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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

EVANGELHO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A - Mt 16, 13-20

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Mt 16, 13-20 -  XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
Opiniões diversas e equivocadas
14 Eles responderam: Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.
Os Apóstolos transmitem as conjecturas do povo: versões variadas e muito distantes da realidade, mas indicativas do quanto Jesus era reputado um homem extraordinário. E nada mais, além disso. De fato, sendo impossível abarcar sua grandeza, tentavam adequá-Lo à mente deles, equiparando-O a um profeta. No entanto, os Apóstolos conviviam com Nosso Senhor e percebiam que aqueles comentários não estavam à altura d’Ele. Vários dentre eles tinham sido discípulos de São João Batista e sabiam perfeitamente que o Mestre não era o Precursor ressuscitado, pois o haviam conhecido de perto, tendo ouvido de seus lábios: “eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de Lhe desatar a correia das sandálias” (Lc 3, 16). Aliás, ele havia indicado Jesus a Santo André e a São João Evangelista, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 36). Com relação às hipóteses de Cristo ser Jeremias ressurrecto ou Elias que ainda estava e continua vivo, segundo uma consagrada tradição, eles também não tinham dúvidas de serem falsas.
Todavia, receosos de perder a consonância com a opinião pública, os próprios Apóstolos evitavam levantar o problema e perguntar sobre as origens de Cristo Jesus. Sabiam que era filho de Maria e José, mas ignoravam onde havia estudado, de onde provinha tanta sabedoria, como conseguira o poder de fazer milagres.
O que lhes faltava para se destacarem dessas Opiniões e dar um passo adiante na compreensão do Mestre? Um dom de . Corn eieito, “a fé aperfeiçoa o olhar interior, abrindo a mente para descobrir, no curso dos acontecimentos, a presença operante da Providência. [...] a razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a Possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e Deus”.6
Uma resposta inspirada
15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, Quem dizeis que Eu sou?” 16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.
Nesta segunda pergunta é importante ressaltar como o Divino Mestre Se refere a Si mesmo, pois já não diz “o Filho do Homem”, mas indaga: “quem dizeis que Eu sou?”. Comenta São João Crisóstomo ser esta uma forma de “convidá-los a conceber pensamentos mais altos sobre Ele e mostrar-lhes que a primeira sentença ficava muito abaixo de sua autêntica dignidade”.7
São Pedro, cujo temperamento expansivo o levava a dizer tudo quanto pensava, adiantou-se a responder: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”! Dir-se-ia que esta frase lapidar era uma elaboração da experiência do Apóstolo, fruto de madura e profunda ieflexão. Ora, como poderia ele, pelo mero concurso do raciocfriio chegar à conclusão de que fosse Deus aquele Mestre “exteriormente reconhecido como Homem” (Fi 2, 8), que Se cansava, sentia sono, fome e sede?
A fidelidade de Pedro à inspiração do Pai
17 Respondendo Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no Céu”.
Jesus declara que Pedro é feliz por ter sido aquinhoado pelo Pai, ao lhe ser revelada tão alta verdade. A propósito desta passagem observa Santo Hilário: “A fé verdadeira e inviolável consiste em crer que o Filho de Deus foi engendrado por Deus e tem a mesma eternidade do Pai. {...j E a confissão perfeita consiste em dizer que este Filho tomou Corpo e Se fez Homem. Compreendeu pois, tudo o que expressa sua natureza e seu nome, no que está a perfeição das virtudes”.8
São Pedro foi fiel à inspiração divina e, a despeito das impressões humanas, externou sua fé. Como prêmio por sua correspondência à graça e por tão robusta fé, quis o Mestre outorgar ao Apóstolo um tesouro, como a dizer, na bela expressão de São Leão Magno: “do mesmo modo que meu Pai te manifestou minha divindade, assim também Eu te faço conhecer tua excelência”.9
E foi nesse momento que se tornou clara para todos os Apóstolos a missão que lhes estava reservada: anunciar ao mundo Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro.
A promessa da invencibilidade da Igreja
8 “Por isso Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 9 te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na Terra será ligado nos Céus; tudo o que tu desligares na Terra será desligado nos Céus”.
20 Jesus então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.
No aramaico não há distinção de gênero entre os substantivos Pedro e pedra, sendo ambos expressos por uma única palavra — kefa’. Ou seja, Jesus disse que Ele iria edificar a Igreja sobre esta kefa’ —pedra — que é Pedro.10
Com tais palavras Cristo dá a Pedro o poder divino, absoluto e inabalável, de sustentar a Santa Igreja. Hoje, transcorridos mais de dois mil anos, passou ela por grandes procelas e convulsões, mas continua de pé e, aconteça o que acontecer, permanecerá firme até o fim do mundo. A Igreja não corre risco de que seu poder seja usurpado pelas hostes infernais, porque está alicerçada nesta promessa. A morte nunca a atingirá! E isto não quer dizer que a Igreja sobreviverá às vicissitudes numa constante agonia. Pelo contrário, ela sempre esteve e estará jovem em todas as eras históricas, quer durante as perseguições romanas, com milhares de mártires subindo ao Céu, do Coliseu ou do Circo Máximo; quer nos esplendores da Idade Média, com o florescer glorioso das catedrais góticas, iluminadas pela policromia dos vitrais e animadas pelo som majestoso do órgão; e inclusive em nossos dias, em que a humanidade jaz num relativismo e materialismo sem precedentes.
A infabilidade e o poder das chaves
Nesta ocasião Nosso Senhor oferece também a Pedro a garantia da infalibilidade ao declarar que suas decisões na Terra serão ratificadas no Céu. Ele será assistido pelo Espírito Santo para ensinar a verdade, o que torna impossível à Igreja desviar-se, seguindo falsas doutrinas. Graças a este carisma o Sumo Pontífice não erra quando se pronuncia ex cathedra, “isto é, quando, no desempenho do múnus de pastor e doutor de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica que determinada doutrina referente à Fé e à moral deve ser sustentada por toda a Igreja”.11 O Papado tem sido uma das instituições mais combatidas ao longo da História, o ponto no qual se concentra o ódio do demônio e das forças do mal e, ao mesmo tempo, o fator de estabilidade do Corpo Místico de Cristo, único organismo a gozar deste privilégio.
Analisam os autores o alcance do poder das chaves, e muitos defendem que as palavras “na Terra” compreendem tudo o que está nela e debaixo dela, isto é, os vivos e também os mortos.
Assim, o Papa tem autoridade para canonizar um Bem-aventurado e fazer com que este receba um acréscimo de glória acidental na eternidade; para aplicar sufrágios específicos aos fiéis que estão no Purgatório e até para excomungar um falecido.12 Era necessário existir um homem com tais atribuições aqui na Terra, a fim de que tivéssemos uma ligação direta com o Céu!
Também aos Bispos e sacerdotes, sob o primado do Papa e em total dependência dele, é concedido o poder das chaves, embora de forma menos intensa que ao Sumo Pontífice. No confessionário, por exemplo, o padre tem a faculdade de absolver ou não o penitente de seus pecados, fazendo com que as portas do Céu se abram para ele ou continuem fechadas. Enquanto o Paraíso Terrestre criado por Deus para os homens — está guardado por Querubins, desde que Adão e Eva de lá foram expulsos (cf. Gn 3, 24), as chaves do Paraíso Celeste, morada dos Anjos bons, foram confiadas a um homem! Portanto, São Pedro obteve de Jesus muitíssimo mais do que Adão perdera!
Dir-se-ia ser um perigo depositar tal tesouro nas mãos de um homem... Sim, caso não fosse Deus o Doador! Quem o entrega a São Pedro é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo e, na realidade, é Ele quem governa a Igreja. Se nela houve abusos e desvios ao longo da História, foram por Ele permitidos para provar que, ainda que o elemento humano esteja presente, sempre prevalecerá o elemento divino.
Duas facetas em São Pedro
Nos versículos subsequentes, que não constam na Liturgia deste domingo, Nosso Senhor anuncia aos Apóstolos, pela primeira vez, sua Paixão (cf. Mt 16, 21), quiçá para contrabalançar a euforia em que se encontravam ante aquela grandiosa notícia e impedir que de modo errôneo a tomassem como sinal da realização iminente de seu sonho messiânico. Porém, ao ouvir a descrição dos horrores pelos quais o Mestre haveria de passar, Pedro O tomou à parte (cf. Mc 8, 32) e começou a repreendê-Lo, dizendo: “Que Deus não permita isto, Senhor! Isto não Te acontecerá!” (Mt 16, 22). E Cristo, que pouco antes havia declarado ser Pedro a rocha sobre a qual iria construir a Igreja, agora o repele como a uma tentação: ‘Afasta-te, satanás!” (Mt 16, 23). Como entender isto?
Faltava a São Pedro uma força do Espírito Santo que lhe infundisse o amor verdadeiro e desinteressado e o preparasse para compreender a Paixão do Salvador. O Apóstolo, que agira tão bem na primeira prova, ao testemunhar com arrojo a divindade de Jesus Cristo, sucumbe nesta outra da aceitação da cruz e da dor. Ele, que fora inteiramente fiel, a ponto de ser Constituído a pedra sobre a qual a Igreja seria edificada, torna-se agora pedra de tropeço para o Mestre, que com essa categórica reação visava extirpar dos discípulos a mentalidade antiga da sinagoga e prepará-los para o espírito da Santa Igreja.
Vemos aqui as duas facetas de São Pedro: uma, inspirada pelo Espírito Santo, que lhe dá a visão divina das coisas; outra, a da natureza decaída pelo pecado original. Ao anunciar a instituição do Papado, Cristo procura vincar bem a distinção entre o que é a assistência do Paráclito para a infalibilidade e o que é a atuação humana. Querer sustentar a ideia de que todo Papa é santo não corresponde à realidade, O múnus petrino pode servir de caminho para a perfeição, e o ideal é que o Papa trilhe esta via, mas ele não perderá a infalibilidade, ainda que sua conduta não seja virtuosa.
III - E EU, QUEM DIGO QUE É JESUS?
Na segunda leitura, a Liturgia conjuga com a confissão de São Pedro um belo trecho da Carta de São Paulo aos Romanos, que ressalta a desproporção infinita entre a nossa inteligência criada e a Inteligência incriada, que é Deus: “O profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! De fato, quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem se antecipou em dar-Lhe alguma coisa, de maneira a ter direito a urna retribuição? Na verdade, tudo é d’Ele, por Ele e para Ele. A Ele, a glória para sempre. Amém!” (Rm 11, 33-36. Assim esta maravilhosa Liturgia nos indica a atitude perfeita que devemos ter como católicos, neste século XXI: sempre uma postura de humildade diante de Deus, reconhecendo, pela fé, sua grandeza extraordinária e incomensurável, sua onipotência, onisciência e onipresença, e manifestando esta verdade eterna que o Pai Celeste revelou ao Príncipe dos Apóstolos.
A consideração da magnífica cena contemplada no Evangelho sugere ainda um exame de consciência: quem é Jesus Cristo para mim? Que digo eu a respeito d’Ele? Ele é para mim o que São Pedro proclamou em Cesareia e São Paulo exalta nesta leitura, isto é, meu Criador, meu Redentor, em função de quem eu vivo? Ou, à semelhança dos judeus daqueles tempos, terei elaborado um Salvador conforme os meus anseios egoístas e mundanos? Caso eu tenha abraçado o erro, devo hoje pedir graças para retornar ao bom caminho, pois o prêmio eterno está vinculado à fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e à total entrega de nossa vida a Ele. E isto que nos faz amar o que Ele ordena e esperar o que Ele promete, como pede a Oração do Dia,13 e nos conduz à glória do Céu.
1) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.108, a.6, ad 3.
2) Cf. FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública, Madrid: Rialp, 2000, v.11, p.270-271.
3) Cf. TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, vV, p.368-369.
4) Cf. SÃO TOMAS DE AQUINO, op. cit., q.57, a.5, ad 1; q.58, a.5.
5) Cf. Idem, q.64, a.1, ad 4.
6) JOÃO PAULO TI Fides et ratio, n.16.
7) SAO JOAO CRISOSTOMO Homilía LD4 nl. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90) 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.11, p.138.
8) SANTO HILARIO DE POITIERS Commentarius in Evangelium Matthæi. C.XVI, n.4-5: ML 9, 748-749.
9) SÃO LEÃO MAGNO In Natali S. Petri Apostou, hom.70 [LXXXIII] n.l. In: Sermons. Paris: Du Cerf, 2006, v.IV p.6 1.
10) Cf. JONES, Alexander. Comentario al Evangelio de San Mateo. In: ORCHARD, OSB, Bernard et al. (Org.). Verbum Dei. Comentario a la Sagrada Escritura. Nuevo Testamento: Evangelios. Barcelona: Herder, 1957, p.416; LAGRANGE OP, Marie-Joseph. Evangile selon Saint Matthieu. 4.ed. Paris: J. Gabalda, 1927, p.323-324.
11)Dz 3074.
12) Cf. MALDONO SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1956, v.1, p.595-596.

13) Cf. 21° DOMINGO DO TEMPO COMUM. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.365.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

EVANGELHO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A - Mt 16, 13-20

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Mt 16, 13-20 -  XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
Eles esperavam um Messias temporal
Não devemos esquecer que a classe mais alta da sociedade judaica era Constituída pelos saduceus e fariseus, dois influentes partidos religiosos que se digladiavam. Enquanto os primeiros, acomodados aos privilégios de que gozavam, pouco se preocupavam com a vinda do Messias, os fariseus incutiam uma ideia equivocada no povo — de si muito propenso a aceitá-la —, segundo a qual o principal objetivo do Salvador seria o de promover a supremacia político-social e econômica de Israel sobre todas as outras nações da Terra.
Ora, diversas características apresentadas por Nosso Senhor não coincidiam com tal anseio. Se, sob certo aspecto, Jesus superava as expectativas messiânicas, também é verdade que várias vezes a opinião pública mostrava-se chocada em relação a Ele. Quando — depois da multiplicação dos pães e de ter caminhado sobre as águas — anunciou a Eucaristia, declarando: “Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. Eo pão, que Eu hei de dar, é a minha Carne para a salvação do mundo” (Jo 6, 51), os judeus se escandalizaram, pois interpretaram suas palavras no sentido de canibalismo. Inclusive, “desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com Ele” (Jo 6, 66).
Nesta mesma ocasião o Mestre perguntou aos Doze: “Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6, 67), como a dizer: “a opinião pública abandonou-Me; não quereis segui-la?”. E São Pedro Lhe respondeu: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6, 68). Tal reação indica que na mentalidade dos Apóstolos começava a se configurar uma ideia mais acertada a respeito do Messias, graças à virtude da fé que lhes estava alargando os horizontes interiores, pois, sem este auxilio sobrenatural, as verdades reveladas — sobretudo as atinentes aos mais altos mistérios de nossa Fé — não podem ser atingidas pela razão humana.
Bem outra, contudo, foi a atitude dos fariseus e saduceus. Como não quiseram aceitar Nosso Senhor, chegaram a acusá-Lo de exorcizar “por Beelzebul, chefe dos demônios” (Mt 12, 24), e terminaram por planejar a sua morte.
É nesta perspectiva que analisaremos o episódio narrado por São Mateus, ocorrido por volta de uma semana antes da Transfiguração de Jesus, no Monte Tabor (cf. Mt 17, 1; Mc 9, 2; Lc 9, 28). A Paixão estava próxima e era preciso separar definitivamente os Apóstolos da sinagoga — da qual eram membros fervorosos —, deixando-lhes claro que a instituição que Ele vinha fundar levaria aquela à plenitude e seria a realização de todas as profecias da Antiga Lei.
II - A PROMESSA DA FUNDAÇÃO DA IGREJA
Naquele tempo,  Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”
Partindo de Betsaida, onde havia curado um cego (cf. Mc 8, 22-26), Nosso Senhor Se dirigiu com os discípulos a Cesareia de Filipe, cidade situada a uns 50 km de distância, num território de exuberante beleza natural, situado ao norte da Palestina. Herodes — chamado o Grande — havia ali edificado um templo destinado ao culto de César Augusto, e mais tarde, quando Filipe se tornou tetrarca da região, deu à localidade o nome de Cesareia, para angariar as simpatias do imperador.2 E provável que a cena descrita nesses versículos tenha se dado à vista daquele edifício pagão, o qual se erguia no alto de um rochedo, dominando o panorama.3
Um método para formar os Apóstolos
Na pergunta formulada pelo Divino Mestre podemos entrever o interessante método empregado para formar os Apóstolos. Estes foram comprovando por si, ao ouvirem as pregações e presenciarem os milagres, o quanto Ele era um Mestre incomum. Entretanto, se não houvesse uma revelação eles jamais cogitariam ser Jesus o próprio Deus! Nem sequer os Anjos, no estado de prova, chegariam a esta conclusão por si mesmos, pois o mistério da união hipostática é algo que escapa completamente não só à inteligência humana, como também à angélica.4 Os demônios não tinham, por isso, uma noção clara a respeito da divindade de Cristo.5
Ademais, ao Se encarnar no seio puríssimo de Maria, Nosso Senhor fez o milagre negativo de assumir um corpo padecente. Do contrário, este seria glorioso, em inteira consonância com sua Alma, a qual gozava da visão beatífica desde o primeiro instante de sua criação. Deste modo, velava aos olhos dos homens os fulgores de sua divindade, não permitindo que eles percebessem com clareza quem Ele era: a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, igual ao Pai e ao Espírito Santo. A tal ponto que, na Ultima Ceia, São Filipe ainda pede a Jesus para lhes mostrar o Pai, e recebe d’Ele esta resposta: “Há tanto tempo que estou convoco e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai” (Jo 14, 9).

Sendo Ele a Humildade e a Prudência, nada disse a esse respeito desde o início, ao convocar os discípulos a segui-Lo. Agora, porém, uma vez que eles estavam impregnados e pervadidos de provas, o Salvador quer levá-los a conhecer este mistério. Era o momento de introduzir os Apóstolos na perspectiva da divindade d’Ele. E interessante notar que, ao questioná-los sobre o parecer popular, Jesus não usa expressões como “de Mim” ou “de minha Pessoa”, e sim “do Filho do Homem”. Por quê? Porque o povo tinha uma opinião sobre o Filho do Homem e não a respeito d’Ele, que é Deus, da Pessoa d’Ele, que é divina. Por conseguinte, Nosso Senhor quer chamar a atenção dos Apóstolos para a consideração que o povo dava à sua natureza humana, a fim de demovê-los desse juízo errado e manifestar-lhes quem Ele é.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

EVANGELHO – XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”
14 Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.
15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que Eu Sou?”
16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.
17 Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no Céu. 18 Por isso Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. ‘ Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na Terra será ligado nos Céus; tudo o que tu desligares na Terra será desligado nos Céus”.
20 Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias (Mt 16, 13-20).
COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Mt 16, 13-20 XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM
A fé de Pedro, fundamento do Papado
Num ardoroso ímpeto de fé, São Pedro adianta-se aos outros Apóstolos e proclama que Cristo é o Filho de Deus. Como recompensa a este ato de fidelidade, Jesus o constitui a pedra sobre a qual edificará sua Igreja.
I – PARA BEM CONHECER JESUS É PRECISO TER FÉ
Se analisarmos as operações da inteligência e da vontade humana, facilmente constataremos uma peculiaridade que as torna muito distintas uma da outra. Valendo-nos de linguagem figurada, podemos dizer que a primeira faz com que as coisas entendidas venham até si; a segunda, pelo contrário, voa até elas, ao desejá-las. Neste sentido, afirma São Tomás que “há conhecimento quando o objeto conhecido está no que conhece; já o amor quando o amante está unido à coisa amada”.1 O ato de entender implica, portanto, em adequar às dimensões de nossa inteligência tudo quanto nós assimilamos. Quando se trata de compreender um objeto inferior a nós, nossa razão o enriquece, e este passa a existir em nossa mente de modo mais nobre do que é em si mesmo.
Por exemplo, ao dedicar-se a estudar uma formiga, um cientista é capaz de destrinchá-la com o auxílio de microscópios, utilizá-la para experiências químicas, extrair dela o ácido fórmico. Haverá ainda quem estabeleça correlações entre certas características de seu comportamento — tais como a determinação e a tenacidade em providenciar alimento e transportá-lo para o formigueiro, ou sua tendência gregária — e uma série de princípios psicológicos. A inteligência humana pode, então, encontrar na formiga valores que esta jamais compreenderá, por ser irracional, conferindo-lhe uma importância que transcende à de um mero inseto.
Bem diferente, porém, é o que acontece quando pretendemos Conhecer seres superiores a nós, porque como não conseguimos abarcar sua grandeza, nossa inteligência os diminui até ficarem proporcionados aos limites desta. Tal é, precisamente, a função de um bom mestre: tomar doutrinas complexas e traduzi-las de maneira acessível, conforme a capacidade dos alunos. Se assim não proceder, seus ouvintes, menos preparados e sábios, não conseguirão aprender.
Estas Considerações nos ajudarão a acompanhar melhor a Liturgia do 21° Domingo do Tempo Comum, pois elas se aplicam a certos episódios da existência terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Jesus começa sua pregação
Na aparência, a vida de Jesus até cerca de 30 anos transcorreu como a de um homem comum. Velando os reflexos de sua divindade, ajudava o pai no serviço e era conhecido como “o filho do carpinteiro” (Mt 13, 55), noção fácil de ser assimilada. São José, em sua simplicidade, também não deixava transparecer toda a sublimidade de sua vocação era pai adotivo do próprio Deus Encarnado! e ninguém, fora do seio da Sagrada Família, percebia o altíssimo mistério que nela se realizava. Embora Jesus e José fossem bem conceituados na pequena Nazaré, pela honestidade, perfeição e responsabilidade com que executavam seus trabalhos, é evidente que tal apreciação estava muito aquém de sua autêntica dignidade.

Entretanto, em certo momento morre São José e, algum tempo depois, Nosso Senhor começa o seu ministério, dirigindo-Se a cidades mais importantes do que Nazaré, tais como Cafarnaum, Corozaim e Betsaida. Conforme narram os evangelistas, Ele “percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas as doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4, 23). Sua fama logo se difundiu “por todos os lugares da circunvizinhança” (Lc 4, 37), de sorte que “onde quer que Ele entrasse, fosse nas aldeias ou nos povoados, ou nas cidades, punham os enfermos nas ruas e pediam-Lhe que os deixassem tocar ao menos na orla de suas vestes” (Mc 6, 56). Quando instruía o povo, “maravilhavam-se da sua doutrina, porque Ele ensinava com autoridade” (Lc 4, 32) e, ao operar milagres, provocava assombro a ponto de suscitar a exclamação das multidões: “Jamais se viu algo semelhante em Israel” (Mt 9, 33). Uma simples ordem d’Ele fez cessar a tempestade e acalmou o mar, impressionando tanto os discípulos, que estes se perguntavam uns aos outros: “Quem é este Homem a quem até os ventos e o mar obedecem?” (Mt 8, 27). Todavia, esse impacto por Ele causado produzia incômodo nos judeus. Por quê?
Continua no próximo post.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Evangelho Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – Lc 1, 39-56

Conclusão dos comentários ao Evangelho Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – Lc 1, 39-56
Júbilo na eternidade
Que gáudio incomparável experimentaram todas as almas bem-aventuradas quando Nossa Senhora ali entrou em corpo e alma! Embora seu Divino Filho já estivesse ressurrecto na companhia dos eleitos, o fato de unir-Se a eles, sendo a mais bela, elevada e santa das puras criaturas, foi um surto de consolação para quantos aguardavam a ressurreição de seus corpos. No que diz respeito aos Anjos, vinham eles esperando havia muito tempo tal acontecimento, pois Maria fora a pedra de escândalo, o sinal de contradição que dividira o mundo angélico, e a fidelidade a Ela, enquanto protagonista do plano divino, havia sido a causa da beatitude dos bons.
Ao lado deste, outro motivo os fazia ansiar pela chegada da Virgem Santíssima: ao criar o Céu Empíreo, Deus o fez de modo definitivo, tendo preparado desde o início todos os tronos destinados aos Bem-aventurados e, dentre estes, o de Nosso Senhor Jesus Cristo Homem e o de Nossa Senhora Rainha. Assim, desde muito antes que ambos nascessem, os Anjos observavam e admiravam a magnificência dos lugares reservados para Eles, perguntando-se quando seriam ocupados. No caso de Maria, é possível que Deus os tenha deixado em certo suspense, sem revelar pormenores sobre a sua natividade, a fim de que levantassem hipóteses ao longo da História da salvação, permanecendo sempre atentos para discernir quando a prevaricação do povo eleito O levaria a suscitar aquela filha perfeita. Ávidos de vê-La sentada no trono que Lhe fora destinado, queriam venerá-La, prestar honras e homenagens a uma Rainha que, sendo apenas criatura humana, teria mais graça que todos eles juntos. E no instante de sua subida aos Céus que, finalmente, veem a realização desse anseio, e com quanto júbilo!
A coroação da Santíssima Virgem
Tendo Nossa Senhora completado sua missão, bem podemos imaginar como foi seu triunfo no Céu: as três Pessoas da Santíssima Trindade A receberam e A glorificaram. Coroada pelo Pai, que Lhe conferia o poder impetratório e depositava em suas mãos o governo da criação, Maria Santíssima passou a ser a administradora dos tesouros divinos; um suspiro d’Ela é capaz de mover a vontade do Criador, O Filho, a Sabedoria Eterna e Encarnada, Lhe deu toda a sabedoria, e o Espírito Santo, enquanto seu Esposo, Lhe concedeu a faculdade de santificar as almas.
II - HUMILDADE, FONTE DA GRANDEZA
Toda a grandeza que contemplamos em Maria Santíssima tem origem em sua humildade, o que se torna patente no trecho do Evangelho recolhido pela Santa Igreja para esta Solenidade. Em sua primeira parte vemos, sobretudo, o quanto Santa Isabel A elogia e exalta. Como já tivemos oportunidade de fazer extensas considerações a esse respeito,10 limitemo-nos, no restrito espaço do presente artigo sobre a Assunção, a comentar de modo breve as palavras de Maria, isto é, o Magnificat.
Riquíssimo e de incomparável beleza, como convém a um cântico nascido dos lábios da Santíssima Virgem, bem pode ser considerado como um marco na História, dividindo-a em duas fases: o que veio antes, o egoísmo; e o que veio depois, a santidade, fruto da humildade. Com o pecado original o orgulho foi introduzido na humanidade, maculando sua trajetória, até o momento em que, sem nenhuma sombra desse vício, nasceu Maria. Sua Visitação a Santa Isabel é para nós exemplo da preocupação que precisamos ter uns com os outros, procurando que cada um venha a ser mais do que é.
A humildade de Maria Lhe fez merecer a glória
46 Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações Me chamarão Bem-Aventurada, 8 porque o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é Santo, 50 e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que O respeitam”.
Deus é a Bondade e, portanto, sumamente dadivoso, pois é próprio à sua natureza a constante disposição de dar. O grande problema somos nós mesmos, já que, com frequência, colocamos obstáculos à sua generosidade. Nos primeiros versículos do Magnificat, Nossa Senhora mostra como o Senhor olha para suas criaturas com amor e desejo de conceder seus dons. Ele nos quer tanto que, em virtude desse amor, vai infundindo em nossas almas o Bem — que é Ele mesmo. Este é o princípio e a raiz de toda perfeição e santidade, e não o esforço pessoal, como, talvez, poderíamos ser levados a crer. Maria não levantou obstáculos a esta ação divina devido ao reconhecimento de seu próprio nada, e a claríssima consciência de sua contingência fez com que o olhar criador de Deus pousasse sobre Ela e operasse maravilhas. Sua humildade Lhe deu mérito para ser a Mãe de Deus e, tendo-se acrisolado ao longo da vida terrena, tomou-A digna da Assunção aos Céus.
Uma figura pode ajudar a entendermos com mais clareza esta verdade: imaginemos uma grande bordadeira que, ao receber de presente certo tecido de linho branco, idealiza um bordado extraordinário. Contudo, se lhe for oferecido um tecido estampado ela não terá como exercer suas habilidades. O mesmo se passa quando Deus encontra em nossas almas o vazio, pois decide realizar nelas um magnifico “bordado”, como o fez com a Virgem Maria.
Quando conhecemos pessoas cheias de si ficamos compadecidos, pois damo-nos conta de que impedem a Deus de cumulá-las com sua graça. Falta-lhes a humildade. Esta vai se tornando rara em nossos dias e não deve ser confundida com uma falsa virtude propugnada pelo igualitarismo, desdobramento do orgulho, por sua vez pai de todos os vícios e causa mais profunda de tantos desvarios sentimentais e impuros. A autêntica despretensão existe quando há disponibilidade em relação a Deus, inteira consonância com Ele, abandono em suas mãos e desejo de cumprir sua santíssima vonta de. Quanto falta à sociedade de hoje esse estado de espírito!
As promessas do mundo face às promessas de Deus
51 Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52 Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias”.
O cântico do Magnificat passa, nestes versículos, para uma segunda parte. Na primeira, como vimos, Maria descreve os favores recebidos, e nesta segunda mostra o nada do mundo, a fim de ressaltar o quanto ele e o demônio, com aparência de grande poder, fazem promessas muito diferentes das divinas. A paz mundana pareceria acalmar todos os nossos desejos ilegítimos, fruto do pecado original. No entanto, quando algo nos é proposto pelo adversário de Deus, tenhamos a certeza de ser precisamente o que ele nos irá roubar. O demônio promete a glória, e é a glória eterna que nos arrebata; promete o bem-estar, e é o bem-estar que nos tira, porque se pecarmos seremos infelizes nesta vida e depois por toda a eternidade, tal como ele.
A paz oferecida por Deus exige luta. “Si vis pacem, para bellum — Se quereis a paz, preparai-vos para a guerra”.1’ Dentro de nós, para adquirir a verdadeira paz, é preciso guerrear contra nossas más inclinações e sermos heróis. E então que se manifesta em nós “a força de seu braço”, que é onipotente e derruba os orgulhosos, enquanto “levanta do pó o indigente e tira o pobre do monturo, para, entre os príncipes, fazê-lo sentar-se” (Sl 112, 7-8).
Ao mesmo tempo, Ele enche de dons e graças aquele que tem sede e fome de justiça, e despede de mãos vazias os que se julgam cheios dos bens do mundo, ou seja, prestígio, fortuna, ciência, etc.
Deus sempre supera nossas expectativas
54 “Socorreu Israel, seu servo, lembrando-Se de sua misericórdia, 55 conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”.
Na última parte de seu inspirado cântico, Nossa Senhora frisa como Deus — opostamente ao demônio, ao mundo e à carne — dá tudo quanto promete e o faz em superabundância. Ele nos oferece uma vida eterna extraordinária, e quando virmos a realidade nos daremos conta de que nos concedeu muito mais do que éramos capazes de imaginar. A luz da contemplação da glória de Maria, neste dia somos convidados, com o Magnificat, a ter o coração repleto de confiança no Senhor que, em sua prodigalidade divina, quer nos cumular de bens desde que não coloquemos obstáculos.
III - UM CAMINHO DE LUZ É ABERTO A TODOS
Liturgia desta Solenidade nos abre grandes portas e um caminho florido e cheio de luz, no que diz respeito à salvação eterna. Diante do penhor de nossa ressurreição, que nos é dado pelo mistério da Assunção de Maria Santíssima, deveríamos nós considerar mutuamente uns aos outros segundo esse ideal, como se estivéssemos já ressurrectos, pois acima do abatimento e das provações desta vida brilha a esperança da glorificação para a qual rumamos.
Vivamos buscando os bens do alto, e que nosso pensamento acompanhe o trajeto seguido por Maria Virgem. Ela penetrou no Céu em corpo e alma e foi exaltada; nós, na hora presente, como não podemos adentrá-lo fisicamente, façamo-lo ao menos em desejo. Voltemo-nos para o trono de Maria Assunta, e assim receberemos graças sobre graças para estarmos sempre postos nesta via que nos conduzirá à ressurreição feliz e eterna, quando recuperaremos os nossos corpos em estado glorioso.
1) SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA. Oração do Dia. In:MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.638.
2)Cf. STO AGOSTINHO De Civitate Dei. L.XI, c.19. In: Obras. 3.ed. Madrid: BAC, 1977, v.XVI, p.717.
3) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.61, a.4.
4) SÃO BERNARDO. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. Sermón XVII, n.4. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1955, v.11, p.106.
5) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO, op. cit., q.58, a.6; a.7.
6) SANTO AGOSTINHO. De Genesi ad litteram. L.IV, c.30, n.47. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 1969, v.XV, p.632.
7) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II, q.24, al.
8) SANTO ALBERTO MAGNO. Mariale. Q. XLVI, n.l. Buenos Aires: Emecé, 1948, p.235.
9) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit, III, q.57, a.3.
10) Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A arrebatadora excelência da voz de Maria. In:Arautos do Evangelho. São Paulo. N.132 (Dez., 2012); p.10-17; Comentário ao Evangelho do IV Domingo do Advento — Ano C

11) Este adágio latino provém de um antigo texto romano, de fins do século IV, dC: “Igitur qui desiderat pacem, prceparet bellum; qui victoriam cupit, milites imbuat di ligenter; qui secundos optat eventus, dimicet arte, non casu. Nemo provocare, nemo audet offendere, quem intellegit superiorem esse pugnaturum” (VEGETI RENATI, Flavii. Epitoma rei militaris. L.III, proem. Lipsiæ: B. G. Teubneri, 1869, p.64).

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Evangelho Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – Lc 1, 39-56

Continuação dos comentários ao Evangelho Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – Lc 1, 39-56
Cristo ressuscitado, fundamento de nossa fé
Já na segunda leitura escutamos a voz de São Paulo, o arauto da Ressurreição, dirigindo-se aos Coríntios (I Cor 15, 20-27a).
Quis a Providência que ele desenvolvesse boa parte de seu apostolado entre os gregos, povo que não admitia a ressurreição dos corpos no último dia, porque se a aceitassem tornar-se-ia forçoso reconhecer a existência de uma vida post mortem, em função da qual deveriam seguir a moral. Como eles não estavam dispostos a assumir um comportamento íntegro, deixaram-se rolar precipício abaixo impelidos pelo vício da impureza. Sua depravação de costumes ficou conhecida na História. A eles São Paulo declara em um versículo anterior: “Se Cristo não ressuscitou, vã é nossa pregação e vã é também vossa fé” (I Cor 15, 14).
Dada a firme convicção que caracteriza sua doutrina acerca deste mistério, somos levados a crer que o Apóstolo tenha tratado com o próprio Nosso Senhor a respeito disto, que lhe terá fornecido elementos claríssimos para sustentar tal verdade. Por isso, diz importar-se pouco com o sofrimento, a alegria ou com qualquer circunstância adversa, pois nada pode separá-lo de Cristo (cf. Rm 8, 35), considerando a morte como um lucro (cf. Fl 1, 21) e um meio para unir-se ainda mais ao Salvador. De fato, São Paulo deposita uma esperança extraordinária na ressurreição, do que dão testemunho suas epístolas, nas quais encontramos a cada passo alguma referência a este grandioso acontecimento.
Precedidos por um membro eminente do Corpo Místico
O ensinamento paulino a respeito da ressurreição, que procura nos estimular à esperança — “Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (I Cor 15, 20) —, pode ser aplicado com propriedade também a Nossa Senhora. A partir do momento em que o Redentor constituiu seu Corpo Místico, do qual Ele é a Cabeça, não se compreenderia que só Ele ressuscitasse, pois seu desígnio consiste em abrir o caminho para o Corpo inteiro gozar do mesmo benefício. Caso Nosso Senhor ressurgisse dos mortos e todos os membros da Igreja triunfante permanecessem no Céu apenas em alma, mesmo após o Juízo Final, esta seria uma obra disforme, pouco condizente com o seu modo divino de proceder.
Por isso, continua São Paulo: “Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão” (I Cor 15, 21-22). Ao traçar um paralelo entre Cristo e Adão, o Apóstolo mostra que não conheceríamos a morte se não fosse o pecado do primeiro homem, sendo necessário que outro homem triunfasse sobre ele. Nossas almas já foram purificadas da mancha original pelo Batismo, mas falta-nos ainda vencer a morte com os nossos corpos ressurrectos. “Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda” (I Cor 15, 23). Entre os que são d’Ele destaca-Se Nossa Senhora, a mais excelsa criatura humana, que adquire corpo glorioso e ocupa no Céu um lugar especial por ser a Mãe de Deus.
Embora a Igreja não tenha definido se Maria morreu ou não, é dogma de Fé que Ela transpôs os umbrais da eternidade em corpo e alma, realizando o plano de Deus. Sua Assunção oferece-nos um penhor de esperança, que em certo sentido pode ser considerado maior que o da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta ousada afirmação prende-se a que Ela, enquanto pura criatura, é a Filha primogênita da Igreja, o membro de máxima elevação do Corpo Místico de Cristo, e Se encontra, portanto, mais próxima de nossa contingência humana que seu Divino Filho, que é Homem mas também é Deus.
A exemplo de Maria
Na passagem de Maria Santíssima deste mundo para a eternidade vislumbramos desde já o que nos acontecerá no Juízo Final, caso venhamos a morrer em estado de graça. Todos nós — esta é uma profecia que qualquer um pode fazer, sem risco de incorrer em erro — partiremos desta vida. E quanto tempo mediará entre a morte e a ressurreição? Não importa, pois para Deus nada é impossível. Nossa alma foi por Ele criada a partir do nada e o corpo, embora tenha origem humana nos pais, foi constituído por Ele. Adão, o mais belo ser de toda a obra da criação, foi modelado como um boneco de barro por um artista chamado Deus, e também o barro foi criado sem qualquer matéria preexistente, como o resto do universo. Isto nos mostra que Deus, sendo onipotente, pode criar e recriar todos os seres. Assim como nos formou individualmente e infunde a alma em cada criança recém-concebida, pode mandar que os restos mortais de homens falecidos — alguns há milhares de anos, como nossos pais Adão e Eva — sejam reunidos e seus corpos reconstituídos em estado glorioso. Em última análise, a ressurreição certifica a onipotência divina. Pela simples lembrança de que morreremos, seremos sepultados e esperaremos até sermos recompostos de forma gloriosa, a ponto de adquirirmos um corpo espiritualizado, já antegozamos esse momento de extraordinária beleza em que triunfaremos, como Nossa Senhora no dia da Assunção.
Maria não podia conter mais graça
É edificante considerar que, independentemente de Maria Santíssima ter morrido ou não, pelo fato de ser imaculada nunca sofreu Ela nenhuma enfermidade, não envelheceu ou padeceu a menor mazela decorrente do pecado, e seu corpo não esteve sujeito à decomposição, sendo esta uma das razões de sua Assunção ao Céu. Levantemos, porém, algumas hipóteses a respeito de outros motivos que terão levado Nossa Senhora a passar desta vida para a eternidade com seu corpo glorioso.
Ensina a doutrina católica ser a caridade uma virtude que se radica na vontade.7 Quando é muito forte, o amor impele quem ama a unir-se a quem é amado. Todo cristão, no dia do Juízo, deve apresentar seu progresso na caridade, por ser ela imprescindível para entrar no Céu. Ora, houve alguém que partiu desta vida não com amor, mas por amor: Nossa Senhora. Afirma Santo Alberto Magno que “mais obrigação tem de amar aquele a quem se dá mais. A Beatíssima Virgem foi dado mais que a todas as criaturas; logo, estava obrigada a amar mais do que qualquer outra”.8 E assim o fez, conclui o santo doutor. N’Ela, a caridade intensificou-se de tal maneira que o corpo não mais podia sustentar a alma, e o desejo de contemplar a Deus face a face para unir-Se a Ele fez com que a alma de Maria Santíssima, ao subir, levasse também o corpo. A par disso, é certo que n’Ela a graça, embora plena desde sua concepção, aumentou incessantemente ao longo da vida a ponto de mais não comportar quando ocorreu a Assunção. Eis a maravilha de uma criatura humana que, de plenitude em plenitude, de perfeição em perfeição, havia chegado ao extremo limite de todas as medidas, até quase não existir diferença entre a sua compreensão do universo e a própria visão de Deus. O que Lhe faltava? Apenas a Assunção. Sua alma atingiu tal sublimidade, alcandoramento e esplendor, que o véu de separação entre a natureza humana e a visão beatífica tornou-se tênue, se desfez, e — sem necessidade de passar por qualquer julgamento — Ela viu a Deus. Em consequência, seu corpo tornou-se glorioso e Ela elevou-Se ao Céu.
Subindo ao Céu por força da graça
Em função disso é indispensável corrigir certa visualização oferecida por algumas obras de arte, até piedosas, em que Maria aparece en volta numa nuvem, elevada ao Céu por uns anjinhos, representados na maioria das vezes como se fizessem esforço para conduzi-La.
Na verdade, por ter a alma na visão beatifica, seu corpo glorificado já gozava da agilidade, uma das qualidades deste estado. Ela deslocava-Se com extraordinária facilidade, com a rapidez do pensamento podendo subir ao Céu por Si mesma, Os Anjos A teriam acompanhado? Sim, mas por veneração, sem precisar transportá-La, uma vez que Ela possuía mais glória que todos eles juntos.
Em que consiste, então, a diferença entre a Assunção de Maria e a Ascensão do Senhor? Ele subiu aos Céus tanto por seu poder divino — pois é o próprio Deus — quanto pela virtude de sua Alma glorificada, que movia seu Corpo.9 E a Assunção de sua Mãe Virginal teve como causa apenas a glória de seu corpo, submisso à sua alma bem-aventurada.
A humanidade divinizada entra na glória

Outra razão da conveniência deste magnífico acontecimento é a restituição prestada a Deus por todos os benefícios concedidos ao gênero humano. Uma vez que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade desceu dos Céus, para Se encarnar, trazendo ao mundo a divindade humanizada, seria justo que uma pessoa humana fizesse um oferecimento harmonicamente contrário e levasse para o Céu o melhor da santidade, o que de mais belo, excelente e extraordinário pudesse existir na Terra: a humanidade divinizada. Tal missão foi reservada a Maria. Por outro lado, Ela foi o sacrário do Filho de Deus durante os nove meses nos quais gerou a humanidade santíssima de Cristo. Era compreensível que havendo-O recebido como tabernáculo na Terra, também Ele A recebesse em seu Santuário Celeste.
Continua no próximo post.

sábado, 9 de agosto de 2014

Evangelho Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – Lc 1, 39-56

Comentários ao Evangelho Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – Lc 1, 39-56
Naqueles dias, 39 Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-Se, apressadamente a uma cidade da Judeia. 40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com grande grito, exclamou: “Bendita és Tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! 43 Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? 44 logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos a criança pulou de alegria no meu ventre.  Bem-Aventurada Aquela que acreditou porque será cumprido o que o Senhor Lhe prometeu”.
46 Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor,  o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, ‘ porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações Me chamarão Bem-Aventurada,  porque o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor, O seu nome é Santo, 50 e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que O respeitam.
51 Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52 Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias.  Socorreu Israel, seu servo, lembrando-Se de sua misericórdia,  conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56 Maria ficou três meses com Isabel: depois voltou para casa (Lc 1, 39-56).
O penhor marial de nossa ressurreição
Na Assunção da Virgem Maria aos Céus, Deus antecipa seu desígnio em relação à humanidade: a ressurreição e triunfo dos justos no dia do Juízo Final.
I - GLORIOSO CUME DE SANTIDADE
Santa Igreja Católica, ao comemorar a Solenidade da Assunção de Maria Santíssima, compõe a Liturgia com um objetivo definido, sintetizado na Oração do Dia:
“Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do Céu em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”.1 Nossa condição humana, tão cheia de lutas e de dramas, e ao mesmo tempo de graças, tende a voltar-se para as realidades concretas que nos cercam — saúde, dinheiro, relações, etc. —, esquecendo-se das maravilhas sobrenaturais, quando na verdade sua contemplação é essencial para nos tornarmos partícipes da glória de Nossa Senhora.
Sinal da importância de nos atermos em primeiro lugar aos bens do alto é que eles nos serão concedidos por todo o sempre, se nos salvarmos. O estado de prova no qual nos encontramos é efêmero e, ao se concluírem os breves dias de nossa existência, entraremos na eternidade, onde viveremos em permanente convívio com Deus, os Anjos e os Santos, no Céu, ou com os demônios e os condenados, no inferno.
“Um grande combate travou-se no Céu”
A primeira leitura, extraída do Apocalipse (11, 19a; 12, l.3-6a.l0ab), nos coloca na perspectiva da prova à qual foram submetidos os Anjos. Estes saíram das mãos de Deus no primeiro dia da criação, quando Ele ordenou: “Faça-se a luz” (Gn 1, 3),2 concomitantemente ao Céu Empíreo, cujo nome evoca as belezas do fogo, mas não o seu poder de destruição. Como Deus tinha em vista a constituição de um único universo, onde coexistissem seres espirituais e materiais, não haveria sentido em criar matéria sem governadores ou administradores sem ter o que tutelar.3
Antes de gozarem da visão beatífica, é provável que Deus tenha comunicado a estes seus ministros o plano da criação, revelando-lhes os desIgnios relativos à Encarnação do Verbo, sua obra mais perfeita, em que brilharia a figura de Nossa Senhora. Como afirma São Bernardo, “não parece difícil crer que, estando cheio de sabedoria e elevado ao mais alto cume de perfeição, [Lúcifer] soubesse que haveria homens que chegariam ao um grau de glória igual ao seu”.4 Ora, Maria Santíssima, em sua condição de mera criatura humana, deve ter causado não pouca aversão aos anjos que se revoltariam, pois não estavam impostados numa perspectiva de humildade e disponibilidade total à vontade divina.
Estes, como ensina São Tomás,5 citando Santo Agostinho, haviam se demorado demais na consideração imediata das coisas, baseando-se na própria inteligência, sem remontar ao Criador. E ao fazer uma comparação entre o dia, a tarde e a noite, o Doutor Angélico mostra como quem procura compreender as coisas em Deus possui um conhecimento que pode ser qualificado de matutino, e os que as veem diretamente, para só depois elevar-se a quem as criou, têm conhecimento vespertino. “Sempre é dia na contemplação da Verdade imutável, e continuamente tarde noconhecimento da criatura em si mesma”,6 afirma o Doutor da Graça. Acautelemo-nos, então, para não demorarmos na mera consideração dos seres em si, pelo risco de nos dissociarmos da Sabedoria Eterna e cairmos em pecado.
Pois bem, foi o que se deu com a terça parte dos anjos. E em consequência, quando lhes foi apresentado o plano da Redenção, tão tomados estavam por si próprios que o orgulho os tornou cegos e se revoltaram. Lúcifer, o mais elevado de todos, levantou-se vociferando: “Non serviam! — Não servirei!” (Jr 2, 20); nem a Deus, nem a Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, nem Aquela que viria a ser a Rainha dos Anjos. Tal ato de insubmissão suscitou o brado de indignação de São Miguel: “Quis ut Deus? — Quem como Deus?”. Após uma batalha acirrada, os amotinados foram lançados no inferno (cf. Ap 12, 4.7-9).

Caídos do Céu, eles — sobretudo Lúcifer — tiveram o delírio de querer impedir a Encarnação do Verbo, que traria a salvação ao gênero humano. O demônio é mostrado na leitura do Apocalipse querendo devorar o Messias e atingir sua Mãe, mas, apesar de todo o empenho e da capacidade angélica do príncipe das trevas e de seus sequazes, Deus destrói suas artimanhas infernais e a Virgem Santíssima concebe e dá à luz seu Filho, que realiza a obra da Redenção. Como corolário, ambos sobem aos Céus em corpo e alma e são glorificados: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo” (Ap 12, l0b).
Continua no próximo post.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Evangelho XIX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 14, 22-33

Conclusão dos comentários ao Evangelho – 19º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 14, 22-33
III – O invencível auxílio de Jesus
Ao dar de comer àquela multidão, com base em tão diminuto número de pães e peixes, demonstrou Jesus seu poder sobre o alimento, fato, aliás, já comprovado nas bodas de Caná. Descendo do monte, após ter passado a noite em oração, mostrou seu domínio sobre as águas, os ventos e as ondas em agitação. E ao servir-Se desses elementos para deslocar-Se ao encalço dos Seus discípulos, manifestou também o quanto Sua onipotência se aplica ao Seu Sagrado Corpo. A sensibilidade de Suas testemunhas estava, assim, preparada para a revelação sobre a Eucaristia, que em breve seria feita.
De outro lado, a barca, sacudida pela tempestade, transportando Seus Apóstolos, bem poderia ser a imagem da Igreja em luta, nos mares deste mundo, em plena noite, visando desembarcar nas margens do Reino Eterno. Ela é invencível porque nessa solidez foi erigida pelo seu Fundador e, por isso, resiste a todas as forças que contra ela se insurgem.
Sobre a montanha de Deus, encontra-Se a sós, rezando, Jesus. E, nos momentos mais críticos, surge Ele em auxílio da humana debilidade dos Seus. Nada se constituirá em obstáculo para aqueles que pedirem o seu amparo. Trata-se de saber o que pedir. Quem se deixar avassalar pelo temor, face aos riscos e ameaças, confiando mais em suas próprias forças do que em Jesus Cristo, será derrotado. Pelo contrário, armando-se de robusta e inquebrantável Fé, tudo poderá.
Apesar dos pesares, se alguém que está próximo de Jesus sentir a impotência de sua natureza, um grito de socorro será suficiente para que Ele lhe estenda a mão e o leve à barca. Nela subindo, os elementos se acalmarão por sua simples presença e, ao fim desta existência, aportará nas praias da Eternidade. Ao desembarcar, entenderá com enorme consolação o papel dAquela que em certo momento recomendou: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5).
Não é sem sabedoria e propósito que Santo Hilário assim conclui: “E quando vier o Senhor, encontrará sua Igreja cansada e rodeada dos males que o Anticristo e o espírito do mundo suscitarão. E como os costumes do Anticristo impelirão os fiéis a todo gênero de tentações, eles terão medo até da vinda de Cristo, pelo temor que o Anticristo lhes infundirá por meio das falsas imagens e fantasmas que lhes apresentará. Mas o Senhor, que é tão bom, afasta deles esse temor, dizendo: ‘Sou Eu’, e afasta, pela fé em sua vinda, o iminente perigo”.18
1TUYA, OP, P. Manuel de. Bíblia Comentada – II Evangelios. Madri: BAC, 1964, p. 343.
2 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Áurea.
3 MALDONADO, SJ, Pe. Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios – I Evangelio de San Mateo. Madri: BAC, 1950, pp. 536-537.
4 Apud AQUINO, São Tomás de. Op. cit.
5 LAGRANGE, Pe. M. J. Évangile selon Saint Matthieu. 7ª ed. Paris: J. Gabalda et Cie. Éditeurs, 1948, p. 293. Segundo a divisão do tempo criada pelos romanos e adotada pelos judeus, a noite começava às seis horas da tarde e dividia-se em quatro vigílias de três horas cada uma: a primeira das seis às nove, e assim por diante, sendo que a última era das três às seis da manhã. Portanto, no fim da noite, os Apóstolos encontravam-se ainda na metade de uma travessia que poderia ter sido feita em duas, ou no máximo três horas.
7 Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica, Supl. q. 84, a. 1.
8 Cf. LAGRANGE, Op. cit. p. 294.
9 MALDONADO, Op. cit. p. 538.
10 GOMÁ Y TOMÁS, D. Isidro, El Evangelio explicado, Barcelona: Ediciones Acervo, 1966, p. 672.
11 Cf. MALDONADO, Op. cit, p. 540.
12 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Áurea.
13 TUYA, Op. cit., p. 345.
14 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Áurea.
15 San Agustín, De verb. Dom., serm. 13 y 14.
16 MALDONADO, Op. cit., p. 542.
17 Idem, ibídem, p. 543.

18 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Áurea.