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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Evangelho – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor - Jo 20, 1-9 - Ano A

Continuação dos comentários ao Evangelho – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor - Ano A - Jo 20, 1-9
Chegada de São Pedro e São João
Partiu, pois, Pedro com o outro discípulo e foram ao sepulcro.
Os dois apóstolos vêem-se na contingência de certificar-se de um acontecimento tão dramático e inusitado. Segundo São Gregório, Pedro e João simbolizam, sob o ponto de vista místico, a Santa Igreja e a Sinagoga respectivamente.
Corriam ambos juntos, mas o outro discípulo corria mais do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro.
Com seu ardor sem medidas, Madalena contagiou os apóstolos, e eles, se associando nos mesmos sentimentos de amor, temor e esperança, partem cheios de ânimo. Ambos corriam, mas “o outro discípulo” chegou com antecedência.
Tendo-se inclinado viu os lençóis no chão, mas não entrou.
É digno de nota o quanto são correlatas e coesas as virtudes que tão claramente deixa transparecer esse episódio. Seria explicável que, diante de tão grande acontecimento, São João penetrasse, ato contínuo à sua chegada, no interior do túmulo para analisar a situação. A curiosidade deveria ser incontrolável. Isso não aconteceu. Por espírito de obediência, respeito e veneração, manteve-se à porta e de seus umbrais, observou à distância a disposição das coisas. A virgindade conservada por virtude leva quem a possui a amar a hierarquia, a disciplina e a ordem. Nesta ocorrência, encontramos o dilúculo de uma alcandorada aurora da submissão de toda a Cristandade à mais alta autoridade erigida por Cristo, na terra: o Santo Padre, o Papa.
Chegou depois Simão Pedro, que o seguia, entrou no sepulcro e viu os lençóis postos no chão, e o sudário que estivera na cabeça de Jesus, que não estava com os lençóis, mas enrolado para outro sítio.
Esses panos eram o lençol e as faixas utilizadas para envolver o sagrado corpo do Salvador depois de retirado da cruz. O sudário cobria Sua cabeça e mais especialmente a face, que nele certamente ficou impressa. Tudo leva a crer que os anjos devem ter manifestado particular devoção a esse lençol que passaria para a História com o nome de Santo Sudário, daí terem-no dobrado com cuidado, colocando-o à parte.
São muito curiosas e dignas de serem apreciadas as considerações feitas por São Gregório Magno sobre o relato de São João contido nestes versículos:
“Esta descrição tão detalhada do Evangelista não carece de mistério. São João, o mais jovem dos dois, representa a sinagoga judaica, e Pedro, o mais velho, a Igreja universal. Embora a sinagoga dos judeus seja anterior no culto divino, a multidão dos gentios precede no uso do século a sinagoga dos judeus. Correram ambas juntamente, porque desde seu nascimento até seu ocaso, se bem que em sentidos diferentes, correm juntas. A sinagoga chegou primeiro ao monumento, mas não entrou; porque, apesar de haver entendido os mandatos da Lei sobre as profecias da Encarnação e Paixão e morte do Senhor, não quis crer. Chegou depois Simão Pedro e entrou no sepulcro, porque a Igreja das nações, que seguiu a última, acreditou em Cristo morto em sua humanidade e vivo em sua divindade. O sudário, pois, da cabeça do Senhor, não foi encontrado com os lençóis, porque Deus é a cabeça de Cristo, e os mistérios de sua divindade são incompreensíveis à fraqueza de nossa inteligência e superiores às faculdades da natureza humana. Diz-se que o sudário foi encontrado não só separado, mas envolto, porque o lenço que serve de envoltura à cabeça divina demonstra sua grandeza, que não tem princípio nem fim. Esta é, pois, a razão pela qual foi encontrado isolado em outro lugar, porque Deus não se encontra entre as almas que estão divididas, e só merecem receber sua graça as que não vivem separadas pelo escândalo das seitas. Mas como o lenço que cobre a cabeça dos operários serve para enxugar o suor, pode-se entender com o nome de sudário a obra de Deus que, mesmo permanecendo tranqüilo e imutável em Si mesmo, manifesta que sofre e trabalha na dura perversidade dos homens. O sudário que estivera sobre sua cabeça, e foi encontrado à parte, demonstra que a Paixão de nosso Redentor é muito diferente da nossa, porque Ele a padeceu sem culpa, e nós por nossos pecados; Ele Se entregou a ela voluntariamente, e nós a sofremos contra nossa vontade. Depois de ter entrado Pedro, entrou João, porque no fim do mundo a Judéia entrará também na fé do Salvador” 10.
Provas da Ressurreição
Pelo que se via, Madalena tinha sido objetiva em sua espetacular mensagem. Porém, teria ela razão em levantar a hipótese de um roubo do sagrado corpo do Senhor? Qual seria, neste caso, o objetivo dos ladrões? Como teriam dominado os guardas? Quem haveria executado tal crime? E se realmente isto se passara, por que tirar os lençóis, as ataduras e o sudário? Ademais, qual o motivo de dobrar cuidadosamente esses tecidos? A constatação desses pormenores todos seria suficiente para eles concluírem a maravilhosa Ressurreição do Senhor, tal qual Ele mesmo a profetizara, ou seja, no terceiro dia.
São João Crisóstomo não duvida em sublinhar: “Isto era prova de ressurreição, porque se alguém o tivesse levado não teria desnudado seu corpo; e se o houvessem roubado, os ladrões não teriam o cuidado de tirar e envolver o sudário, colocando-o em um lugar diferente dos lenços, mas teriam levado o corpo como se encontrava. São João já dissera que, ao sepultá-lo, o haviam ungido com mirra, a qual cola os lenços ao corpo; e não creias nos que dizem que foi roubado, pois o ladrão não seria tão insensato ocupando-se tanto de coisa tão inútil” 11.
Apesar de hoje vermos com tanta evidência a lógica dessas minúcias todas, na ocasião, as testemunhas não fizeram a menor reflexão e nem sequer se lembraram das profecias feitas pelo Divino Mestre a esse propósito. Essa foi a reação da natureza humana antes de Pentecostes...
Entrou também, então, o discípulo que tinha chegado primeiro ao sepulcro. Viu e acreditou.
Divergem os autores quanto à interpretação do objeto da crença de João. Alguns julgam ter ele considerado suficientes as provas para crer na ressurreição do Senhor. Assim o faz, por exemplo, Teófilo ao comentar: “Admira em Pedro a prontidão da vida ativa, e em João a contemplação humilde e prática das coisas divinas. Com freqüência, os contemplativos chegam pela humildade ao conhecimento das coisas divinas; mas os ativos, guiados por sua fervorosa assiduidade, chegam primeiro ao ápice deste conhecimento” 12.
Porém, outros são do parecer de que João acreditou no que lhes dissera a Madalena, ou seja, que o Sagrado Corpo de Jesus havia sido roubado, e nada mais. A ida ao sepulcro teria sido útil em extremo para confirmá-los nessa idéia, o que certamente lhe confirmou também nas apreensões.
Com efeito, ainda não entendiam a Escritura, segundo a qual Ele devia ressuscitar dos mortos.

Para tirarmos todo o proveito deste versículo, ouçamos os comentários de D. Isidro Gomá y Tomás: “A Sagrada Escritura é como uma carta de Deus dirigida aos homens; mas estes não podem interpretá-la por si sós: precisam ser conduzidos pela Igreja, que é a intérprete nata e autorizada das divinas Escrituras, e tem para isso a luz e a assistência do Espírito Santo. Por isso, diz Lucas (24, 45), que Jesus, antes de subir aos Céus, ‘abriu a inteligência de Seus apóstolos para que compreendessem as Escrituras’. Não tenhamos, pois, a presunção de ler estas deleitáveis cartas de Deus sem o sentido de Deus e sem a união com os que têm a autoridade de Deus para interpretá-las. Seria condenar-nos à ignorância, quiçá a erros grosseiros sobre seu conteúdo. Este é o segredo das quedas daqueles que interpretam as Escrituras fora da Igreja Católica” 13.
Continua no próximo post

terça-feira, 15 de abril de 2014

Evangelho – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor - Jo 20, 1-9 - Ano A

Comentário ao Evangelho – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor - Ano A - Jo 20, 1-9
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã, sendo ainda escuro, e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então, e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. Partiu, pois, Pedro com o outro discípulo e foram ao sepulcro. Corriam ambos juntos, mas o outro discípulo corria mais do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. Tendo-se inclinado viu os lençóis no chão, mas não entrou. Chegou depois Simão Pedro, que o seguia, entrou no sepulcro e viu os lençóis postos no chão, e o sudário que estivera na cabeça de Jesus, que não estava com os lençóis, mas enrolado para outro sítio. Entrou também, então, o discípulo que tinha chegado primeiro ao sepulcro. Viu e acreditou. Com efeito, ainda não entendiam a Escritura, segundo a qual Ele devia ressuscitar dos mortos (Jo 20, 1-9).
Uma mulher precedeu os Evangelistas
Para comunicar aos apóstolos a primeira e fundamental verdade do Evangelho, Deus não escolheu um anjo e nem sequer um homem. Foi Maria Madalena o arauto da boa nova da Ressurreição do Senhor.
Vitória de Cristo sobre a morte
“Este é o meu filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência...” (Mt 17, 5). Seria suficiente esse amor infinito do Pai pelo Seu Unigênito para que operasse Sua ressurreição, porém, ademais concorreu para tal o brilho da justiça divina, conforme São Tomás de Aquino: “A esta pertence exaltar os que se humilham por causa de Deus, conforme diz Lucas (1, 52): “Destronou os poderosos e exaltou os humildes”. E já que Cristo, por seu amor e obediência a Deus, se humilhou até a morte de cruz, era preciso que Ele fosse exaltado por Deus até a ressurreição gloriosa” 1.
Tomados de adoração, uma vez mais foi-nos possível acompanhar liturgicamente ao longo da Semana da Paixão, o quanto a morte teve uma aparente vitória no Calvário. Todos que por ali passavam podiam constatar a “derrota” de Quem tanto poder havia manifestado não só nas incontáveis curas por Ele operadas, como também em Seu caminhar sobre as águas ou nas duas vezes que multiplicou os pães.
Os mares e os ventos Lhe obedeciam, e até mesmo os demônios eram, por sua determinação, desalojados e expulsos. Aquele mesmo que tantos milagres prodigalizara havia sido crucificado entre dois ladrões e, diante de Seus extremos sofrimentos, “os que passavam O injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: ‘Tu, que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!’ Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dEle: ‘Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nEle! Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque Ele disse: Eu sou o Filho de Deus!’” (Mt 27, 39-43).
Porém, a maneira pela qual fora removida a pedra do sepulcro e o desaparecimento dos guardas, eram de si, uma prova sensível do quanto havia sido derrotada a morte, conforme o próprio São Paulo comenta: “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Cor 15, 55). Os fatos subseqüentes tornaram ainda mais patente a triunfante Ressurreição de Cristo e por isso os prefácios da Páscoa cantam sucessivamente: “Morrendo, destruiu a morte, e, ressurgindo, deu-nos a vida” (I). “Nossa morte foi redimida pela sua e na sua ressurreição ressurgiu a vida para todos” (II). “Imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente” (III). “E, destruindo a morte, garantiu-nos a vida em plenitude” (IV).
Constituem essas frases uma sequência de afirmações que proclamam a vitória de Cristo não só sobre Sua própria morte, como também sobre a nossa. Ele é a cabeça do Corpo Místico e, tendo ressuscitado, trará necessariamente a nossa respectiva ressurreição, pois esta nos é garantida pela presença dEle no Céu, apesar de estarmos, por ora, submetidos ao império da morte. De maneira paradoxal, aquele sepulcro violentamente aberto a partir de seu interior, deu à morte um significado oposto, passou ela a ser o símbolo da entrada na vida, pois Cristo quis “destruir pela sua morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio”, e assim libertar os que “estavam em escravidão toda a vida” (Hb 2, 14).
São Paulo tem sua alma transbordante de alegria em face da realidade da Ressurreição de Cristo e nela encontramos nosso triunfo sobre a morte, tal qual ele próprio nos diz: “E assim como todos morreram em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Cor 15, 22); “...ressuscitou dentre os mortos, como primícias dos que morreram! Com efeito, se por um homem veio a morte, por um homem vem a ressurreição dos mortos” (1 Cor 15, 20-21).
Na Ressurreição vemos, ademais, realizada por Jesus, a profecia que Ele mesmo fizera pouco antes de Sua Paixão: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12, 31). De fato, propriamente dito, o cumprimento dessa profecia se iniciou durante os quarenta dias de retiro no deserto, e teve continuidade passo a passo ao longo de Sua vida pública ao expulsar os demônios que pelo caminho encontrava, chegando ao ápice em Sua Paixão: “Despojou os Principados e Potestades, e fez deles um objeto de escárnio público, levando-os no seu cortejo triunfal” (Cl 2, 15).
Posteriormente, não só o demônio, mas o próprio mundo foi derrotado: inúmeros pagãos passaram a se converter e muitos entregaram a própria vida para defender a cruz, animados pelas luzes da ressurreição do Salvador. Em função dela, passaram a ser acolhidos no Corpo Místico todos os batizados que, revitalizados pela graça e sem deixarem de estar incluídos no mundo, tornaram perpétuo o triunfo de Cristo: “Tende confiança! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Trata-se, portanto, de uma vitória ininterrupta, mantendo seu rútilo fulgor tal qual no dia de Sua ressurreição, sem uma fímbria sequer de diminuição. Com a redenção, Cristo lacrou as portas do seio de Abraão depois de ter libertado, de seu interior, as almas que ali aguardavam a entrada no gozo da glória eterna.
“Hæc est dies quam fecit Dominus. Exultemus et lætemur in ea!” 2
Essas são algumas considerações que nos facilitam compreender o porquê de ser a Páscoa da Ressurreição a festa das festas, a solenidade das solenidades, pois o mistério nela presente é dos mais importantes para a história da Cristandade, tal como afirma São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15, 14).
Por isso, nos primórdios da Igreja, esse período era considerado o mais importante do ano inteiro. Os fiéis se apinhavam na Basílica de São João de Latrão para assistir às cerimônias e muito comum era, entre eles, o cumprimento com a fórmula do “Aleluia!”. Hoje em dia, com o progressivo desbotamento das majestosas comemorações que marcaram os séculos, infelizmente deteriorou-se o sabor da grande importância das solenidades pascais.
A alegria que será a nota dominante dessa celebração far-se-á presente nos cânticos, nos paramentos, no incenso e na própria liturgia. Se bem sejam todos os Domingos do ano dedicados ao Senhor, desde as mais antigas eras a Igreja celebrou com especial júbilo este da Ressurreição; e tal é seu gáudio que sempre o fez prolongar por cinqüenta dias consecutivos, conforme comentava Tertuliano: “Somai todas as solenidades dos gentios, e não chegareis aos nossos cinqüenta dias da Páscoa” 3.
Ademais, podemos afirmar ser a Ressurreição a festa de nossa esperança, pelo fato de nela encontrarmos não só o extraordinário triunfo de Cristo, como também o nosso próprio, pois se Ele ressurgiu dos mortos, o mesmo se passará conosco. E é em vista desse futuro triunfo nosso que desde já nos é feito o convite para abandonarmos os apegos a este mundo, sem olhar para trás, fixando nossa atenção nos absolutos celestes, conforme nos aconselha o Apóstolo com estas palavras selecionadas para a liturgia deste Domingo, em sua segunda leitura: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com Ele na glória” (Cl 3, 1-4).
O depósito de fé que nos foi deixado por Jesus e pelos apóstolos sobre este fundamental acontecimento escatológico é corroborado por estas palavras de São Tomás de Aquino: “Ao ver ressuscitar Cristo, que é nossa cabeça, esperamos que também ressuscitaremos nós. Assim é como se diz: ‘Se de Cristo se prega que ressuscitou dos mortos, como entre vós dizem alguns que não há ressurreição dos mortos?’ (1 Cor, 15, 12)” 4. E aí está mais uma maravilha a promover a exultação de nosso instinto de conservação. Esse instinto terá sua plena realização no fim dos tempos, proporcionando-nos verdadeira e eterna felicidade, garantida pelo próprio Cristo Ressurrecto.
“Deus o ressuscitou ao terceiro dia, permitindo que aparecesse a nós...” 5
Maria Madalena: a que mais ferventemente amava o Senhor
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã, sendo ainda escuro, e viu a pedra retirada do sepulcro.
Para o amor, nada é impossível, disse Santa Teresinha do Menino Jesus. Maria Madalena vivia inebriada de amor a Jesus e por isso não podia conter-se de desejo de adorar e perfumar Seu sagrado corpo. Despertou-se de madrugada e servindo-se da luminosidade prateada do luar, dirigiu-se ao Santo Sepulcro: “Não cabe dúvida de que Maria Madalena era a que mais ferventemente amava o Senhor entre todas as mulheres que O haviam amado; assim, não é sem motivo que São João faz menção somente a ela, sem nomear as outras que com ela foram, como asseguram os outros Evangelistas” 6.
São João, além de ter escrito este relato bem depois dos outros Evangelistas, deve ser o mais objetivo ao afirmar que o Sol não havia raiado ainda. A esse respeito, vários são os comentários como, por exemplo, o de São Gregório: “Com razão se diz: ‘Sendo ainda escuro’, porque, com efeito, Maria buscava no sepulcro o Criador do universo, que ela amava, e, não O tendo encontrado, imaginou que O haviam roubado; e por conseguinte encontrou trevas quando chegou ao sepulcro” 7.
Belo exemplo para nós. Madalena buscava o adorável corpo de Jesus jazido no sepulcro, a nós foi concedida a imensa graça de recebê-Lo vivo e em Seu estado de glória. Será que nós possuímos a mesma e empenhada solicitude e devoção em buscar Jesus na Eucaristia, logo ao acordarmos?
São Mateus narra com mais detalhes os antecedentes dessa chegada de Madalena ao túmulo do Senhor, fazendo menção ao terremoto devido à descida de um anjo, no fulgor de um relâmpago, para remover a pedra, e ao consequente desmaio dos guardas, de puro terror (cf. Mt 28, 2-4).
Arauto da boa nova da Ressurreição
Correu então, e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”.
“Pedro e João representam a autoridade e o amor, a força do governo e da caridade. Madalena vai a Pedro e João, na angústia que dela se havia apoderado à vista do sepulcro aberto, para buscar direção e sustento. É uma mulher amantíssima do Senhor, mas se reconhece incapaz de julgar e decidir nesse assunto gravíssimo que seus próprios olhos lhe trouxeram ao espírito. Por isso busca a luz do conselho e o amparo da caridade. Em nossas dúvidas, sobretudo no que diz respeito aos assuntos da fé, recorramos aos ofícios daqueles que dela são os custódios natos, e que por sua hierarquia serão nossos guias, e com amorosa solicitude sustentarão nosso espírito” 8.
Por uma determinação divina, a pregação do evangelho desde seu nascedouro compete aos homens. Entretanto, a História registra algumas poucas, mas comovedoras, exceções como essa contida no presente versículo. Trata-se da primeira e fundamental verdade do evangelho; para comunicá-la aos apóstolos, Deus não escolhe um anjo e nem sequer um homem. É a Madalena que será o arauto da boa nova da ressurreição do Senhor. Logo em seguida, repetir-se-á essa evangelização através de outras santas mulheres.
Com muita propriedade afirma Santo Agostinho: “Ama et quod vis fac” (Ama, e faze o que quiseres). Nesse ato de “imprudência”, ao irem ao sepulcro do Senhor — ainda de madrugada, sem se preocupar com os guardas, nem com a laje a ser removida, não considerando que se trata de uma ação contra a lei civil e contra, até, a própria lei natural — essas mulheres estão cumprindo um outro preceito: um mandamento do amor, ou seja, na prática realizam já as palavras deixadas por Cristo. Nelas, tudo se perdoa pelo fato de agirem por puro amor. O amor próprio está ausente das almas delas. Ao deparar Deus com o verdadeiro amor a Jesus Cristo, Seu Unigênito, Ele próprio toma sobre Si o encargo de limpar as manchas tão comuns às ações executadas pela natureza humana decaída, transformando-as de imperfeitas e imprudentes em obras de santa e meritória ousadia.
Por isso, São João, ao narrar este acontecimento, “não privou a mulher desta glória, nem achou indecoroso que [os dois apóstolos] recebessem por intermédio dela a primeira notícia. Por sua palavra, vão eles com muita solicitude para reconhecer o sepulcro” 9.

Madalena pronuncia sua informação fazendo uso do verbo no plural: “... e não sabemos ...”, fato este demonstrativo do quanto a descrição se harmoniza com as dos outros evangelistas, pois São João procura completar o relato feito por eles. Madalena, portanto, estava acompanhada pelas outras santas mulheres.
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segunda-feira, 14 de abril de 2014

EVANGELHO - VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA - Mt 28, 1-10 - Ano A

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO - VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA - Mt 28, 1-10 - Ano A
III – ATÉ O FIM DOS TEMPOS!
Após a Celebração da Luz — a Lucernarium — e a Liturgia da Palavra, a Vigília Pascal prossegue com a Liturgia Batismal e, por fim, com a Liturgia Eucarística.
Evocar o Batismo nesta cerimônia é muito apropriado, porque pelos méritos da Ressurreição de Jesus este Sacramento nos livra de um sepulcro: o do pecado e da morte. Todos morremos, somos conduzidos ao seio da terra, o corpo entra em decomposição e passa-se, então, o que descreve Jó: “por detrás de minha pele, que envolverá isso, na minha própria carne, verei Deus. Eu mesmo O contemplarei, meus olhos O verão, e não os olhos de outro” (Jó 19, 26-27). Uma vez que somos batizados, devemos caminhar com paz de alma para os umbrais da eternidade, pois, como ensina São Paulo, se “morremos com Cristo, cremos que também viveremos com Ele” (Rm 6, 8). No dia em que Deus nos chamar de volta à vida, se tivermos morrido em estado de graça o corpo será recomposto e refulgirá com um brilho que jamais alcançaria sem a Ressurreição de Nosso Senhor. Ele ressurgiu dos mortos, entre outras razões, para comprar a nossa ressurreição, “pois do mesmo modo que sua Paixão foi símbolo de nossa antiga vida, sua Ressurreição encerra o mistério da vida nova”.8
Tal como Jesus apareceu às Santas Mulheres, também aparece a nós, pois, apesar de ter subido aos Céus há quase dois mil anos, vem a cada dia estar com os homens. As mulheres tiveram o privilégio de ver diretamente o Homem-Deus, mas essa constatação lhes diminuiu o valor sobrenatural da fé, já que esta “é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1). Para que pudéssemos adquirir mais mérito na prática dessa virtude, Ele Se faz presente entre nós sob a aparência de pão e de vinho. Após as palavras da Consagração, olhamos e, num primeiro relance, diríamos que nada aconteceu, mas a fé nos assegura que se passou algo inefável: as espécies se transubstanciaram em Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. O mesmo Redentor que Se manifestou às mulheres no dia da Ressurreição encontra-Se também no altar, e é Ele que comungamos. Embora elas tenham abraçado e osculado seus pés, não lhes foi dada a graça de recebê-Lo em seu interior naquele momento.
Para avaliarmos melhor a grandeza dessa realidade, lembremo-nos de que a Eucaristia é o Sacramento por excelência, que contém o próprio Autor de todos os outros. Conforme ressalta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “nossa alma não pode deixar de transbordar de reconhecimento, de enlevo e de gratidão por aquilo que Nosso Senhor operou na Santa Ceia. Somente uma inteligência divina poderia excogitar a Sagrada Eucaristia e imaginar esse Sacramento Santíssimo como um meio de Jesus permanecer presente neste mundo, depois de sua gloriosa Ascensão. Mais ainda: de estabelecer um convívio íntimo e inexcedível, todos os dias, com todos os homens que O queiram receber nos seus corações. Sim, só mesmo Deus poderia realizar esse mistério tão maravilhoso, essa obra de misericórdia prodigiosa para com suas humanas criaturas”.9
Saibamos gozar de tão imenso benefício nesta vida, para nos tornarmos partícipes da Ressurreição triunfante de Cristo, segundo sua promessa: “Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 51).

1 SÃO JERÔNIMO. In die Dominica Paschæ. In: Obras Completas. Obras Homiléticas. 2.ed. Madrid: BAC, 2012, v.I, p.989.
2 SANTO AGOSTINHO. Sermo CCXIX. In Vigiliis Paschæ I. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 2005, v.XXIV, p.307.
3 VIGÍLIA PASCAL. Oração depois da primeira leitura. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.279.
4 DUQUESNE. L’Évangile médité. Paris: Victor Lecoffre, 1904, v.IV, p.386.
5 SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.IV (22,41-28,20), c.28, n.63. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.415; 417.
6 Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LXXXIX, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.II, p.714-715.
7 Cf. FERNÁNDEZ TRUYOLS, SJ, Andrés. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. 2.ed. Madrid: BAC, 1954, p.710-711; TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, v.V, 1964, p.602; GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Pasión y Muerte. Resurrección y vida gloriosa de Jesús. Barcelona: Rafael Casulleras, 1930, v.IV, p.446; LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Matthieu. 4.ed. Paris: J. Gabalda, 1927, p.541.
8 SANTO AGOSTINHO. Sermo CCXXIX E, n.3. In: Obras, op. cit., p.402.

10 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Nos passos da Paixão. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano VI. N.61 (Abr., 2003); p.2.

sábado, 12 de abril de 2014

EVANGELHO - VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA - Mt 28, 1-10 - Ano A

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO - VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA - Mt 28, 1-10 - Ano A

Portentosos sinais da Ressurreição do Senhor
2 “De repente, houve um grande tremor de terra: o Anjo do Senhor desceu do Céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. 3 Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. 4 Os guardas ficaram com tanto medo do Anjo, que tremeram, e ficaram como mortos”.
A descrição destes versículos é portentosa, e inclusive mais detalhada que a dos outros três Evangelhos no que se refere aos fenômenos ocorridos no sepulcro. São Mateus — contrariamente aos demais evangelistas — empenha-se em ressaltar o aspecto grandioso da Ressurreição: em sua narrativa, o forte tremor de terra parece um episódio do Antigo Testamento, e o Anjo que desce do Céu, aproxima-se, retira a pedra e nela se senta, tem uma magnificência peculiar. O simples fato de defini-lo “como um relâmpago” e serem suas vestes “brancas como neve” nos dá uma noção da imponência do momento.
Enriquecedores são os comentários tecidos por São Jerônimo: “Nosso Senhor, Filho único de Deus e, ao mesmo tempo, Filho do Homem conforme as suas duas naturezas, a da divindade e a da carne, mostra ora os sinais de sua grandeza, ora os de sua humildade. Por isso também na presente passagem, embora seja um Homem aquele que foi crucificado, sepultado [...], os fatos que fora se desenrolam manifestam que é o Filho de Deus: o Sol que foge, as trevas que caem, o terremoto, o véu rasgado, os rochedos destroçados, os mortos ressuscitados, os serviços prestados pelos Anjos, que desde o início de sua Natividade demonstravam que é Deus. [...] Agora também vem um Anjo (Mc 16, 5) como guardião do sepulcro do Senhor e com sua veste branca indica a glória do Triunfador”.5
É, pois, compreensível que os guardas tenham ficado aterrados, a ponto de desfalecerem. Além do medo que os assaltou em decorrência da Ressurreição — segundo a interpretação de vários Padres, entre eles São João Crisóstomo6 —, viram frustrado o objetivo que os levara para junto do sepulcro: comprovar que o Homem-Deus não passava de um mortal. Ora, a contragosto e para seu castigo, converteram-se eles em testemunhas oculares do maior prodígio havido na História, e, ademais, o fato de terem sido eles que selaram o sepulcro e o vigiaram aumenta a humilhação infligida com o milagre, como também a culpa ao negá-lo daí por diante.
Nosso Senhor não esquece os que ama

5“Então o Anjo disse às mulheres: ‘Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. 6 Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que Ele estava. 7 Ide depressa contar aos discípulos que Ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós O vereis. É o que tenho a dizer-vos’”.

Apesar dessa manifestação grandiosa, não mais estamos no Antigo Testamento, quando a aparição de um Anjo era considerada prenúncio imediato de morte. O mensageiro celeste sabe tratar de maneira adequada cada criatura humana e diz às mulheres: “Não tenhais medo!”. Na verdade, depois de tudo o que acabara de suceder não faltavam motivos para recear, mas ele dá a entender que desígnios superiores pairavam sobre aqueles acontecimentos, portadores de esperança. Prepara-as assim para acolher o anúncio que contém a essência do Evangelho selecionado para esta solene cerimônia: “Ressuscitou, como havia dito!”.
Embora o estupendo milagre da Ressurreição tivesse sido predito por Nosso Senhor, suas palavras não encontraram suficiente eco na alma dos que O seguiram nos anos de vida pública, caindo no esquecimento perante as aparências contrárias presenciadas na Paixão. No entanto, já era hora de recordarem esta profecia: “Destruí vós este Templo e Eu o reerguerei em três dias” (Jo 2, 19). Com estas palavras Ele Se referiu ao seu próprio Corpo, que passaria pela Morte e Ressurreição. Lembremo-nos de que tanto seu sagrado Corpo quanto sua Alma, mesmo estando separados pela morte, permaneceram unidos hipostaticamente à divindade, por cujo poder ambos se reassumiram mutuamente no momento da Ressurreição. O Redentor cumprira a promessa, ressurgindo com todas as características que possuíra na vida mortal, acrescidas de glória.
Prelibando a fase de expansão da Igreja que dentro em breve se iniciaria, o Anjo transmite às mulheres uma incumbência: comunicar aos discípulos a notícia da Ressurreição, pois, abatidos pelo desânimo e decerto pesarosos por sua própria prevaricação, a Morte de Nosso Senhor lhes poderia dar a ideia de que Ele Se esquecera dos que estimava. Talvez pensassem que, uma vez tendo partido deste mundo, Jesus Se havia afastado para não mais conviver com os seus. Vemos que o Anjo desmente essas impressões falsas com o aviso de um novo encontro na Galileia, deixando claro o quanto o Mestre os ama apesar de todas as infidelidades.
Um misto de medo e alegria
8 “As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos”.
As mulheres, que sempre acompanhavam Nosso Senhor onde quer que Ele fosse, estavam habituadas a vê-Lo sair-Se bem em todas as circunstâncias. Foi o que se verificou, por exemplo, quando o paralítico descido pelo teto foi curado e seus pecados foram perdoados, deixando os adversários do Divino Mestre confundidos e furiosos (cf. Lc 5, 18-26; Mc 2, 3-12; Mt 9, 2-8); ou quando houve a multiplicação dos pães e, pelo instinto materno próprio à psicologia feminina, também sentiram pena da multidão faminta que seguia Nosso Senhor, contemplando maravilhadas a prodigiosa solução dada por Ele, na ocasião (cf. Mt 14, 15-21; Mc 6, 35-44; Lc 9, 12-17; Jo 6, 5-14). Episódios semelhantes ocorridos ao longo da pregação de Jesus robusteceram-nas numa fé sincera em relação a Ele, fruto da retidão de quem não tem arrière-pensée ou desconfianças próprias aos que fazem considerações materialistas, esquecendo-se da existência de fatores sobrenaturais que podem explicar os acontecimentos extraordinários.
Animadas por tão bom espírito, retiraram-se elas do sepulcro sôfregas por transmitir a mensagem recebida. Neste versículo, todavia, transparece algo muito humano: o misto de alegria e medo que as invadiu, apesar da advertência angélica. A alegria, como é natural, vinha do magnífico anúncio da Ressurreição de Nosso Senhor, e o temor tinha sua origem em possíveis represálias dos judeus naquela situação ainda muito instável. Para extirpar por completo esse receio, nada mais eficaz que um contato com o Mestre.
O encontro com Nosso Senhor
9 “De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: ‘Alegrai-vos!’. As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés”.
No intuito de animar as Santas Mulheres, o próprio Jesus tomou a iniciativa de ir ao encontro delas, mostrando que Ele vai à procura dos que realmente O amam. E eis que a sua primeira palavra é “Alegrai-vos!”, para, em seguida, permitir que Lhe abraçassem os pés.
O conjunto dos pormenores de outros relatos evangélicos desta passagem sugere a hipótese de que Maria Madalena não estivesse junto às mulheres nesse instante, mas sozinha, em busca de Nosso Senhor (cf. Mc 16, 9-11; Jo 20, 11-18). Tudo indica que o encontro que tiveram com Ele deu-se em momentos e lugares diversos: primeiro apareceu à pecadora arrependida, a quem ordenou “Não me retenhas!” (Jo 20, 17), e depois às demais, enquanto corriam. É curioso notar a diferença em seu divino modo de agir, pois não deixou aquela que havia “demonstrado muito amor” (Lc 7, 47) externar toda a sua veneração, e aqui, pelo contrário, as Santas Mulheres seguram seus pés e Ele não lhes opõe resistência.
Como explicar este aparente paradoxo? Santa Maria Madalena tinha uma fé robusta e o Mestre não queria tirar-lhe o mérito. Caso ela chegasse a tocá-Lo — ou se demorasse muito ao fazê-lo, conforme sustentam alguns autores7 —, confirmaria cabalmente que Ele havia ressuscitado e não era um espírito, mas o mesmo Homem-Deus cujos pés lavara com suas lágrimas e enxugara com os cabelos (cf. Lc 7, 37-38). Jesus estava como que a dizer-lhe: “Não Me toques, porque Eu te reservo um mérito maior: o de crer sem comprovar”.
Às outras, consentiu que dessem largas às suas manifestações de adoração. Elas já haviam visto um espírito e sua primeira impressão ao deparar-se com o Salvador seria de que também se tratava de um ser imaterial, até porque possuíam uma fé menos vigorosa que a de Maria Madalena. Além disso, acompanharam-No continuamente antes da Paixão e, enquanto os homens costumam dar menos importância à ausência física, elas, como mulheres, eram mais sensíveis à separação e ao abandono. Precisavam, pois, verificar que Jesus estava vivo e não as desamparara.
Ao abraçar os pés do Senhor, devem ter visto e osculado as marcas dos cravos, além de sentir seu inconfundível perfume, agora intensificado em virtude da glorificação do Corpo. Ficaram comovidas por perceber que a Ressurreição era real e experimentaram, sem a menor dúvida, uma consolação extraordinária. Põe-se aqui um problema sobre qual será a maior graça: obter o mérito de crer sem constatar ou poder estreitar o Corpo glorioso do Mestre? Deixemos que os teólogos tratem dessa delicada questão, pois para ninguém será fácil a escolha, que depende do feitio de cada pessoa.
Arautos da Ressurreição nomeadas pelo Senhor
10 “Então Jesus disse a elas: ‘Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles Me verão’”.
Depois do imenso favor de permitir que tocassem em seu Corpo ressurrecto, Nosso Senhor recomenda “Não tenhais medo”, para certificar mais uma vez de que Ele não era um fantasma e infundir-lhes coragem ante a perspectiva de uma possível perseguição movida pelos judeus. E deixa um recado destinado aos discípulos: que partissem rumo à Galileia para um encontro, pois Ele não havia desaparecido. Assim, o Salvador as constitui arautos para propagar a Boa-nova da Ressurreição, que os próprios Apóstolos ainda não conheciam.
Que modo de proceder contundente para os padrões estabelecidos pela sociedade da época! Os Doze, que eram Bispos e foram os primeiros a comungar o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, são obrigados a receber a notícia através de mulheres! Eles fraquejaram, fugiram de medo e acabaram sendo postos à margem na hora da Ressurreição, pois Jesus quis dar um prêmio às que não haviam faltado à caridade. Não será que, se não nos convertermos a um amor tão intenso quanto Ele espera de cada um, seremos ultrapassados pelos que consideramos inferiores a nós? Sejamos verdadeiramente fervorosos, para que isto não nos aconteça!

Jesus ainda convive com eles ao longo de quarenta dias para então subir aos Céus, mas compensa sua ausência enviando o Espírito Santo e prolonga sua presença no Sacramento da Eucaristia, confirmação da promessa feita por Ele antes de partir: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20).
Continua no próximo post

sexta-feira, 11 de abril de 2014

EVANGELHO - VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA - Mt 28, 1-10 - Ano A

COMENTÁRIO AO EVANGELHO - VIGÍLIA PASCAL NA NOITE SANTA - Mt 28, 1-10 - Ano A

“Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. 2 De repente, houve um grande tremor de terra: o Anjo do Senhor desceu do Céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. 3 Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. 4 Os guardas ficaram com tanto medo do Anjo, que tremeram, e ficaram como mortos. 5 Então o Anjo disse às mulheres: ‘Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. 6 Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que Ele estava. 7 Ide depressa contar aos discípulos que Ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós O vereis. É o que tenho a dizer-vos’. 8 As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 9 De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: ‘Alegrai-vos!’.
As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés. 10 Então Jesus disse a elas: ‘Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles Me verão’” (Mt 28, 1-10).
O prêmio concedido aos que mais amam
Na manhã de domingo as mulheres acorreram ao sepulcro para prestar as últimas homenagens ao Corpo do Senhor. E o próprio Jesus, desejando recompensá-las, foi ao seu encontro anunciar as alegrias da Páscoa.
I – A PRIMEIRA PÁSCOA
A origem da Solenidade da Páscoa remonta ao Antigo Testamento, quando os israelitas saíram da escravidão do Egito após quatro séculos de cativeiro. Depois de ter infligido diversos castigos aos egípcios com o intuito de persuadi-los a deixar partir o seu povo, como o Faraó não se comovesse Deus determinou que um Anjo exterminador ceifasse a vida de todos os primogênitos do país, dos homens e até dos animais. Entretanto, não permitiu que os descendentes de Abraão fossem atingidos. Determinou que os marcos e as travessas das portas das casas fossem assinalados com o sangue do cordeiro consumido na ceia daquela noite, a fim de serem poupados (cf. Ex 12, 12-13). Tão terrível foi a execução, que não só as autoridades consentiram na saída dos filhos de Israel, como também a população o suplicou, reconhecendo haver um fator sobre-humano nesses acontecimentos. Os hebreus puseram-se em marcha, sem demora, rumo ao Mar Vermelho, o qual se abriu milagrosamente, possibilitando-lhes a travessia a pé enxuto (cf. Ex 14, 21-22).
Este episódio de grande importância na História da salvação chamou-se Páscoa, que quer dizer passagem, isto é, o Senhor passou adiante e não feriu os hebreus, possibilitando-lhes o acesso à almejada liberdade social e política. Para perpetuar a lembrança desse acontecimento, Ele ordenou sua comemoração anual, como está descrito no Livro do Êxodo: “essa mesma noite é uma vigília a ser celebrada de geração em geração por todos os israelitas, em honra do Senhor. [...] Conservareis a memória deste dia, em que saístes do Egito, da casa da servidão, porque foi pelo poder de sua mão que o Senhor vos fez sair deste lugar” (12, 42; 13, 3).
Foi esta a ocasião escolhida por Nosso Senhor Jesus Cristo para ressuscitar, mudando o significado da Páscoa antiga para outro infinitamente mais elevado. Se o povo eleito passou da escravidão para a liberdade na Páscoa, nós, com a Morte e a gloriosa Ressurreição de Jesus, passamos da morte física para a vida eterna, e da morte do pecado para a ressurreição, pela graça. Por isso São Jerônimo comenta: “Parece-me que este dia é mais radiante que todos os outros, em que o Sol brilha para o mundo com mais fulgor, em que também os astros e todos os elementos se alegram, e aqueles que durante a Paixão do Senhor haviam apagado sua luz e se haviam eclipsado, não querendo contemplar seu Criador crucificado, voltam a cumprir a missão de seguir seu Senhor, que agora Se mostra vitorioso e ressurge — se assim se pode dizer — dos infernos, com todo o seu esplendor”.1
“A mãe de todas as vigílias”
A Igreja, ciosa de revestir tal comemoração da devida pompa, a celebra durante cinquenta dias, considerando-os como um só. Iniciam-se com a celebração da Vigília Pascal, designada por Santo Agostinho como “mãe de todas as santas vigílias”,2 e se alongam como manifestação da alegria de todos os cristãos até o Domingo de Pentecostes. A cerimônia litúrgica desta Vigília começa no exterior do templo, após o cair da noite, com a bênção do fogo, num rito que encontra sua origem nos primeiros séculos da Igreja. Esse fogo novo acende o Círio Pascal, símbolo do próprio Jesus Cristo que rompe as trevas da Lei Antiga e da escravidão ao pecado, para trazer às almas a salvação. Já no interior do recinto sagrado, a chama do Círio estende-se às velas de todos os fiéis ali reunidos como representação da Igreja inteira com suas lâmpadas acesas, em sinal de vigilância, à espera do Senhor.
A cena da assembleia imersa nas trevas leva-nos a reviver por alguns instantes a longa expectativa da humanidade até o advento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nesses séculos houve atroz sofrimento, súplicas, e muitas lágrimas foram derramadas. Seriam elas transformadas em alegria? As promessas divinas indicavam que sim. Esta viria não do esforço ou de um mérito adquirido, mas do perdão. Não era possível que o mundo fosse redimido sem um grandioso ato de misericórdia, indispensável para purificar o gênero humano da culpa original e dos pecados atuais. A sequência de leituras proposta para a Solenidade de hoje indica os rumos pelos quais Deus conduziu seu povo, com o intuito de educá-lo, até operar a Redenção. Conforme nos adentremos nessas considerações, poderemos comprovar a sabedoria com que a Providência formou na virtude os seus eleitos, partindo sempre do princípio — e esse é o bom caminho teológico — que diz: se Ele assim fez, foi o melhor.
Uma síntese da História da salvação
A primeira leitura (Gn 1, 1—2, 2) se sintetiza em dois pontos, sendo o primeiro deles a processividade com que Deus cria todas as coisas para, por último, modelar o homem. Esse modo hierárquico do operar divino deixa claro que a criatura feita à sua imagem e semelhança é superior às outras criaturas visíveis, o que ajuda o homem a não cair na idolatria. Depois, o descanso reservado para o sétimo dia recorda que se deve trabalhar aplicando o esforço sobre a natureza, para lhe dar um brilho ainda maior do que quando saía das mãos do Criador, mas sem se esquecer de que tudo deve ser feito por amor a Deus. Contudo, é necessário ter presente que a beleza descrita neste trecho do Gênesis é ínfima perto do esplendor da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, como pede a oração correspondente a essa leitura: “dai aos que foram resgatados pelo vosso Filho a graça de compreender que o sacrifício do Cristo, nossa Páscoa, na plenitude dos tempos, ultrapassa em grandeza a criação do mundo realizada no princípio”.3
A seguir, na segunda leitura (Gn 22, 1-18), vemos a inteira disponibilidade de Abraão ao oferecer seu filho Isaac em sacrifício, obedecendo à determinação divina. O filho já havia morrido no coração do patriarca quando o Anjo lhe detém o braço, antes de desfechar o golpe. Isaac, que estava condenado, como que ressuscita, composição esta evocativa da Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A terceira leitura (Ex 14, 15—15, 1) ressalta o quanto a vitória dos bons depende da intervenção de Deus, sobretudo por se tratar de um povo escolhido e protegido por Ele, como neste caso em que os judeus são defendidos da ira do Faraó com um prodígio admirável, pré-figura de outro ainda maior. Pois se nos impressionamos com a imponência de Moisés levantando seu cajado para abrir as águas do Mar Vermelho, temos nisso algo menos retumbante que o milagre realizado na pia batismal. A quarta leitura (Is 54, 5-14), em contrapartida, apresenta os israelitas no cativeiro, como castigo por sua infidelidade. De forma análoga, a humanidade antes da Redenção vivia num merecido exílio pela culpa original, mas Deus, como nos transmite a quinta leitura (Is 55, 1-11), promete enviar uma torrente de graças que virá depois da Ressurreição. O que Ele espera de nós é apenas o pedido de perdão e almas inteiramente abertas para acolher suas dádivas.
Já na sexta leitura, o profeta Baruc (3, 9-15.32—4, 4) faz um elogio à sabedoria — identificando-a com a prática dos Mandamentos — e mostra como viver em inteira conformidade com ela é um dos maiores dons recebidos nesta vida. Isto nos sugere um contraste com os dias atuais, em que os homens buscam avidamente o prazer e ignoram que a verdadeira alegria se encontra na posse da sabedoria.
Por fim, Ezequiel (36, 16-17a.18-28) anuncia a iniciativa divina de lavar o povo de suas iniquidades, concedendo uma graça superabundante para exaltar a santidade do seu próprio nome. Nessa misericordiosa atitude de Deus, a despeito de nossos nulos méritos, é profetizada a fundação de uma nova era histórica nascida dos frutos da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Depois de acompanhar os principais episódios da história do povo eleito, símbolo da peregrinação do gênero humano pelas sendas do pecado até a Encarnação, estamos preparados para contemplar o fato central de todos os tempos, do qual tudo quanto foi referido anteriormente é um prenúncio, e que haveria de encerrar esse período de trevas, tornar efetivas as promessas feitas aos patriarcas e profetas, e abrir para sempre aos homens as portas da eternidade, fechadas desde a transgressão cometida por nossos primeiros pais.
II – O SOLENE ANÚNCIO DA RESSURREIÇÃO
1 “Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”.
Movidas pelo amor, Maria Madalena e a outra Maria dirigiam-se ao sepulcro para concluir a preparação fúnebre do Corpo sagrado e adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mc 16, 1; Lc 24, 1). Estavam preocupadas de que os cuidados aplicados na sexta-feira não houvessem sido suficientes devido à urgência em concluir a tarefa antes do início do descanso sabático (cf. Jo 19, 38-42). Pela narrativa de São Marcos (16, 1) e de São Lucas (24, 10), sabemos que outras mulheres também se uniram a elas, pois eram várias as que desejavam proporcionar ao Divino Mestre o que havia de melhor, máxime considerando que o grupo era formado por damas ricas (cf. Lc 8, 3), e que Maria Madalena possuía uma das maiores fortunas de Israel. É provável que tenham gastado uma soma “lamentável”, segundo os critérios de Judas, muito superior aos trezentos denários empregados na aquisição do perfume de nardo puro com o qual Maria Madalena ungira os pés de Jesus (cf. Jo 12, 3-6), suscitando as queixas do traidor.
Transparece nesta cena, especialmente em Santa Maria Madalena — que deve ter sido quem demoveu a outra com seu entusiasmo —, o amor levado às últimas consequências. Era ela uma alma de eleição, não conhecendo limites sua caridade, apesar das fraquezas da vida passada de que já havia sido perdoada. À medida que se firmou nesse amor, também se identificou mais com o Mestre, disposta a fazer tudo por Ele.
Com efeito, em poucos personagens do Evangelho encontramos uma reciprocidade tão perfeita em relação a Jesus como na irmã de Lázaro e Marta, e por este motivo ela é modelo de amor. Amor vigilante e solícito, que não faz economia e enfrenta qualquer situação; amor que a incita à preocupação pelo que advenha ao Amado; amor que não tem respeito humano, pois enquanto os Apóstolos estão escondidos, ela não mede esforços nem sacrifícios, decidida até a rolar a pedra do sepulcro com as mãos, discutir com os guardas, implorar e provocar um tumulto, se necessário fosse. Por quê? Ela deseja embalsamar o Corpo d’Aquele a quem adora: “O amor de Madalena a torna intrépida: nem o silêncio da noite, nem a solidão do lugar, nem a morada dos mortos, nem a aparição dos espíritos a apavoram; ela apenas teme por não ver o Corpo de seu Mestre para Lhe render as últimas homenagens”.4
Difícil é meditar a respeito desta passagem sem nos determos para um breve exame de consciência: será que temos em relação a Nosso Senhor esse grau de ardor em que nada é obstáculo para glorificá-Lo, e tudo é desconfiança face ao que possa ser feito contra Ele?

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Evangelho - Domingo de Ramos da Paixão do Senhor - Ano A - Mt 27, 11-54

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Mt 27, 11-54  
DOMINGO DE RAMOS - ANO A 

O combate do católico é sua glória
A lição da Liturgia neste início de Semana Santa deve ser guardada na lembrança até o nosso último suspiro: somos combatentes! Não fomos feitos para apoiar aqueles que põem sua esperança no mundo, mas para defender Nosso Senhor Jesus Cristo. O mundo só nos interessa como objeto de conquista para o Reino de Deus, pois queremos ser apóstolos, a fim de que todos os homens experimentem nossa alegria de cristãos. Alegria proveniente da certeza, infundida pela fé na alma, de um dia recuperar o corpo em estado glorioso e viver a eternidade feliz no convívio com Deus, com Maria Santíssima, com os Anjos e com os Santos.
Embora esta passagem para a bem-aventurança tenha como átrio a morte — destino natural de todo homem —, a convicção de que a cruz conduz à luz, isto é, à vitória e ao triunfo final, torna a alma equilibrada, calma e serena, e dá forças para encarar a morte com confiança, sabendo que no outro lado estará Aquele que por nós morreu na Cruz, pronto a nos receber.

Nesta Semana Santa, unamo-nos a Nosso Senhor Jesus Cristo e façamos companhia a Nossa Senhora nas dores que ao longo dos próximos dias vão se descortinar diante de nossos olhos, com a certeza da glória que atrás delas espera para se manifestar. 
1) VIGÍLIA PASCAL. Proclamação da Páscoa. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.275.
2) MISSA DO DIA DA PASCOA. Sequência. In: MISSAL ROMANO. Palavra do Senhor I — Lecionário Dominical (A-B-C). Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB e aprovada pela Sé Apostólica. São Paulo: Paulus, 2004, p.190.
3) Cf. CIA DIAS, EP, João Scognaniiglio. Uma mulher precedeu os evangelistas. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.75 (Mar., 2008); p.10-17; Comentário ao Evangelho do Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor — Ano A, neste mesmo volume.
4) GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros.Madrid: Rialp, 1977, p.312.
5) SAO BERNARDO. Sermones de Tiempo. En el Santo Día de la Pascua. Sermón I,ni-2. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1953, v.1, p.497-498.
6) Idem, n.5-6, p.500-501.
7) Cf. FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Pasión, Muerte y Resurrección. Madrid: Rialp, 2000, v.111, p.212.
8) SANTO ANTÔNIO MARIA CLARET. Setmones de Misión. Barcelona: L. Religiosa, 1865, v.111, p.197.
9) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.14, a.1
10) Cf. Idem, ad 2.
11) Idem, q.49, a.6, ad 3.
12) Cf. Idem, q.14, a.4.
13) Cf. Idem, q.46, a.5.
14) GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., p.309.
15) SAO TOMAS DE AQUINO, op. cit., q.49, a.6.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Evangelho - Domingo de Ramos da Paixão do Senhor - Ano A - Mt 27, 11-54

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Mt 27, 11-54  
DOMINGO DE RAMOS - ANO A 
“Per Crucem ad Lucem!”
Contrariamente à quimera sugerida por certa mentalidade muito alastrada, não é possível abolir a cruz da face da Terra, pois, em geral, todo ser humano sofre. Apenas nas produções cinematográficas e demais fantasias do gênero — coroadas sempre pelo happy end — encontramos figuras irreais de pessoas imunes a qualquer incômodo físico ou moral, bem-sucedidas em todos os seus empreendimentos e sem dificuldades no convívio social, não havendo sequer os pequenos aborrecimentos e decepções do cotidiano.
Por mais que se fundem hospitais, por mais que se abram creches ou se construam abrigos para idosos, a dor é nossa companheira e só deixará de existir no Paraíso Celeste. E imprescindível ao homem, portanto, compreender o verdadeiro valor do sofrimento, pois uma impostação equivocada perante ele leva alguns a caírem no abatimento; outros, a revoltar-se contra a Providência; outros — quiçá a maioria — a querer se esquivar de carregar a própria cruz, tentativa que, além de ser inútil, a torna mais pesada, acrescentandoe0 ônus da inconformidade com a vontade de Deus, que conhece e permite cada uma de nossas angústias.
O valor da luta
Compenetremo-nos de que a dor encerra inúmeros benefícios para nossa salvação. Em primeiro lugar, é um poderoso meio para nos aproximarmos de Deus. Com efeito, desde antes da queda, Anjos e homens, por terem sido criados em estado de prova, têm a tendência de fechar-se sobre si, quando deveriam estar constantemente abertos para Deus. E é nisto que consiste a prova. Com o pecado essa inclinação acentuou-se, e cada falta atual aumenta-lhe a virulência.
Por tal razão, as lutas, reveses e aflições surgidas em nosso caminho são elementos eficazes para dirigir nosso espírito ao Bem infinito e escancarar para Ele a porta de nossa alma. Nessas horas experimentamos o poder da oração, sentimos nossa total dependência em relação ao Criador e nos colocamos em suas mãos sem reservas, à procura de amparo e força. Assim considerado, o sofrimento bem pode receber o título de bern-aventurança que nos faz merecer, já neste mundo, a recompensa de libertar-nos de nosso egoísmo e de vivermos voltados para Deus. Ó dor, bem-aventurada dor!
O sofrimento nos torna patente, ainda, o vazio dos bens terrenos, tão passageiros, e nos ensina a não pormos neles a esperança, alimentando em nosso coração o desejo da felicidade eterna. Em sua bondade infinita, o Senhor “nos cumulou de tribulações na Terra para nos obrigar a buscar a felicidade no Céu”,8 assegura Santo Antônio Maria Claret. Se nossa existência transcorresse sem a presença de obstáculos, seríamos como um botão de rosa que nunca houvesse desabrochado ou um bebê que não crescesse nem se desenvolvesse, e jamais atingiríamos a plenitude espiritual de um concidadão dos Santos e habitante do Céu. O sofrimento constitui-se, então, um meio infalível de preparação para contemplar a Deus face a face.
A glória comprada pelo sofrimento
O Verbo onipotente, Unigênito do Pai, ao Se encarnar quis passar pelas vicissitudes da condição humana, para nos dar exemplo de paciência.9 Sua Alma santíssima, criada na visão beatífica desde o primeiro instante da concepção, já possuía toda a glória, e esta deveria, naturalmente, refletir-se em sua carne. Mas a relação natural entre alma e corpo n’Ele estava submetida à sua divina vontade, à qual aprouve suspender esta lei,1° realizando um milagre contra Si mesmo, pois preferiu tomar um corpo padecente “a fim de que obtivesse com maior honra a glória do Corpo, quando a merecesse pela Paixão”.11 Por conseguinte, Ele assumiu aquelas deficiências corporais derivadas do pecado original que não são incompatíveis com a perfeição da ciência e da graça, como o cansaço, a fome, a sede, a morte.12 Quis nascer numa Gruta, onde suportou o frio da noite e outras agruras; quis depois viver de maneira apagada, como Filho de um carpinteiro, sem revelar sua origem eterna; e, por fim, quis sofrer morte violenta para nosredimir. Sujeitando-Se a todos os gêneros de sofrimento humano inferidos de fora,’3 Jesus viSava também apontar o combate da cruz como causa de elevação para todos nós, batizados, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (cf. Rm 8, 17). E o que nos apresenta a primeira leitura (Is 50, 4-7), na disposição de Isaías — pré-figura do Redentor — de enfrentar todos os ultrajes por amor a Deus e ao próximo, certo, todavia, de não ser desonrado nem desapontado, pois o Senhor virá em seu auxílio e lhe concederá a vitória.
As palavras de São Paulo aos filipenses, depois de se referir aos tormentos de Cristo, confirmam com maior ênfase este ensinamento: “Por isso, Deus O exaltou acima de tudo e Lhe deu um nome que está acima de todo nome. Assim, ao nome de Jesus todo joelho se dobre no Céu, na Terra e abaixo da terra, e toda língua proclame: ‘Jesus Cristo é o Senhor’, para a glória de Deus Pai” (Fl 2, 9-11). Tão excelente é o sacrifício de nosso Salvador, oferecendo-Se a Si mesmo ao Pai como Vítima perfeita, que os efeitos da Paixão excedem em muito a dívida do pecado: “Deus Pai pediu a seu Filho um ato de amor que Lhe agrada mais do que Lhe desagradam todos os pecados juntos; um ato de amor redentor, de um valor infinito e superabundante”.14 Por causa desse generoso holocausto, no qual Se humilhou e Se esvaziou de sua dignidade divina tornando-Se semelhante aos homens, Nosso Senhor mereceu ser exaltado, pois “quando alguém, por uma justa vontade, se priva do que tinha direito de possuir, merece que se lhe dê mais, como salário de sua vontade justa”,15 afirma São Tomás.

Reportando-nos ao início da celebração do Domingo de Ramos, vemos que se a entrada triunfal em Jerusalém precedia as humilhações da Paixão, esta, por sua vez, prenunciava a verdadeira glorificação de Jesus, conforme suas próprias palavras aos discípulos de Emaús, depois da Ressurreição: “Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?” (Lc 24, 26).