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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40

Conclusão dos comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40
“E o segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
Ou seja, devemos ter por nosso próximo a mesma benevolência, estima e amor que esperamos os outros tenham por nós, e um respeito proporcional ao desígnio de Deus para com cada um. Falar ao próximo, ou sobre ele, como desejamos que o façam conosco; esconder e escusar suas faltas; sofrer suas imperfeições, debilidades e defeitos; louvar tudo quanto nele deve ser elogiado; defender seus interesses e servilo com afeto, exatamente como ansiamos que procedam conosco, e sempre por amor a Deus: eis a verdadeira prática da inocência e da santidade. E por isso mesmo:
“Destes dois Mandamentos dependem toda a Lei e os profetas”.
A Revelação — entre outros objetivos — tem em vista colocar à disposição dos homens um claro compêndio de doutrina e comportamento de ordem moral, através da Lei e da sabedoria manifestada por Deus aos seus profetas. Ora, o fundamento e a substância de todo esse tesouro estão contidos nesses dois preceitos, tal qual demonstraria mais tarde São Paulo, afirmando que a finalidade da Lei é o amor: “o fim do preceito é a caridade” (I Tim 1, 5). Mais ainda, pode ser esse amor, sempre segundo o Apóstolo, “o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13, 10).
III – Maria, insuperável exemplo de amor
Maria Santíssima é para toda a humanidade — e até mesmo para os próprios Anjos — um insuperável exemplo de perfeição do amor a Deus e ao próximo, que nos é recomendado por Seu Divino Filho, no Evangelho de hoje. Toda a sua existência foi penetrada de puríssimo e chamejante amor. Santo Alberto Magno chega a afirmar que Ela, mais do que qualquer outra criatura, viveu sempre morta para o mundo e para tudo o que era inferior a Deus. Sua vida sempre esteve oculta em Deus, habitando em seu Santuário e, portanto, muitíssimo mais que São Paulo, poderia Ela ter dito, desde o primeiro instante de Sua criação: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
Que Nossa Senhora do Divino Amor obtenha a plenitude da prática desses dois preceitos para todos aqueles e aquelas que contemplarem o Evangelho deste XXX Domingo do Tempo Comum.
1 Cf. AGOSTINHO, Santo. Confessionum, l. 13, § 9.
2 AGOSTINHO, Santo. In epistolam Ioannis ad parthos - Tractatus decem, § 1.
3 Idem, § 2.
4 AQUINO, São Tomás de. Super Evangelium S. Ioannis lectura, cap. 15, l. 5.
5 MALDONADO SJ, Pe. Juan de. Comentarios a los cuatro evangelios – I Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, p. 778.
6 GOMÁ Y TOMÁS, Cardeal Isidro. El Evangelio explicado. Barcelona: Rafael Casulleras, 1930, v. IV, p. 63.
7 AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica I-II, q. 90, a. 4.
8 Idem, q. 91, a. 4.
9 Idem, ibidem.
10 Idem, 90 pról.
11 Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica II-II q. 44, a. 1.
12 MALDONADO, Op. cit., p. 778-779.
13 A LAPIDE, Cornelio. Commentaria in Quattuor Evangelia – In Lucam 1, 47.

14 GREGÓRIO MAGNO, São. Super Cantica Canticorum Expositio. c. 8, v. 6.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40

Continuação dos comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40
Sabedoria de Cristo e insuficiência dos que O invejavam
“Jesus disse-lhe: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Este é o máximo e o primeiro Mandamento’”.
A pergunta que foi dirigida a Jesus sai de lábios talvez trabalhados pela sabedoria humana, para ouvidos plenos de Sabedoria divina. O doutor da Lei não pergunta para conhecer a verdade, mas sim para tentar a Deus. O Evangelho é pervadido dessa polêmica entre a Sabedoria de Cristo e a pobre insuficiência dos que O invejavam. Num determinado momento, será um problema judaico de teor religioso-moral, o da adúltera apanhada em flagrante (Jo 8, 3-11); em outra ocasião virão os saduceus com o episódio dos sete irmãos que se casaram sucessivamente com a viúva do primeiro deles (Mt 22, 23-32); ou então o famoso dilema do pagamento do tributo (Mt 22, 15-22); e assim por diante.
Está diante deles, porém, um Homem-Deus que penetra o mais fundo dos corações, como o pôde comprovar Natanael que chegou a concluir ser Jesus “o Filho de Deus, o Rei de Israel” (Jo 1, 45-50). Na mesma linha, a samaritana, tomada de surpresa pelo conhecimento minucioso de sua vida, revelado por Jesus, não hesitou em considerá-Lo um grande Profeta. Ou então, Cristo deixa transparecer como sabia qual era o pensamento dos Apóstolos quando ardia em seus corações o desejo de serem os maiores no Reino dEle (Lc 9, 46-48). E ainda muito mais.
No preceito da caridade estão concernidas as demais virtudes
Por isso, a resposta de Jesus é simples e ao mesmo tempo grandiosa: o amor a Deus! São Tomás de Aquino nos ensina que o fim da vida espiritual é a união com Deus, a qual se torna efetiva pela caridade, ou seja, pelo amor a Ele. Assim, toda vida espiritual deve estar submetida a este último fim. Daí afirmar o Apóstolo: “O fim do preceito é a caridade que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera” (I Tim 1, 5).
Em vista disso, todas as virtudes se conjugam para purificar a caridade dos males e das desordens oriundas das más inclinações. Ademais, ela auxilia cada um a proceder com boa consciência e, dessa forma, agir com fé reta e sincera, no relacionamento com Deus. Portanto, no preceito da caridade encontram-se concernidas as demais virtudes.11
“Amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças”
Sobre esta passagem, comenta Maldonado:
“Marcos diz primeiro: ‘Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor’ (12, 29). [...] Os dois mandamentos estão na mesma passagem, em Moisés. O primeiro é que creiamos num só Deus; o segundo, que O amemos de todo o coração, pois é claro que quem cresce em muitos dividiria o amor e não amaria nenhum com todo o seu coração, porque ninguém pode amar a dois senhores (cf. Mt 6, 24). “‘De todo o teu coração e com toda a tua alma’. Alguns intérpretes fazem aqui distinções por demais sutis, a meu juízo. Parece-me que isso significa que amemos a Deus o quanto possamos e empreguemos em seu serviço as nossas posses. Assim o ensina Santo Agostinho: ‘Ao dizer com todo o coração, com toda a alma, com toda a inteligência, não deixa parte alguma do homem livre e desocupada para amar outra coisa segundo o seu capricho: qualquer objeto que se nos apresente digno de amor deve ser arrastado pela corrente de nosso único afeto’.
“Finalmente, o que em diversas passagens ou com diferentes palavras se diz no Deuteronômio (6, 5), aqui está resumido numa só, consignada por Lucas: ‘Amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças’ (Lc 10, 27)”.12
Alma e espírito
Pareceria, à primeira vista, haver uma certa redundância didática na repetição: “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito”, contida no versículo 37. Entretanto, explicam-nos certos autores a diferença existente entre alma e espírito e, assim, podemos compreender a razão mais profunda da afirmação de Nosso Senhor.
“Melhor se deve entender por ‘alma’ a parte inferior da alma, a que olha a vida natural. E por ‘espírito’ a parte superior, a que considera as coisas espirituais e divinas. A alma indica, pois, a natureza da alma. O espírito, a mente imbuída da graça e o impulso comunicado à mente pelo Espírito Santo.
“Portanto, a alma é natural e considera as coisas naturais. O espírito, as coisas sobrenaturais e celestes. Assim, pois, o espírito significa: em primeiro lugar, a mente; em segundo lugar, o veemente impulso da mente e o fervor do gozo e do júbilo; em terceiro lugar, o fato de que esse impulso da mente é comunicado e infundido pelo próprio Espírito Santo”.13
Portanto, a “alma”, subjetivamente falando — em si mesma — é una e simples. O que varia é o objeto sobre o qual ela atuará. Ora, o Divino Mestre nos recomenda que até na própria vida natural tudo façamos em função de Deus que nos criou.
Quanto ao “espírito”, seguindo a linguagem da Escritura, é movimento do ânimo, impulso, etc. É nesse sentido que poderá haver um bom ou um mau espírito: “Não sabeis de que espírito sois animados” (Lc 9, 55), disse Jesus aos Apóstolos irmãos, Tiago e João, que desejavam, por pura vingança, mandar descer fogo do céu para consumir as cidades que lhes negavam hospedagem. Neles, não havia um espírito sobrenatural, mas puramente humano, de cólera má e vingança, contrário ao espírito dAquele que viera para salvar e não para perder.
O homem há de viver somente para amar a Deus
A expressão “de todo o teu coração” encontra belíssima explicação em São Gregório Magno: “O que a morte faz nos sentidos do corpo, o amor faz nas concupiscências da alma. Alguns amam de tal maneira a Deus, que desprezam tudo quanto é sensível; e enquanto em sua intenção miram o eterno, fazem-se insensíveis para tudo quanto é temporal. Pois nesses, o amor é forte como a morte; porque, assim como a morte mata todos os sentidos exteriores do corpo e o priva de sua própria e natural apetência, assim também o amor em tais pessoas as força a menosprezar todo desejo terreno, tendo a alma ocupada em outra coisa à qual atende. A esses, mortos e vivos, dizia o Apóstolo: ‘Estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus’ (Col 3, 3). [...] Pois, morto o homem para si mesmo, há de viver somente para amar a Deus, e há de amá-Lo com todo o coração e alma... Em todas as suas potências estará o seu Amado, sem fechar-Lhe porta alguma... Quem ama a Deus não deve recebê-Lo apenas num aposento de sua alma, mas também em sua memória, em seu entendimento e em sua vontade. Em todos há de hospedar o seu Criador e Senhor do mundo. Não empregará em seu serviço somente um afeto da vontade, mas todos os seus afetos e sentidos. Porque — como dissemos — se alguém, tendo cinco ou seis criados, hospedasse um rei, não mandaria a um só criado servi-lo, mas quereria que todos se desdobrassem em seu serviço”.14
Os dois principais Mandamentos

“Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5). Esta era a determinação de Deus, transmitida ao Povo Eleito pela voz e pluma de Moisés. Os doutores da Lei bem a conheciam, ou seja, era uma obrigação religiosa que esse amor a Deus penetrasse toda atividade consciente daquele povo e, assim, fosse tomado como “o máximo e primeiro Mandamento”, por sua alta dignidade e por pervadir toda a atividade do homem, sobretudo no cumprimento de seus deveres e obrigações para com Deus.
Continua no próximo post.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40

Continuação dos comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40
Aquele que ama o Pai, ama o Filho
O grande Bispo de Hipona confere tanta importância a que à fé se una o amor, que não se intimida em continuar com seus comentários a esse respeito, levando suas afirmações a ponto de talvez chocar certas mentalidades mais relativistas dos dias de hoje:
“E todo aquele que ama quem gera, ama o que por ele é gerado (I Jo 5, 1). Juntou em seguida o amor com a fé, pois a fé sem amor é vã. Com amor, é a fé do cristão; sem amor, a fé do demônio. Ora, os que não crêem são piores do que os demônios, mais empedernidos que os próprios demônios. Há por aí alguém que não quer crer em Cristo: esse tal não imita nem sequer os demônios. Há outros, porém que não crêem em Cristo, mas O odeiam... São como os demônios, que temiam ser castigados e diziam: ‘Que tens Tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos antes do tempo?’ (Mc 1, 24). Acrescenta a essa fé o amor, a fim de que se converta naquela fé da qual fala o Apóstolo: ‘A fé que opera pelo amor’ (Gl 5, 6).
“Se encontraste essa fé, encontraste um cristão, encontraste um cidadão de Jerusalém, encontraste um peregrino que suspira pelo caminho. Une-te a ele, seja ele teu companheiro, corre junto com ele, caso também tu sejas isso. Todo aquele que ama quem gerou, ama o que por Ele foi gerado. Quem gerou? O Pai. Quem foi gerado? O Filho. Portanto, o que diz João? Todo aquele que ama o Pai, ama o Filho”.3
No amor encontramos a tão procurada felicidade
Tão vastas são as considerações sobre a virtude do amor, que não haverá enciclopédia capaz de abarcar os tesouros emanados da oratória e da pluma dos Santos, Padres, Doutores, teólogos, exegetas, etc. a respeito da mesma.
É justamente em função do amor que devemos contemplar a temática levantada pela Liturgia deste XXX Domingo do Tempo Comum, em suas três leituras. Nessa virtude encontramos a tão procurada felicidade, como nos ensina São Tomás de Aquino: “Sendo amor a Deus, faz-nos desprezar as coisas terrenas e unir-nos a Ele. Por isso afasta de nós a dor e a tristeza, e dá-nos a alegria do divino: ‘o fruto do Espírito Santo é caridade, alegria, paz’ (Gl 5, 22)”.4 E com razão, pois Ele é o dulcis Hospes animæ, o Amigo por excelência que habita nas almas em estado de Graça.
II – O amor é a plenitude da lei
Tramas dos fariseus contra Jesus
“Mas os fariseus, tendo sabido que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se, e um deles, doutor da Lei, tentando-O, perguntou-Lhe: ‘Mestre, qual é o grande Mandamento da Lei?’”.
O Evangelho de hoje se insere num encadeamento de fatos que se inicia com a pregação de Jesus por meio da parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-45) que levou os adversários de Cristo — na sua totalidade, segundo São Marcos (12, 13), ou somente os fariseus, de acordo com São Mateus — a se exacerbarem em cólera, pois interpretaram-na como dirigida a eles (Mt 21, 45) e, por essa razão, reuniram-se em conselho (Mt 22, 15). Nessa linha de acontecimentos, São Marcos é muito explícito ao afirmar: “Procuravam prendê-Lo, mas temiam o povo [...] E deixando-O, retiraram-se. Enviaram-Lhe alguns fariseus e herodianos, para que O apanhassem em alguma palavra” (Mc 12, 12-13).
Na realidade, havia-se criado um verdadeiro impasse. De um lado, estava um grande número de pessoas simples do povo, arrebatadas pelas palavras e milagres de Jesus que, por isso, não O abandonavam; de outro, os chefes que desejavam silenciá-Lo em vida, ou, causando-Lhe a morte. Impossível se tornava para estes executarem tal crime enquanto Ele estivesse cercado pelas multidões. Também a noite não lhes facilitava a tarefa, pois o Divino Mestre abraçava o isolamento sem que ninguém soubesse para onde se retirava. Tornava-se, portanto, indispensável para os “filhos de Belial” manobrar a opinião pública a fim de separar os entusiastas d'Aquele que julgavam ser João Batista ressuscitado, ou talvez Elias, ou um grande Profeta.
A pergunta do doutor da Lei
Pertence a essa seqüência de investidas a famosa resposta de Jesus: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21), como também a explicação sapiencial com a qual fizera calarem-se os saduceus (cf. Mt 22, 2932), confundindo-os pela grosseira questão relacionada com a ressurreição dos mortos. É na esteira dessa polêmica que se acrescenta a pergunta do tal doutor da Lei. Não é inteiramente claro se esse homem propõe essa questão ao Mestre por autêntica curiosidade ou por desejo de aparecer como sábio, ou até mesmo por fazer parte do complô contra Ele. Os três sinópticos relatam o episódio em sua integridade. São Mateus opta pela hipótese de ser ele cúmplice e malicioso. São Marcos o vê como um homem sincero, pelo fato de Nosso Senhor ter afirmado não estar ele longe do Reino do Céu (cf. Mc 12, 34). Não seria descabida, entretanto, a suposição de somarem-se todas essas interpretações, pois era possível tratar-se de um fariseu de boa fé, trabalhado pela maldade dos outros fariseus, a fim de lançálo sobre o Messias, para colocá-Lo em situação difícil.
Sobre o personagem em foco, o famoso Maldonado assim se exprime:
“Diz-nos Lucas que, quando Cristo acabou de refutar os saduceus, um escriba exclamou: ‘Mestre, falaste bem’. Acrescenta o Evangelista: ‘E já não se atreviam a fazer-Lhe pergunta alguma’ (Lc 20, 39-40); isso deve ser entendido com relação aos saduceus, pois precisamente por essa resposta, como indica Mateus, os escribas e fariseus tomaram ocasião de tentá-Lo outra vez, para mostrarem-se mais sábios que os saduceus. Aquele que aqui Mateus chama de ‘doutor da Lei’, Marcos diz que era ‘escriba’ (cf. Mc 12, 28); por onde se vê que, embora os escribas tivessem diversos ofícios, em algumas ocasiões podia-se ser escriba e fariseu ao mesmo tempo. Pois esse doutor da Lei era fariseu, segundo se vê pelo versículo 34”.5
Já o Arcebispo de Toledo, Cardeal Isidro Gomá y Tomás, assim avaliou esta passagem: “Os fariseus se mancomunaram quando ouviram dizer que Ele havia reduzido ao silêncio os saduceus, fechando-lhes o caminho a qualquer réplica, não sem uma íntima satisfação de sua parte, pois tinham os saduceus como seus mais formidáveis adversários doutrinários. A inveja e a malevolência são mães da audácia despudorada; a derrota dos adversários deveria tê-los tornado mais cautos. E um deles — doutor da Lei, do partido dos fariseus, que tinha ouvido o debate e visto como Nosso Senhor respondera bem — foi escolhido para propor a Jesus a questão tramada por eles naquele conventículo. Aproximou-se e Lhe fez a pergunta, tentando-O, com má intenção, embora a resposta de Jesus o tenha impressionado, elogiando Jesus e, por sua vez, chegando a merecer o elogio do Senhor”.6
Lei humana e Lei divina
Conforme nos ensina o Doutor Angélico, sabemos ser a lei, “uma ordenação da razão para o bem comum, promulgada por aquele que tem o cuidado da comunidade”.7 Evidentemente, esta é uma definição que tem em vista a natureza humana no seu relacionamento social. Entretanto — continua o próprio São Tomás — “além da lei natural e da lei humana, foi necessário, para direção da vida humana, ter a Lei divina”.8 E entre quatro claríssimos argumentos a favor de sua tese, o Doutor Angélico demonstra essa necessidade em função de um fim ao qual se ordena o homem, que é superior à faculdade humana, ou seja, sua bem-aventurança eterna.
Afirma ainda: “Porque, em razão da incerteza do juízo humano, principalmente sobre as coisas contingentes e particulares, aconteceu haver a respeito dos diversos atos humanos juízos diversos, dos quais também procedem leis diversas e contrárias. Para que o homem, pois, sem qualquer dúvida possa conhecer o que lhe cabe agir e o que evitar, foi necessário que, nos atos próprios, ele fosse dirigido por lei divinamente dada, a respeito da qual consta que não pode errar”.9

Porém, não devemos nos esquecer que o Céu nos torna iluminado o caminho a seguir, mas o auxílio para abraçá-lo nos vem da Graça: “O princípio que move exteriormente ao bem é Deus, que nos instrui pela Lei e ajuda pela Graça”.10 Hoje, pela força do Espírito Santo, temos muito explícita essa doutrina, mas assim não se apresentava para os doutores da Lei e nem mesmo para os fariseus. Os rabinos viviam emaranhados em complicadas casuísticas de 613 preceitos. Destes, 365 (à imagem dos dias do ano) eram negativos, e 248 (à semelhança numérica dos ossos do corpo humano) eram positivos. Dos primeiros, alguns eram tão graves que só podiam ser reparados com a pena capital, e os outros, por uma penitência proporcionada. A miríade de outras obrigações menores proporcionava-lhes discussões intermináveis em suas escolas. Por essas razões, não era fácil formular com toda segurança uma resposta categórica e clara a essas questões, sobretudo se fosse para não colidir com opiniões subjetivas destes ou daqueles rabinos.
Continua no próximo post.

sábado, 18 de outubro de 2014

Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 22,34-40
Naquele tempo, os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: ”Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Jesus respondeu: “ ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”  Mt 22,34-40
A sabedoria humana contra a Sabedoria divina!
A questão apresentada pelo fariseu a Jesus sai de lábios trabalhados pela sabedoria humana para ouvidos plenos de Sabedoria divina. O doutor da Lei não pergunta para conhecer a verdade, mas sim para tentá-Lo. A resposta de Jesus é simples e ao mesmo tempo grandiosa: o amor a Deus!
I – A virtude do amor
Os fundamentos do amor são muito mais profundos do que geralmente se imagina. Sendo ele um peso que arrasta aqueles que se amam — segundo afirma Santo Agostinho1 — produz um vigoroso desejo de presença e união, exteriorizado no abraço como melhor símbolo.
Ora, tudo quanto existe tem sua fonte na onipotência divina, inclusive o amor, cujo princípio é eterno e procede do Pai e do Filho. Ambos, ao Se amarem, originam essa tendência com tão extraordinária força que dela procede uma Terceira Pessoa. Assim como o amor produz em nós uma inclinação em relação ao ser amado, Pai e Filho, seres infinitamente amáveis, amam Seu próprio Ser Divino. Aí está a origem do Amor, enquanto Pessoa procedente da união entre Pai e Filho.
O Gênesis, ao narrar a grande obra da Criação, descreve como Deus contemplava a realização de cada dia e atribuía um valor respectivo à obra saída de Seu poder, pois o grau de perfeição de cada ser sempre é infundido por Seu amor, e na proporção deste.
A virtude mais importante para a salvação
Já no Evangelho, verifica-se quanto o Filho de Deus louva a fé do centurião (cf. Lc 7, 9) e da cananéia (cf. Mt 15, 28), premiando-a com milagres. Mais adiante, Cristo exalta a fé de Pedro, declarando proceder esta de uma revelação feita pelo Pai, e por isso proclama-o bem-aventurado (cf. Mt 16, 17). Entretanto, Jesus nos fala também de uma virtude que é, por si só, capaz de perdoar um enorme número de pecados, chegando a defender publicamente uma pecadora contra aqueles que a acusavam: “Porque muito amou” (Lc 7, 47). Ora, não podemos nos esquecer de como o Senhor conhece o valor e o prêmio de cada ato de virtude. Devemos, portanto, face à salvação eterna, compreender como é mais importante amar do que praticar a fé.
Jesus, supremo modelo de amor
Para se atingir o mais alto grau de perfeição dessa virtude é indispensável admirá-la em Cristo Jesus e imitá-Lo.
O amor do Filho de Deus, é todo especial, por se desenvolver dentro de um prisma sobrenatural e ter por objeto o Ser Supremo. Há, portanto, uma notável diferença entre Ele e nós. No Verbo Encarnado, o amor divino e o humano, pela união hipostática, se reúnem numa só Pessoa. Quanto a nós, “o amor de Deus se derramou em nossos corações por virtude do Espírito Santo” (Rm 5, 5); ou seja, ele nos é dado. Para poder alcançá-lo, devemos pedi-lo.
Apesar desta diferença, Jesus é o nosso insuperável modelo, pois é impossível encontrar nEle qualquer sombra de interesse que não seja a glória do Pai. Assim também deve ser o nosso amor. E, se bem que em Jesus nunca tenha havido fé — pois, desde o primeiro instante de Sua existência, a alma dEle esteve na visão beatífica — em nós, essa virtude deve estar sempre acompanhada de um caloroso amor, o mais semelhante possível ao de Jesus.
A fé do cristão e a fé dos demônios
Comentando a primeira epístola de São João, assim se exprime Santo Agostinho: “‘Porque também os demônios crêem e tremem’, como diz a Escritura (Tg 2, 19). Que mais puderam os demônios crer do que dizer: ‘Sabemos quem és, o Filho de Deus’ (Mc 1, 24)? O que disseram os demônios, disse-o também Pedro. [...] Assim, pois, Pedro diz: ‘Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo’ (Mt 16, 16). Dizem também os demônios: ‘Sabemos que és o Filho de Deus e o Santo de Deus’. Pedro diz o mesmo que dizem os demônios. O mesmo quanto às palavras, muito diferente quanto ao espírito.
“E como consta que Pedro dizia isso por amor? Porque a fé do cristão está sempre acompanhada de amor, mas a fé do demônio não tem amor. De que modo é sem amor? Pedro dizia isso para abraçar Cristo, enquanto os demônios o diziam para Cristo afastar-Se deles. Porque antes de dizer ‘sabemos quem és, o Filho de Deus’, haviam dito: ‘Que tens Tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos antes do tempo?’ (Mc 1, 24). Uma coisa, pois, é confessar Cristo com intenção de abraçá-Lo, e outra muito diferente é confessar Cristo com propósito de apartá-Lo de si.

“Logo, claro está que quando, nesta passagem, João diz: ‘Aquele que crê’, quer dizer uma fé peculiar, não aquela que muitos têm. Portanto, irmãos, que nenhum herege venha dizer-nos: ‘Nós também cremos’. Pois justamente por este motivo vos apresentei o exemplo dos demônios, a fim de que não vos alegreis com as palavras dos que crêem, mas examineis as obras dos que vivem”.2
Continua

terça-feira, 14 de outubro de 2014

EVANGELHO DO XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 22, 15-21

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 22, 15-21
O ensinamento de Jesus sobre a harmonia entre a ordem espiritual e a temporal
As coisas de Deus e as coisas da terra não devem ser antagônicas. Pelo contrário, entre elas deve haver colaboração. Na harmonia entre ambas as esferas, a temporal e a espiritual, está o segredo do progresso. E a História nos mostra que nada pode haver de mais excelente do que seguir o conselho de Nosso Senhor: “Buscai, pois, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Lc 12, 31).
Seja dito de passagem, nessa conjugação e colaboração entre o espiritual e o temporal é que, segundo o seu carisma, esforçam-se os Arautos do Evangelho: em atuar procurando a “consecratio mundi”, a sacralização da ordem temporal, enquanto leigos, e sendo filhos amorosos da Igreja, fiéis ao Papa, como instrumentos da Nova Evangelização.
Harmonia dentro de nós
Pode-se dizer que há uma espécie de convívio entre as duas esferas dentro do homem, uma vez que temos para conosco deveres referentes à nossa vida espiritual e às necessidades de nosso corpo. A tal respeito, comenta São Tomás de Aquino na Catena Aurea:
“Também podemos entender essa passagem [do Evangelho] no sentido moral, porque devemos dar ao corpo algumas coisas, como o tributo a César, isto é, o necessário; mas tudo o que corresponde à natureza das almas, isto é, o que se refere à virtude, devemos oferecer ao Senhor. Os que ensinam a lei de modo exagerado e ordenam que não cuidemos em absoluto das coisas devidas ao corpo .... são fariseus, que proíbem pagar o tributo a César; e os que dizem que devemos conceder ao corpo mais do que devemos, são herodianos. Nosso Salvador quer que a virtude não seja desprezada, quando prestamos atenção demasiada ao corpo; nem que seja oprimida a natureza, quando nos dedicamos com excesso à prática da virtude.”
Concluamos, seguindo o conselho de Santo Agostinho: se nos preocupamos com as moedas nas quais está gravada a efígie de César, muito mais devemos nos preocupar com nossas almas, nas quais Deus gravou sua própria imagem. Se a perda de um bem terreno nos entristece, muito mais nos deve contristar o causar dano à nossa alma pelo pecado.
1) Vida de Nuestro Señor Jesucristo, t. 4, p. 90

2) Id. ib.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

EVANGELHO DO XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 22, 15-21

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 22, 15-21
O modo de ação do mal
“Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras.
Nesse episódio, merece igualmente nossa atenção a maneira de agirem os maus.
Quando deseja armar ciladas aos bons, o mal, antes de apresentar-se de forma declarada, costuma preparar sua ação por um longo processo. Assim agiram os fariseus com Nosso Senhor. Inicialmente usaram a astúcia da serpente para, depois, se insurgir contra Ele de forma pública e agressiva. Aqui vemo-los no decurso da primeira operação, desejando surpreender Jesus em flagrante, a fim de lançarem contra Ele a opinião pública.
Em nossa própria vida privada, quantas e quantas vezes da mesma maneira não somos nós surpreendidos pelo mesmo método farisaico, utilizado pelo mal para perseguir os que se esforçam em seguir os passos de Jesus? Imitemos a sabedoria do Divino Mestre, não nos deixemos surpreender...
A respeito das tais táticas farisaicas, consta mais este detalhe no Evangelho:
16a“Enviaram seus discípulos com os herodianos...”
É outra demonstração de sua maldosa astúcia: escolheram alguns jovens, alunos de escolas rabínicas, para causar a impressão de autenticidade, como se tivessem real interesse em aprender. E os instruíram a se aproximar do Divino Mestre com demonstrações de respeito. Sobre esse particular, comenta o acatado exegeta L.- CL. Fillion:
“Por isso, no princípio evitaram apresentar-se em pessoa, temerosos de excitar sua desconfiança. Enviaram alguns de seus jovens talmudim ou discípulos, os quais, com candura aparente, vieram propor-Lhe um caso de consciência, esperando que o resolvesse de modo que ficasse numa situação muito difícil” 1.
No mesmo versículo 16, outro dado chama a atenção: “Enviaram seus discípulos com os herodianos...”.
Mesmo quando estão em campos opostos, é incrível a capacidade dos maus de se unirem contra o Bem. Os fariseus anelavam a independência e supremacia de Israel, e odiavam os romanos; os herodianos apoiavam a família de Herodes, que recebeu seu poder dos romanos.
Assim, embora encarniçados adversários, fariseus e herodianos encontram-se irmanados neste episódio, em busca de um fim comum: o deicídio.
Da astúcia da serpente faz parte a adulação insidiosa:
16b “Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens”.
Com tais palavras, os fariseus condenam-se eles mesmos. Com efeito, não eram sinceros e viviam preocupados com a opinião alheia a respeito de si próprios, só cuidando das aparências.
17 “Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?”
Se Jesus optasse pela obrigação moral de pagar o imposto exigido pelos romanos, prontas já estavam as tubas dos adversários para sublevar os israelitas contra Ele, pois não era admissível um Messias que se manifestasse a favor da submissão ao estrangeiro gentio. De outro lado, se Jesus negasse a liceidade do tributo, seria denunciado às autoridades romanas, que por certo o condenariam à morte.
Aqui fica claro o papel dos herodianos nesse episódio. “Como adeptos do governo de Roma, seriam acusadores e testemunhas, se a resposta de Jesus lhes parecesse contrária aos interesses do Império”, comenta o já mencionado Fillion 2.
Jesus inverte os papéis
Na sequência do episódio evangélico, Nosso Senhor quiçá haja surpreendido seus adversários pela veemência da resposta:
“Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas?”.
Que grande diferença entre os métodos empregados respectivamente pelo mal e pelo bem! Os fariseus adulam para perder, Jesus increpa para salvar.
Não podiam os fariseus se queixar por receberem essa severa recriminação. Jesus, a Sabedoria Eterna e Encarnada, respondia em primeiro lugar à intenção oculta deles: tentar com hipocrisia. “Não lhes responde suavemente”, comenta São João Crisóstomo, “de acordo com as palavras pacíficas que Lhe haviam dirigido, mas com aspereza, segundo suas más intenções; porque Deus responde aos pensamentos e não às palavras” (apud Catena Aurea). E os desmascarava diante do público. Jesus continuou:
“Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário”.
Os romanos permitiam que moedas de cobre fossem cunhadas pelas autoridades do povo local. Nelas eram impressas figuras tiradas dos reinos vegetal e animal. O denário, entretanto, moeda de prata para uso em todo o Império, era monopólio de Roma. Com ele se pagava o imposto e tinha gravada a efígie do imperador, cingida de uma coroa de louros, com esta inscrição: “Tibério César, sublime filho do divino Augusto”.
Ao fazer os fariseus lhe mostrarem uma dessas moedas, Jesus acabava de inverter os papéis. Deixava evidente que, embora em teoria rejeitassem o imperador como senhor do país, na prática o aceitavam, utilizando-se de seu dinheiro. Eles, de seu lado, perceberam para onde caminharia a resposta. Contudo, em sua maldade e cegueira, iludiam-se, esperando ainda uma possível falha de Nosso Senhor. Podemos imaginar a atmosfera de suspense formada nesse instante:
“Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição?”.
Método de suprema sabedoria em responder: obrigar o adversário a tirar a conclusão da própria afirmação que fez. Os inquiridos passaram a ser os fariseus:
“De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”
Eis a resposta que se gravou para sempre nos céus da História. Quem utilizava o dinheiro de César, que lhe pagasse o imposto devido, ainda mais tendo em vista os benefícios proporcionados à Palestina pela administração romana.

Em se tratando de uma nação essencialmente teocrática, como era a judaica, compreende-se a perplexidade na qual muitos podiam se encontrar. Porém, havia uma situação de fato da qual não se podia prescindir.
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sábado, 11 de outubro de 2014

EVANGELHO DO XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 22, 15-21

COMENTÁRIO AO EVANGELHO DO 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 22, 15-21
DAR A CÉSAR, OU DAR A DEUS?
O homem foi criado por Deus para viver em sociedade, sob duas autoridades: a temporal e a espiritual. Qual deve ser sua atitude ante uma e outra? Eis o tema do Evangelho do 29º domingo do tempo comum.
“Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César? Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário. Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição? De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 15-21).
Não há situação estática na vida moral
Nossa vida moral se encontra sempre em movimento. Em outras palavras, na escala de valores entre o extremo do bem e o extremo do mal, ninguém fica parado num grau determinado. Todos estamos de algum modo caminhando, ainda que muito devagar e imperceptivelmente, em direção a um dos pólos, ou embaraçados num vaivém contínuo. Há, também, acelerações para uma direção ou outra, resultantes de um grande ato de virtude ou de um gravíssimo pecado. Nessa escala, portanto, o movimento é constante, como acentuam inúmeros teólogos.
Ora, diante do Filho do Homem, esse fenômeno passou-se de forma intensa no coração de todos os que tiveram a graça de O conhecer, e, mais ainda, de com Ele conviver. Maria Santíssima não fez senão ascender a cada instante na sua já tão alta união com Deus. Em contrapartida, os adversários de Jesus cresceram de modo contínuo no ódio a Ele.
Os fariseus chegaram a um grande grau de indignação ao ouvir dos lábios do Divino Mestre parábolas ao mesmo tempo severíssimas e de clara aplicação a eles, como a dos vinhateiros homicidas, e a da festa de núpcias, como conta o Evangelho:
“Ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que era deles que Jesus falava. E procuravam prendê-lo; mas temeram o povo, que o tinha por um profeta” (Mt 21, 45-46).
Foi essa a circunstância que os levou a se reunirem urgentemente em conselho. Esse mesmo episódio é mencionado em outros termos por São Marcos (Mc. 12, 12-13).
Tanto pela narração de um, quanto pela do outro evangelista, fica patente o dilema no qual se encontravam os fariseus. De um lado, desejavam prender Jesus para matá-Lo. De outro lado, era lhes impossível agir neste sentido, pois os milagres, as palavras e a própria figura do Divino Mestre arrebatavam o povo, que não O abandonava um instante sequer. Como realizar esse horroroso crime contra alguém constantemente rodeado de fiéis? Agarrá-Lo na calada da noite, de forma inesperada, seria o ideal, mas impossível também, uma vez que o Redentor jamais lhes dava a oportunidade de saber onde Ele estaria após o cair do sol.
Uma cilada para Nosso Senhor
Desse modo, não havia para eles outra alternativa senão armar uma cilada ao Divino Mestre, tentando desacreditá-Lo diante da opinião pública. Abandonado por seus seguidores, Ele se tornaria uma presa fácil. Melhor ainda se conseguissem arrancar d’Ele uma afirmação de rebeldia contra o poder romano...
Longe ia o tempo em que o povo judeu dependia da proteção dos romanos para fazer face aos adversários. Desaparecido o perigo, tornava-se difícil compreender as vantagens do pagamento de um tributo ao Imperador.
Precisamente naquela época acentuava-se entre os judeus o cansaço por se encontrarem, havia séculos, dependentes do poder estrangeiro, ao que se somava uma ânsia pela vinda de um Messias, considerado como o instaurador do poder israelita sobre todas as nações. As conversas e debates sobre tais questões, fortemente entrelaçadas com outras, de ordem moral, estavam na ordem do dia em todos os rincões de Israel.

Foi nesse contexto histórico que Jesus veio pregar a Boa Nova. Ora, uma palavra orientadora d’Ele, sobre matéria tão candente, seria ouvida com incontida avidez. Os fariseus quiseram se aproveitar desse clima emocional para armar uma astuta e maldosa cilada ao Senhor: reuniram-se, pois, “para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras”.
Continua no próximo post