o diz com estas palavras: ‘E se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas’, etc. Quanto mais desavergonhado e obstinado for ele, tanto mais convém aplicar-lhe o medicamento, mas sem movê-lo à cólera e ao ódio. Quando vê que a enfermidade não cede, o médico não desiste, mas é então que ele mais se prepara para vencê-la. Veja, pois, como nossa meta não deve ser a vingança, mas sim a emenda pela correção; isto obtido, não manda o Senhor que em seguida se tomem dois, mas só quando ele não quiser emendar-se. E nem mesmo neste caso quer que ele seja enviado ao povo, mas que seja corrigido diante de um ou de dois, conforme previne a Lei, a qual diz: ‘Que toda palavra saída da boca de duas ou três testemunhas seja tomada em consideração’. É como se dissesse: tendes um testemunho, fizestes a vossa parte”.5
Segundo São Jerônimo, isso pode ser entendido também desse modo: “Se ele não quis te escutar, apresenta-o tão-somente a um irmão; e se não atender a este, apresenta-o a um terceiro, seja para que ele se corrija por vergonha ou por teu conselho, seja para que veja que ages diante de testemunhas”.6 E a este comentário deve-se acrescentar o que diz a Glosa: “Ou para que, caso ele diga que não pecou, as testemunhas provem que pecou”.7
IV – O bem da própria Igreja
“Se recusa ouvi-las, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano”.

Ao chegar a esse estágio, tornou-se patente que o método amigável fracassou; o culpado persistirá em seu ódio, em suas mazelas, ou em seus erros, e nesse caso não caberá senão recurso à Igreja, aquela instituição prometida por Nosso Senhor Jesus Cristo que seria fundada sobre a pedra chamada Pedro. Permanece ainda em foco o zelo pela alma do culpado e por seu bem particular, mas outro bem se torna presente: o da própria Esposa de Cristo.
Continua no próximo post

sábado, 30 de agosto de 2014

Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20

Comentário ao Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: 15 Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-las, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a Terra será também desligado no Céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a Terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos Céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18, 15-20).
A correção fraterna, uma opção ou um dever?
Quem não corrige seu próximo, causa dano não somente a ele mas também a si próprio. Ver-se-á privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever, e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.
I – A correção, grande meio de Salvação
 Santo Afonso Maria de Ligório escreveu uma bela obra intitulada “A oração, grande meio de salvação”. Seu conteúdo é preciosíssimo e irrefutável. Numa de suas páginas, o Santo chega a afirmar que quem reza se salva e quem não reza se condena.
Ao penetrarmos no âmago do Evangelho deste 23º Domingo do Tempo Comum, chegamos a uma conclusão parecida: a correção fraterna é um grande meio de salvação, pois bem pode o destino eterno de alguém depender da aceitação às correções que lhe sejam feitas.
Esta é a matéria que a Liturgia de hoje nos leva a considerar: o dever da correção fraterna e a necessidade de bem recebê-la.
II – Qual é o filho a Quem Seu pai não corrige?
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão”.
É claro o conselho do Divino Mestre, quanto à necessidade de corrigir aqueles que pecam contra nós.
Nas ofensas pessoais, injúrias, ou mesmo nos defeitos que observemos na conduta de outros — sobretudo faltas concernentes à Fé e aos costumes, com risco de produzir algum escândalo — não podemos deixar de advertir nosso próximo, seja por indiferença nossa, seja, pior ainda, por desprezo. E para pôr em prática a norma do Senhor, expressa no versículo acima, nosso zelo deve ser cheio de fervor.
São João Clímaco compara, com muita unção, a crueldade de alguém que retira o pão das mãos de um menino faminto, com a daquele que tem a obrigação de corrigir e não o faz.1 Este último causa dano não só a seu próximo mas também a si próprio. Ver-seá, por essa omissão, privado dos méritos e benefícios do cumprimento desse dever e acabará por escandalizar os que constatam sua negligência.
O mesmo se passa no campo da botânica, pois quanto mais fértil um terreno, mais se deve trabalhá-lo para evitar que se transforme em bosque e, depois, em mata.
Evidentemente, na aplicação deste preceito, não se deve agir com alguma paixão, por menor que seja. A isenção de ânimo é fundamental. Toda caridade deverá ser empregada na delicadíssima tarefa da reconciliação.
A obrigação de advertir
A primeira responsabilidade — reconhecer o próprio erro — é de quem o comete. Porém, o zelo, a prudência e o amor a Deus cabem a quem tem a obrigação de advertir. “Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho; mas o que o ama corrige-o continuamente” (Pr 13, 24). Portanto, é falsa ternura deixar de aplicar uma necessária correção, julgando com essa omissão poupar alguma amargura a quem dela necessita. Quem assim se omite, em realidade não só é conivente com a falha praticada, mas demonstra querer mal a quem precisaria do apoio de uma palavra esclarecedora. Esse sentimentalismo, desequilíbrio e equivocada indulgência confirmam em seus vícios os que erram.
É importantíssimo que pais, educadores, etc., cumpram nessa matéria seu dever, pois assim nos ensina o Livro dos Provérbios: “A loucura está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a afugentará” (22, 15). Aliás, é sinal de muito amor avisar de suas faltas os inferiores; quando um pai assim procede com seu filho, deseja-lhe o bem e a virtude.
A reciprocidade nesse amor deve ser uma característica de quem recebe o aviso ou repreensão: “Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor, nem caias no desânimo quando Ele te castiga, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e acha nele a sua complacência como um pai em seu filho” (Pr 3, 11-12).
Se o superior deixa de advertir os que lhe estão confiados, é claro sinal de que não se sente amado como um pai; ou não ama o inferior como filho, e neste caso não é raro que dele venha até a murmurar. Ao escrever aos hebreus, São Paulo não receia afirmar: “Sede perseverantes sob o castigo. Deus trata-vos como filhos. E qual é o filho a quem seu pai não corrige? Se, porém, estais isentos do castigo, do qual todos são participantes, então sois bastardos e não filhos legítimos” (Hb 12, 7-8). Pois, de fato, o remorso, a dor de nossas faltas, o peso de consciência, constituem um inestimável dom de Deus.
Continua no próximo post

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27

Conclusão dos comentários ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27
IV – Esperança na verdadeira vida
A liturgia de hoje nos incentiva a vivermos de acordo com nossa fé, em coerência com os princípios da Religião. A não orientarmos nossa conduta visando obter riquezas, elevada posição social, amizades terrenas ou qualquer outro bem deste mundo, ignorando quão efêmeros são os benefícios que tudo isso proporciona.
A termos sempre em vista que nosso fim último não se cumpre aqui na Terra, e que na eternidade, para a qual nascemos, só valem os méritos espirituais.
Para quem se salva, a verdadeira vida começa depois da morte. Por isso a Igreja celebra a festa de um santo no dia de seu nascimento para o Céu. Devemos portanto, à imitação dos santos, aceitar todos os sofrimentos, repulsas e humilhações que a prática da virtude nos imponha neste vale de lágrimas, certos de que eles se transformarão em glória quando nos encontrarmos na Visão Beatífica.
Em resumo, o Evangelho de hoje nos dá esta lição: o homem vale na medida em que estiver disposto a enfrentar a dor por amor a Deus. A vida na face da Terra está cheia de dificuldades e sofrimentos; se os abraçarmos com amor, eles virão acompanhados de uma suave alegria, nobilitarão nossos corações e nos prepararão para o Céu; se, pelo contrário, nos deixarmos arrastar pelas paixões, nossa alma insatisfeita e degradada terá encetado as vias do inferno.
Portanto, em união com Nosso Senhor Jesus Cristo, abracemos decididamente a nossa cruz e sigamos o Divino Mestre rumo à glória da eternidade, onde não haverá sequer sombra de padecimento, mas só a felicidade total e imperecível: “Per crucem ad lucem”!
Nos períodos de provações, refugiemo-nos junto ao Santíssimo Sacramento, e recorramos a Nossa Senhora, invocando-A por meio da recitação do Rosário, confiantes em que, finda a noite escura, renascerá com maior esplendor o sol da consolação espiritual.
1 TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada. Evangelios. Madri: BAC, 1964, v.II, p.369.
2 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). Madri: BAC, 1956, p.137.
3 A “luz primordial”, segundo a conceitua o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, é a virtude dominante que uma alma é chamada a refletir, imprimindo nas demais sua tonalidade particular. Em outras palavras, seria o pórtico pelo qual uma pessoa é chamada a entrar, para depois amar todas as perfeições de Deus.
4 MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madri: BAC, 1950, v.I, p.601.
5 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris: Desclée et Cie, 1931, p.VIII.
6 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. La seconde conversion et les trois voies. 3.ed. Paris: Du Cerf, 1951, p.22-23.
7 Idem, p.42.
8 Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Noite Escura. Ver especialmente l.1, c.814 (noite dos sentidos); l.2 c.5-10 (noite do espírito); l.2, c.7 (noite da vontade).
9 SÃO FRANCISCO DE SALES. Obras Selectas. Madri: BAC, 1954, v.II, p.802.
10 CIC 1022.

11 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.87, a.1, resp.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27

Continuação dos comentários ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27
A hora da generosidade
Ausente a sensibilidade, é chegada a hora da generosidade, que só se concretiza se houver uma vida interior séria, profunda, regada com muita oração, porque essa entrega nos custa enormemente.
Há, segundo São João da Cruz, uma tríplice noite escura — dos sentidos, da inteligência e da vontade — pela qual passam todos aqueles que buscam a perfeição.8 Nessa fase da vida espiritual, renunciar a si mesmo consiste em manter-se na fidelidade aos bons propósitos, purificando-se assim de seus apegos terrenos e preparando-se para o Céu. Porque, com o sofrimento, a alma abre-se para o sobrenatural.
Durante os períodos de aridez, costuma vir-nos a tentação de ceder neste ou naquele ponto, de justificar com racionalizações as transgressões aos Mandamentos de Deus, às quais nos impele a concupiscência, bem como de buscar um meio termo espúrio entre as vias do mundo e as da virtude. Experimentando em nosso interior a lei dos sentidos, do pragmatismo e do egoísmo, somos tentados a procurar um modus vivendi com nossos defeitos, em lugar de combatê-los.
Deus nos pede uma entrega completa
25 “Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder sua vida por causa de Mim, vai encontrá-la”.
A “vida” aqui pode significar não apenas a existência física, mas também algo a que costumamos ter mais apego ainda: o juízo alheio a nosso respeito. Quantas vezes nos tornamos escravos da opinião pública a ponto de não ousarmos dissentir dela mesmo quando a isso nos obriguem a moral e a reta consciência. Tal é a força do instinto de sociabilidade, por certo mais arraigado na alma humana do que o de conservação.
 “Renunciar-se a si mesmo” exige de nós renegar tudo quanto nos liga ao mundo, ao demônio e à carne, e nos afasta de Deus. Ele nos pede uma entrega completa, sem meios termos.
O caminho da verdadeira felicidade
26 “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?”.
Realmente, de que nos valeria conquistar todas as riquezas, todas as honras e todo o poder do mundo se, no final, nos condenássemos ao inferno por toda a eternidade?
Além do mais, se abandonarmos os prazeres mundanos e abraçarmos a cruz de Nosso Senhor, encontraremos já nesta Terra a verdadeira felicidade e desfrutaremos a autêntica alegria possível neste vale de lágrimas. Por essa razão recomenda-nos São Francisco de Sales: “Ponde em vosso coração Jesus Cristo crucificado e vereis que todas as cruzes do mundo se convertem em flores”.9
O Juízo Final
27 “Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com sua conduta”.
Ninguém consegue subtrair-se ao julgamento divino, adverte-nos o Divino Mestre. No momento da morte, cada homem passa pelo Juízo Particular “que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do Céu, seja para condenar-se de imediato para sempre”.10 Além desse, há o Juízo Final, universal, porque nossas faltas — como também nossos atos de virtude — têm consequências na ordem da Criação, uma vez que estamos nela inseridos.

É o que nos ensina o Doutor Angélico: “Ora, como o pecado é um ato desordenado, é claro que todo aquele que peca age contra uma ordem. É por isso que consequentemente é reprimido pela própria ordem. […] Com efeito, a natureza humana é primeiramente subordinada à ordem da própria razão. Segundo, está subordinada à ordem daqueles que exteriormente governam […]. Terceiro, está submetida à ordem universal do governo divino. Ora, todas estas ordens são pervertidas pelo pecado. Pois aquele que peca age contra a razão, contra a lei humana e contra a lei divina”.11
Continua no próximo post

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27

Continuação dos comentários ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27
Pergunta feita com divina didática
Depois de ter convivido alguns anos com os Apóstolos, durante os quais atestara sua divindade por meio de inumeráveis milagres, pergunta-lhes Jesus: “No dizer do povo, quem é o Filho do Homem?” (Mt 16, 13). Embora soubesse a resposta desde toda a eternidade, desejava formar seus discípulos, fazendo-os deduzir por si mesmos o cumprimento das profecias a respeito do Messias.
A essa pergunta, cada qual relata o que ouvira dizer. Para alguns, seria Ele João Batista ressuscitado, como suspeitara até o próprio Herodes. Hipótese, aliás, absurda, pois muitos haviam testemunhado o encontro de Jesus com o Batista, às margens do Jordão. Julgavam outros ser Elias, conforme a crença muito arraigada entre os judeus, de uma vinda do Tesbita precedendo o Messias. Outros, enfim, opinavam tratar-se de Jeremias ou algum dos numerosos profetas enviados pelo Senhor ao povo eleito. De qualquer forma, vê-se pelo teor das respostas ser Ele considerado um homem extraordinário pelos judeus, dos maiores que Israel jamais conhecera.
Em seguida, o Divino Mestre inquire o parecer dos Apóstolos, visando fazer partir deles próprios o reconhecimento da sua divindade e vincando assim sua separação do resto do povo hebreu descrente. O próprio tom da pergunta — “E vós, quem dizeis que Eu sou? (Mt 16, 15) — convida-os a formarem “uma opinião mais elevada a respeito d’Ele, sem se rebaixarem a seguir o julgamento da multidão”.2
Essa divina didática deu ocasião à proclamação de Fé de Pedro, representando todos os Apóstolos, de maneira a aprofundar neles a convicção de ser Jesus, de fato, o Messias prometido. Precisavam eles ter essa certeza bem arraigada na alma, à vista das provações que deveriam enfrentar em breve.
O prêmio da proclamação de Fé feita por Pedro
Ao afirmar ser Nosso Senhor o Filho de Deus vivo (cf. Mt 16, 16), recebeu Simão, o filho de Jonas, esta admirável resposta: “Não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos Céus” (Mt 16, 17). Pois é impossível ao homem, por si, chegar ao conhecimento do maravilhoso mistério da união hipostática.
O prêmio dessa proclamação de Fé foi a solene consagração recebida: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Ficou assim constituído Príncipe dos Apóstolos, o Chefe e a pedra basilar da Igreja de Cristo.
É esse mesmo Pedro, o único Papa nomeado diretamente por Cristo, quem vai protagonizar o episódio do Evangelho hoje comentado.
II – Anúncio da Paixão e reação dos Apóstolos
“Naquele tempo 21 Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.
Aproximava-se a Páscoa. Conviviam os apóstolos havia alguns anos com um Taumaturgo extraordinário que ensinava uma doutrina nova, oposta às ideias correntes tanto nos povos pagãos quanto entre a maior parte dos judeus, e em tudo manifestava uma superioridade ao mesmo tempo atraente e intrigante, cercada de misteriosa aura.
Com o tempo, foram os olhos dos discípulos gradualmente se abrindo, à medida que se aprofundavam no conhecimento e cresciam na admiração ao Mestre, até o dia em que a graça lhes mostrou tratar-se do próprio Deus encarnado. Provavelmente essa realidade foi se tornando clara para cada um em distintas ocasiões, de modo talvez relacionado com a respectiva luz primordial.3 Ora tal milagre, ora tal palavra ou tal gesto de Jesus representava para este ou aquele a gota que fazia o coração transbordar de amor.

A proclamação de Pedro, bem podemos conjecturar, viera acompanhada de inusitadas graças sensíveis, criando entre os discípulos um ambiente de muita alegria e consolação espiritual, fazendo-os compreender o sublime momento que viviam. E Nosso Senhor aproveita a oportunidade para anunciar-lhes de modo explícito a sua Paixão: em Jerusalém Ele sofreria muito “da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei”, seria morto, mas ressuscitaria ao terceiro dia.
Continua no próximo post

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27

Comentário ao Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 16, 21-27
“Naquele tempo 21 Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia.
22 Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-Lo, dizendo: ‘Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca Te aconteça!’. 23 Jesus, porém, voltou-Se para Pedro, e disse: ‘Vai para longe, satanás! Tu és para Mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!’.
24 Então Jesus disse aos discípulos: ‘Se alguém quer Me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e Me siga. 25 Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder sua vida por causa de Mim, vai encontrá-la. 26 De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com sua conduta’” (Mt 16, 21-27).
É a dor inevitável em nossa existência? Pode o fiel encontrar a verdadeira felicidade nesta vida? No que consiste ela?
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
 I – Os antecedentes
Em sua infinita bondade, aprouve a Deus deixar inscritos no Universo reflexos visíveis de suas perfeições invisíveis, para através deles os homens chegarem mais facilmente ao conhecimento de seu Criador. “Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos”, canta o salmista (Sl 18, 2). Um dos predicados divinos manifestados de maneira admirável na natureza é, sem dúvida, a inesgotável dadivosidade.
Com efeito, para justos e pecadores, para bons e maus, a cada dia nasce radiante o Sol, com renovada e deslumbrante beleza, proporcionando vida às criaturas. Sem cessar, brotam em profusão das nascentes as águas cristalinas que dessedentam homens e animais, alimentam rios e mares onde vive uma multidão incontável de seres; as chuvas irrigam regularmente toda a terra, as árvores dão seus frutos com abundância, e assim por diante, tudo obedecendo a uma majestosa sincronia.
O próprio Jesus, para melhor ensinar aos homens verdades eternas, recorreu a imagens como a dos lírios do campo e a das aves do céu. Dando-se contínua e inexaurivelmente, a natureza convida o homem a imitá-la, a contrariar sua má tendência de fechar-se em si mesmo e preocupar-se apenas com seus interesses.
Impelida pela graça, essa contemplação da ordem do universo pode levar o ser humano a elevar suas cogitações à procura dos valores transcendentais e movê-lo a empenhar-se em que todas as criaturas tributem a Deus a glória devida. Assim, a consideração admirativa dos reflexos divinos nas realidades materiais seria o primeiro passo para a alma se dar generosamente, em vista da superior ordenação de toda a Criação.
Praticando tal desprendimento — do qual foi exemplo máximo o Verbo encarnado, morrendo por nós numa cruz — encontrará o homem a quota de felicidade possível nesta Terra. “Deus ama quem dá com alegria” (II Cor 9, 7), ensina-nos o Apóstolo; e quem se doa por inteiro em benefício do próximo ou dos princípios estabelecidos pelo Criador, este experimentará quanto há mais de alegria em dar-se do que em fechar-se sobre si mesmo.
A isso nos convida o Evangelho deste 22º Domingo do Tempo Comum, no qual Nosso Senhor anuncia pela primeira vez, de forma explícita, sua Paixão.
Jesus quer ressaltar o caráter divino da Igreja
O episódio analisado hoje é imediatamente precedido pelo da profissão de Fé de São Pedro e da sua subsequente constituição como Pedra fundamental da Igreja, narrado no domingo anterior.
Encontrava-Se o Mestre nessa ocasião a caminho de Cesareia, local do primeiro milagre da multiplicação dos pães, capital da tetrarquia de Filipe, onde, sobre uma destacada formação rochosa, Herodes o Grande edificara um esplêndido templo de mármore branco em honra de Augusto. É muito provável, opina o padre Tuya, “que Jesus tenha utilizado aquela vista do rochedo-templo para expor a nova rocha sobre a qual edificaria sua Igreja; assim era seu estilo pedagógico”.1
Vendo aproximar-se o momento da sua Paixão, preocupava-Se em precaver os Apóstolos contra os erros da Sinagoga (da qual eles ainda se consideravam zelosos membros) ressaltando o caráter divino da Igreja por Ele fundada: muito mais do que uma mera continuação da Sinagoga, constituía ela, sobretudo, a realização de todas as profecias sobre a nova e eterna Aliança selada com o seu Sangue Preciosíssimo.

Chegara, afinal, a plenitude dos tempos anunciada pelos profetas e sonhada pelos justos, o supremo momento em que a figura cedia lugar à realidade, o símbolo ao simbolizado. Virava-se uma página na história do relacionamento de Deus com a humanidade: o próprio Verbo havia Se encarnado para habitar entre nós! Deus tornara-Se visível aos homens e ia oferecer em breve sua vida para redimi-los.

Continua no próximo post

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

EVANGELHO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A - Mt 16, 13-20

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Mt 16, 13-20 -  XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
Opiniões diversas e equivocadas
14 Eles responderam: Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.
Os Apóstolos transmitem as conjecturas do povo: versões variadas e muito distantes da realidade, mas indicativas do quanto Jesus era reputado um homem extraordinário. E nada mais, além disso. De fato, sendo impossível abarcar sua grandeza, tentavam adequá-Lo à mente deles, equiparando-O a um profeta. No entanto, os Apóstolos conviviam com Nosso Senhor e percebiam que aqueles comentários não estavam à altura d’Ele. Vários dentre eles tinham sido discípulos de São João Batista e sabiam perfeitamente que o Mestre não era o Precursor ressuscitado, pois o haviam conhecido de perto, tendo ouvido de seus lábios: “eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de Lhe desatar a correia das sandálias” (Lc 3, 16). Aliás, ele havia indicado Jesus a Santo André e a São João Evangelista, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 36). Com relação às hipóteses de Cristo ser Jeremias ressurrecto ou Elias que ainda estava e continua vivo, segundo uma consagrada tradição, eles também não tinham dúvidas de serem falsas.
Todavia, receosos de perder a consonância com a opinião pública, os próprios Apóstolos evitavam levantar o problema e perguntar sobre as origens de Cristo Jesus. Sabiam que era filho de Maria e José, mas ignoravam onde havia estudado, de onde provinha tanta sabedoria, como conseguira o poder de fazer milagres.
O que lhes faltava para se destacarem dessas Opiniões e dar um passo adiante na compreensão do Mestre? Um dom de . Corn eieito, “a fé aperfeiçoa o olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos, a presença operante da Providência. [...] a razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a Possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus”.6
Uma resposta inspirada
15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, Quem dizeis que Eu sou?” 16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.
Nesta segunda pergunta é importante ressaltar como o Divino Mestre Se refere a Si mesmo, pois já não diz “o Filho do Homem”, mas indaga: “quem dizeis que Eu sou?”. Comenta São João Crisóstomo ser esta uma forma de “convidá-los a conceber pensamentos mais altos sobre Ele e mostrar-lhes que a primeira sentença ficava muito abaixo de sua autêntica dignidade”.7
São Pedro, cujo temperamento expansivo o levava a dizer tudo quanto pensava, adiantou-se a responder: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”! Dir-se-ia que esta frase lapidar era uma elaboração da experiência do Apóstolo, fruto de madura e profunda ieflexão. Ora, como poderia ele, pelo mero concurso do raciocfriio chegar à conclusão de que fosse Deus aquele Mestre “exteriormente reconhecido como Homem” (Fi 2, 8), que Se cansava, sentia sono, fome e sede?
A fidelidade de Pedro à inspiração do Pai
17 Respondendo Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no Céu”.
Jesus declara que Pedro é feliz por ter sido aquinhoado pelo Pai, ao lhe ser revelada tão alta verdade. A propósito desta passagem observa Santo Hilário: “A fé verdadeira e inviolável consiste em crer que o Filho de Deus foi engendrado por Deus e tem a mesma eternidade do Pai. {...j E a confissão perfeita consiste em dizer que este Filho tomou Corpo e Se fez Homem. Compreendeu pois, tudo o que expressa sua natureza e seu nome, no que está a perfeição das virtudes”.8
São Pedro foi fiel à inspiração divina e, a despeito das impressões humanas, externou sua fé. Como prêmio por sua correspondência à graça e por tão robusta fé, quis o Mestre outorgar ao Apóstolo um tesouro, como a dizer, na bela expressão de São Leão Magno: “do mesmo modo que meu Pai te manifestou minha divindade, assim também Eu te faço conhecer tua excelência”.9
E foi nesse momento que se tornou clara para todos os Apóstolos a missão que lhes estava reservada: anunciar ao mundo Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro.
A promessa da invencibilidade da Igreja
8 “Por isso Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 9 te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na Terra será ligado nos Céus; tudo o que tu desligares na Terra será desligado nos Céus”.
20 Jesus então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.
No aramaico não há distinção de gênero entre os substantivos Pedro e pedra, sendo ambos expressos por uma única palavra — kefa’. Ou seja, Jesus disse que Ele iria edificar a Igreja sobre esta kefa’ —pedra — que é Pedro.10
Com tais palavras Cristo dá a Pedro o poder divino, absoluto e inabalável, de sustentar a Santa Igreja. Hoje, transcorridos mais de dois mil anos, passou ela por grandes procelas e convulsões, mas continua de pé e, aconteça o que acontecer, permanecerá firme até o fim do mundo. A Igreja não corre risco de que seu poder seja usurpado pelas hostes infernais, porque está alicerçada nesta promessa. A morte nunca a atingirá! E isto não quer dizer que a Igreja sobreviverá às vicissitudes numa constante agonia. Pelo contrário, ela sempre esteve e estará jovem em todas as eras históricas, quer durante as perseguições romanas, com milhares de mártires subindo ao Céu, do Coliseu ou do Circo Máximo; quer nos esplendores da Idade Média, com o florescer glorioso das catedrais góticas, iluminadas pela policromia dos vitrais e animadas pelo som majestoso do órgão; e inclusive em nossos dias, em que a humanidade jaz num relativismo e materialismo sem precedentes.
A infabilidade e o poder das chaves
Nesta ocasião Nosso Senhor oferece também a Pedro a garantia da infalibilidade ao declarar que suas decisões na Terra serão ratificadas no Céu. Ele será assistido pelo Espírito Santo para ensinar a verdade, o que torna impossível à Igreja desviar-se, seguindo falsas doutrinas. Graças a este carisma o Sumo Pontífice não erra quando se pronuncia ex cathedra, “isto é, quando, no desempenho do múnus de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica que determinada doutrina referente à Fé e à moral deve ser sustentada por toda a Igreja”.11 O Papado tem sido uma das instituições mais combatidas ao longo da História, o ponto no qual se concentra o ódio do demônio e das forças do mal e, ao mesmo tempo, o fator de estabilidade do Corpo Místico de Cristo, único organismo a gozar deste privilégio.
Analisam os autores o alcance do poder das chaves, e muitos defendem que as palavras “na Terra” compreendem tudo o que está nela e debaixo dela, isto é, os vivos e também os mortos.
Assim, o Papa tem autoridade para canonizar um Bem-aventurado e fazer com que este receba um acréscimo de glória acidental na eternidade; para aplicar sufrágios específicos aos fiéis que estão no Purgatório e até para excomungar um falecido.12 Era necessário existir um homem com tais atribuições aqui na Terra, a fim de que tivéssemos uma ligação direta com o Céu!
Também aos Bispos e sacerdotes, sob o primado do Papa e em total dependência dele, é concedido o poder das chaves, embora de forma menos intensa que ao Sumo Pontífice. No confessionário, por exemplo, o padre tem a faculdade de absolver ou não o penitente de seus pecados, fazendo com que as portas do Céu se abram para ele ou continuem fechadas. Enquanto o Paraíso Terrestre criado por Deus para os homens — está guardado por Querubins, desde que Adão e Eva de lá foram expulsos (cf. Gn 3, 24), as chaves do Paraíso Celeste, morada dos Anjos bons, foram confiadas a um homem! Portanto, São Pedro obteve de Jesus muitíssimo mais do que Adão perdera!
Dir-se-ia ser um perigo depositar tal tesouro nas mãos de um homem... Sim, caso não fosse Deus o Doador! Quem o entrega a São Pedro é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo e, na realidade, é Ele quem governa a Igreja. Se nela houve abusos e desvios ao longo da História, foram por Ele permitidos para provar que, ainda que o elemento humano esteja presente, sempre prevalecerá o elemento divino.
Duas facetas em São Pedro
Nos versículos subsequentes, que não constam na Liturgia deste domingo, Nosso Senhor anuncia aos Apóstolos, pela primeira vez, sua Paixão (cf. Mt 16, 21), quiçá para contrabalançar a euforia em que se encontravam ante aquela grandiosa notícia e impedir que de modo errôneo a tomassem como sinal da realização iminente de seu sonho messiânico. Porém, ao ouvir a descrição dos horrores pelos quais o Mestre haveria de passar, Pedro O tomou à parte (cf. Mc 8, 32) e começou a repreendê-Lo, dizendo: “Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não Te acontecerá!” (Mt 16, 22). E Cristo, que pouco antes havia declarado ser Pedro a rocha sobre a qual iria construir a Igreja, agora o repele como a uma tentação: ‘Afasta-te, satanás!” (Mt 16, 23). Como entender isto?
Faltava a São Pedro uma força do Espírito Santo que lhe infundisse o amor verdadeiro e desinteressado e o preparasse para compreender a Paixão do Salvador. O Apóstolo, que agira tão bem na primeira prova, ao testemunhar com arrojo a divindade de Jesus Cristo, sucumbe nesta outra da aceitação da cruz e da dor. Ele, que fora inteiramente fiel, a ponto de ser Constituído a pedra sobre a qual a Igreja seria edificada, torna-se agora pedra de tropeço para o Mestre, que com essa categórica reação visava extirpar dos discípulos a mentalidade antiga da sinagoga e prepará-los para o espírito da Santa Igreja.
Vemos aqui as duas facetas de São Pedro: uma, inspirada pelo Espírito Santo, que lhe dá a visão divina das coisas; outra, a da natureza decaída pelo pecado original. Ao anunciar a instituição do Papado, Cristo procura vincar bem a distinção entre o que é a assistência do Paráclito para a infalibilidade e o que é a atuação humana. Querer sustentar a ideia de que todo Papa é santo não corresponde à realidade, O múnus petrino pode servir de caminho para a perfeição, e o ideal é que o Papa trilhe esta via, mas ele não perderá a infalibilidade, ainda que sua conduta não seja virtuosa.
III - E EU, QUEM DIGO QUE É JESUS?
Na segunda leitura, a Liturgia conjuga com a confissão de São Pedro um belo trecho da Carta de São Paulo aos Romanos, que ressalta a desproporção infinita entre a nossa inteligência criada e a Inteligência incriada, que é Deus: “O profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem se antecipou em dar-Lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a urna retribuição? Na verdade, tudo é d’Ele, por Ele e para Ele. A Ele, a glória para sempre. Amém!” (Rm 11, 33-36. Assim esta maravilhosa Liturgia nos indica a atitude perfeita que devemos ter como católicos, neste século XXI: sempre uma postura de humildade diante de Deus, reconhecendo, pela fé, sua grandeza extraordinária e incomensurável, sua onipotência, onisciência e onipresença, e manifestando esta verdade eterna que o Pai Celeste revelou ao Príncipe dos Apóstolos.
A consideração da magnífica cena contemplada no Evangelho sugere ainda um exame de consciência: quem é Jesus Cristo para mim? Que digo eu a respeito d’Ele? Ele é para mim o que São Pedro proclamou em Cesareia e São Paulo exalta nesta leitura, isto é, meu Criador, meu Redentor, em função de quem eu vivo? Ou, à semelhança dos judeus daqueles tempos, terei elaborado um Salvador conforme os meus anseios egoístas e mundanos? Caso eu tenha abraçado o erro, devo hoje pedir graças para retornar ao bom caminho, pois o prêmio eterno está vinculado à fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e à total entrega de nossa vida a Ele. E isto que nos faz amar o que Ele ordena e esperar o que Ele promete, como pede a Oração do Dia,13 e nos conduz à glória do Céu.
1) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.108, a.6, ad 3.
2) Cf. FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública, Madrid: Rialp, 2000, v.11, p.270-271.
3) Cf. TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, vV, p.368-369.
4) Cf. SÃO TOMAS DE AQUINO, op. cit., q.57, a.5, ad 1; q.58, a.5.
5) Cf. Idem, q.64, a.1, ad 4.
6) JOÃO PAULO TI Fides et ratio, n.16.
7) SAO JOAO CRISOSTOMO Homilía LD4 nl. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90) 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.11, p.138.
8) SANTO HILARIO DE POITIERS Commentarius in Evangelium Matthæi. C.XVI, n.4-5: ML 9, 748-749.
9) SÃO LEÃO MAGNO In Natali S. Petri Apostou, hom.70 [LXXXIII] n.l. In: Sermons. Paris: Du Cerf, 2006, v.IV p.6 1.
10) Cf. JONES, Alexander. Comentario al Evangelio de San Mateo. In: ORCHARD, OSB, Bernard et al. (Org.). Verbum Dei. Comentario a la Sagrada Escritura. Nuevo Testamento: Evangelios. Barcelona: Herder, 1957, p.416; LAGRANGE OP, Marie-Joseph. Evangile selon Saint Matthieu. 4.ed. Paris: J. Gabalda, 1927, p.323-324.
11)Dz 3074.
12) Cf. MALDONO SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1956, v.1, p.595-596.

13) Cf. 21° DOMINGO DO TEMPO COMUM. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.365.