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quinta-feira, 21 de maio de 2015

EVANGELHO DE PENTECOSTES - ANO B - Jo 20, 19-23

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
A mística atualidade da Liturgia
Ora, que relação têm estas reflexões com a Solenidade de Pentecostes? A consideração das festas litúrgicas não deve ser focalizada como um mero exercício de memória, de maneira semelhante a alguém que, chegado o aniversário de falecimento de um parente ou amigo, toma uma fotografia deste e relembra quanto ele era bom, mas depois continua seus afazeres sem dar mais importância ao fato. Se é verdade que na Liturgia cabe, em parte, também a recordação, no entanto há uma atualidade mística que se verifica no momento da Santa Missa, trazendo uma participação real, autêntica e direta nas graças distribuídas naquele dia — hoje, em concreto, a efusão do Espírito Santo —, porque nos congrega em torno de Cristo vivo, e não constitui apenas uma reminiscência do período em que Ele estava na Terra.
Tal é a doutrina da Igreja, conforme ensina o Papa Pio XI na Encíclica Quas primas: “para instruir o povo nas coisas da Fé e atraí-lo por meio delas aos íntimos gozos do espírito, muito maior eficácia têm as festas anuais dos sagra dos mistérios que quais quer ensinamentos, por autorizados que sejam, do Magistério Eclesiástico”.5 E o Papa Pio XII, na Encíclica Mediator Dei sobre a Sagrada Liturgia, afirma: “O Ano Litúrgico, que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos.
É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem (cf. At 10, 38) com o fim de colocar as almas humanas em contato com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos Doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor; e porque perduram em nós no seu efeito, sendo cada um deles, de modo consentâneo à própria índole, a causa da nossa salvação”.6
A Igreja pede para “agora” as graças concedidas no Cenáculo
Não nos é dado penetrar integralmente em todo o significado e substância do acontecimento de Pentecostes, visto estar ele cheio de mistério. Na verdade, o que se teria passado com a Esposa de Cristo se não descesse o Paráclito sobre os Apóstolos? Não nos esqueçamos de que — digamo-lo com todo o respeito —, durante a Paixão de Nosso Senhor eles foram covardes, O abandonaram, desapareceram, fugiram (cf. Mt 26, 56; Mc 14, 50). Após a Morte e Ressurreição de Jesus tornaram a reunir-se, desejosos de ver a implantação do reino de Israel sobre todos os povos (cf. At 1, 6), e não do Reino dos Céus que o Divino Mestre havia pregado! Esta é a natureza humana... incapaz, por si, de atos sobrenaturais. Quiçá a Providência tivesse permitido que fossem tão pusilânimes para mostrar qual a distância existente entre a nossa condição — da qual às vezes tanto nos orgulhamos — e a força do Espírito Santo. Com efeito, muitas vezes julgamos que os Santos eram pessoas de vontade extraordinária, graças à qual venceram os obstáculos até conquistarem a coroa da justiça. Ora, nenhum homem, por mais hábil que seja, alcança a perfeição por seu esforço pessoal; só praticará as virtudes de forma estável se assistido pelo Espírito Santo. E Ele quem santifica a Igreja inteira, como se deu naquela manhã, quando o vento invadiu toda a casa onde estavam e as línguas de fogo pousaram sobre a cabeça dos Doze e de seus companheiros, como narra a primeira leitura (At 2, 1-11) desta Solenidade: de medrosos que eram, tornaram-se heróis!

terça-feira, 19 de maio de 2015

EVANGELHO DE PENTECOSTES - ANO B - Jo 20, 19-23


COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
II - PENTECOSTES NO SÉCULO XXI
Como criaturas humanas que somos, habituados às coisas sensíveis, ou seja, ao que vemos, ouvimos ou apalpamos, vivemos muito mais voltados para a matéria do que propriamente para o espírito; por isso tendemos a crer apenas naquilo que é concreto, como o Apóstolo São Tomé que, ao receber a notícia da Ressurreição de Nosso Senhor, disse: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!” (Jo 20, 25). Assim somos nós: queremos comprovar para acreditar. Esquecemos, todavia, que uma vez demonstrado um fato, a razão conclui ante as evidências e torna-se desnecessária a crença; pelo contrário, a fé é justamente uma virtude que nos leva a aceitar aquilo que ultrapassa a nossa constatação, segundo lemos na Escritura: “A fé é [...] uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11, 1).
Deus é todo-poderoso
Custa-nos, neste sentido, compenetrarmos-nos de um ponto, que é o da onipotência de Deus, embora sempre proclamemos no início do Credo: “Creio em Deus Pai todo-poderoso”. Até os Apóstolos se defrontavam com esta dificuldade, como se infere daquela passagem do Evangelho na qual, tendo o moço rico resolvido conservar seus bens e não seguir o Mestre, Ele disse: “E mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc 18, 25). Surpresos, os discípulos perguntaram: “Quem então poderá salvar-se?’. Respondeu Jesus: ‘O que é impossível aos homens é possível a Deus” (Lc 18, 26-27).
Devemos, portanto, colocarmo-nos diante desta perspectiva: Deus é todo-poderoso! Ele tirou do nada o universo, uma multidão de criaturas! Se, por exemplo, temos oportunidade de observar as formiguinhas que se preparam para o inverno, levando folhas e alimento para o formigueiro, tomamos isto com naturalidade e não refletimos que é o Criador quem as sustenta, bem como a todos os demais seres: pedregulhos, árvores, insetos.., tudo! Nós mesmos existimos, estamos cheios de vitalidade e somos capazes de ler este texto, porque Deus mantém a cada um.
Com seu poder absoluto Ele formou um boneco de barro que artista nenhum conseguiria imitar; depois, soprou-lhe nas narinas e a figura adquiriu vida (cf. Gn 2, 7), gozando de inteligência, vontade e sensibilidade, num corpo perfeito. Mais ainda, além de ser dotado de uma alma espiritual, o homem possuía o estado de graça, com todos os dons sobrenaturais acrescidos dos preternaturais, como o dom de integridade, que o impedia de apetecer o mal, a não ser que “se rompesse previamente a harmonia resultante da sujeição de sua razão superior a Deus”;4 o dom de imortalidade, mediante o qual não morreria, mas passaria desta vida para a outra, no Céu, sem a dolorosa separação da alma e do corpo; o dom de ciência infusa que, na qualidade de rei da criação, lhe conferia o conhecimento de todas as coisas e das razões pelas quais Deus as fez. Quando os animais se enfileiraram diante de Adão para que lhes desse nome (cf. Gn 2, 19-20), ele os designou com o título correspondente àquilo que compreendia da essência de cada um: leão, tigre, avestruz, formiga... Todas estas maravilhas o primeiro homem as recebeu através de um sopro divino! Por quê? Porque Deus é todo-poderoso!
Um plano manchado pelo pecado
Não obstante, o plano concebido por Deus, ao dar a existência ao homem, foi desfeito pelo pecado. Em consequência, Adão perdeu o dom de integridade, a imortalidade, a ciência infusa e... sobretudo, a graça! A partir dele toda a sua posteridade nasceu com a mancha da culpa original e se foi multiplicando uma descendência, com algumas exceções, terrivelmente criminosa. Sobreveio o dilúvio, a Torre de Babel, e horrores sem conta acumularam-se ao longo de milênios de História, em que a decadência se fazia sentir a cada passo. Por fim, na plenitude dos tempos, a humanidade foi redimida pelo Sangue preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, apesar desta restauração, as gerações que se sucederam após a vinda do Messias, em sua maioria, voltaram as costas para os méritos infinitos da Paixão e afundaram novamente no vício; “o mundo não O reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam” (Jo 1, 10-11). A própria natureza humana vai se deteriorando: enquanto no Antigo Testamento as pessoas possuíam uma grande resistência física, que lhes permitia viver centenas de anos — como aconteceu a nossos pais, Adão e Eva, ou a Matusalém (cf. Gn 5, 5.27) —, no presente, a expectativa de vida do homem está entre 70 e 75 anos.

Além disso, a força de vontade e a constituição psíquica sofreram significativa degradação. Na sociedade antiga, muito mais orgânica que a de hoje, o equilíbrio nervoso e mental era mantido com mais firmeza; em nossos tempos, em meio à agitação da vida, diminuiu a estabilidade. Em síntese, a virtude vai desaparecendo da face da Terra, o belo está se despedindo do gênero humano. Assim, encontramo-nos numa situação dramática, talvez pior do que quando o Verbo Se encarnou para pregar o Evangelho e morrer na Cruz.
Continua no próximo post

segunda-feira, 18 de maio de 2015

EVANGELHO SOLENIDADE DE PENTECOSTES - ANO B - Jo 20, 19-23

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DE PENTECOSTES
Mons João Clá Dias
19 Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, Pondo-Se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. 20 Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
21 Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio”. 22 E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Epírito Santo. 23 A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados: a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20, 19-23).
Pentecostes, esperança para o século XXI
A instantânea e radical mudança dos Apóstolos no dia de Pentecostes, há dois mil anos, deita caudais de luz nas obscuras perspectivas de um século que voltou as costas a Deus
I - UMA EFUSÃO DE FOGO DIVINO NO NASCEDOURO DA IGREJA
Solenidade de Pentecostes, na qual celebramos a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, é uma das festividades mais importantes do calendário litúrgico. Este acontecimento conferiu maturidade à Igreja, pois, até então ela repousava nas mãos da Santíssima Virgem, como criança. E assim como Maria estivera presente no Calvário, aos pés da Cruz, enquanto Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Cenáculo Ela estava como Mãe do Corpo Místico de Cristo. Mãe da Cabeça no Calvário, Mãe do Corpo no Cenáculo, Ela queria que esta Igreja recém-nascida crescesse e se desenvolvesse, a fim de tornar-se apta a exercer sua missão evangelizadora.
Naquele dia Nossa Senhora pôde ver como este amadurecimento se deu num instante, quando Se derramou o Espírito Santo em línguas de fogo, primeiro sobre Ela e, depois, d’Ela para todos os Apóstolos, discípulos e Santas Mulheres que ali se encontravam em grande número. A partir daí a Igreja passou a ter mais efusão de santidade, de dons e de graça, e foi instituída na prática, no que se refere à sua ação externa, potência e expansão. O Cenáculo é o começo do assombroso crescimento da Igreja, uma verdadeira explosão evangelizadora.
Assim comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira este acontecimento: “Apesar de tudo quanto Nosso Senhor até então fizera pela Igreja, poder-se-ia de algum modo dizer — não quero fazer uma comparação exata — que a Igreja era, antes de Pentecostes, um boneco de barro, que recebeu de Deus um sopro de vida em Pentecostes, com o Divino Espírito Santo. Ali tudo mudou, tudo passou a viver e tudo passou a pegar fogo no mundo, a contagiar o mundo, até o apogeu dos dias de hoje, em que o Evangelho é pregado a todos os povos”.1

quinta-feira, 14 de maio de 2015

EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Mc 16, 15-20 - ANO B

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR -  Mc 16, 15-20 - ANO B

Chamados a ser modelo para o próximo
A Solenidade da Ascensão nos coloca diante da responsabilidade recebida no dia do Batismo: a de sermos verdadeiros apóstolos, pois não somos criaturas independentes da ordem do universo, mas “fomos entregues em espetáculo ao mundo, aos Anjos e aos homens” (I Cor 4, 9). Vivemos em sociedade, num relacionamento constante com outras pessoas, com a nossa família e amigos, no ambiente de trabalho e onde nos movemos. Por isso, tanto no lar como numa comunidade religiosa, acompanha-nos a obrigação seríssima, sublime e grandiosa de sermos modelo para os outros. Cada um é chamado a representar algo de Deus que não cabe a nenhuma outra criatura, seja ela Anjo ou homem. Pregar o Evangelho não é só ensinar, é também dar bom exemplo, muito mais eloquente do que qualquer palavra. Na vida religiosa ou no seio da família, todos devem procurar vencer suas más inclinações e edificar o próximo, buscando sua santificação.
Assim como São Paulo desejava despertar nos efésios a esperança de um dia atingirem a glória, a Igreja, através da Liturgia, quer que sintamos no fundo da alma o que Deus preparou para gozarmos na eternidade, conquistado por Nosso Senhor Jesus Cristo no dia da Ascensão. De que valem as aflições terrenas sobre coisas transitórias? De que vale gozar os prazeres que o mundo pode oferecer? Acumular honras, aplausos, benefícios, e ao chegar a hora de partir deixar tudo, e apresentarmo-nos com as mãos vazias diante de Deus? Aproveitemos esta Solenidade para firmar o propósito de abandonar todo e qualquer apego ao pecado que nos afaste deste objetivo e nos tire “a esperança que o seu chamamento vos dá, [...] a riqueza da glória que está na vossa herança com os Santos”. A este respeito, convém recordar o conselho de Santo Agostinho: “Pensa em Cristo sentado à direita do Pai; pensa que virá para julgar os vivos e os mortos. É o que indica a fé; a fé se radica na mente, a fé está nos alicerces do coração. Olha para quem morreu por ti; olha-O quando ascende e ama-O quando sofre; olha-O ascender e aferra-te a Ele em sua Morte. Tens uma garantia de tão grande promessa feita por Cristo: o que Ele fez hoje — a sua Ascensão — é uma promessa para ti. Devemos ter a esperança de que ressuscitaremos e ascenderemos ao Reino de Deus, e ali estaremos para sempre com Ele, numa vida sem fim, alegrando-nos sem nenhuma tristeza e vivendo sem qualquer enfermidade”.14
Que a fé e a esperança alimentem a nossa alma no árduo caminho do cristão de nossos dias, e com esta chama sempre acesa enfrentaremos as adversidades. O mandato de evangelizar nos convida a subir misticamente com Nosso Senhor à Pátria Eterna, para onde iremos em corpo e alma depois da ressurreição. Peçamos por meio d’Aquela que foi assunta aos Céus, Maria Santíssima, que sejamos para lá conduzidos, celebrando exultantes este mistério.
1 Cf. DAL GAL, OFMCap, Girolamo. Beato Pio X, Papa. Padova: Il Messaggero di S. Antonio, 1951, p.402.
2 GONZÁLEZ ARINTERO, OP, Juan. Evolución mística. Salamanca: San Esteban, 1989, p.4142.
3 TURRADO, Lorenzo. Biblia Comentada. Hechos de los Apóstoles y Epístolas paulinas. Madrid: BAC, 1965, v.VI, p.569.
4 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.57, a.2.
5 Cf. Idem, q.52, a.4, ad 1; a.5, ad 3.
6 Cf. Idem, q.57, a.6.
7 SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. L.XXII, c.1, n.2. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.1627.
8 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., q.57, a.6.
9 SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.313.
10 Para outros comentários acerca deste tema, ver: CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A Ascensão do Senhor. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.65 (Maio, 2007); p.12-19; Comentário ao Evangelho da Solenidade da Ascensão – Anos A e C, respectivamente nos Volumes I e V da coleção O inédito sobre os Evangelhos.
11 Cf. MARIA DE JESUS DE ÁGREDA. Mística Ciudad de Dios. Vida de María. P.II, l.VI, c.28, n.1496. Madrid: Fareso, 1992, p.1088; BEATA ANA CATARINA EMMERICK. Visiones y revelaciones completas. Visiones del Antiguo Testamento. Visiones de la vida de Jesucristo y de su Madre Santísima. Buenos Aires: Guadalupe, 1954, t.IV, p.242.
12 SANTO AGOSTINHO. Sermo CCLXV/F, n.3. In: Obras. Madrid: BAC, 1983, v.XXIV, p.720.
13 BENTO XVI. Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011, p.257.

14 SANTO AGOSTINHO. Sermo CCLXV/C, n.2. In: Obras, op. cit., v.XXIV, p.704.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Mc 16, 15-20 - ANO B

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR -  Mc 16, 15-20 - ANO B

Nossa esperança se fundamenta no poder de Deus
A esperança! Esta virtude teologal nos faz possuir, por antecipação, as maravilhas inimagináveis que receberemos em plenitude no fim do estado de prova e para as quais o Apóstolo aponta em sua carta.
Deus nos predestinou à salvação desde toda a eternidade e, antes mesmo de sermos criados, já havia determinado a via de santificação de cada um, antegozando o momento em que nasceríamos e começaríamos a trilhá-la. Alimentando nossa esperança em meio às dores da vida, Ele age conosco como alguém que, tendo construído um palácio para nós em local de difícil acesso, nos conduz a ele por um caminho no meio de um matagal, cheio de espinheiros e charcos próprios a causar apreensão. E anseia por nos levar quanto antes até uma clareira de onde possa mostrar, à distância, o edifício, a fim de nos encorajar a continuar o caminho.
Mais adiante, menciona São Paulo o “imenso poder que Ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com sua ação e força onipotente” (Ef 1, 19). Com efeito, se a salvação estivesse sujeita aos nossos esforços nós não iríamos para o Céu, como mostra o episódio do moço rico que, ao ser chamado por Nosso Senhor, negou-se a abandonar tudo para segui-Lo, o que levou Jesus a dizer: “É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus” (Mc 10, 25). A afirmação surpreendeu os Apóstolos, que “se admiravam, dizendo a si próprios: ‘Quem pode então salvar-se?’. Olhando Jesus para eles, disse: ‘Aos homens isso é impossível, mas não a Deus; pois a Deus tudo é possível’” (Mc 10, 26-27). Sim, graças ao seu poder progredimos nas veredas da perfeição e, sobretudo, perseveramos até o término de nossa peregrinação terrena. Eis a principal razão que deve nos mover a depositar n’Ele toda a nossa esperança. Entretanto, haverá alguma garantia de que ela será recompensada?

segunda-feira, 11 de maio de 2015

EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Mc 16, 15-20 - ANO B

COMENTÁRIO AO EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR
Naquele tempo, Jesus Se manifestou aos onze discípulos, 15 e disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! 16 Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. 17 Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; 18 se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”. 19 Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao Céu, e sentou-Se à direita de Deus. 20 Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam (Mc 16, 15-20)
Subiremos ao Céu em virtude da Ascensão!
A Ascensão de Jesus nos dá a certeza de que teremos o mesmo destino se seguirmos o mandato que Ele nos deu neste dia.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
 I – A MISSÃO DE TRANSMITIR O INTRANSMISSÍVEL...
O Papa São Pio X, mesmo em meio às inúmeras ocupações inerentes à sua condição de Pastor Universal da Santa Igreja, empenhava-se em dar aulas de catecismo, todas as semanas, a crianças das paróquias de Roma que se preparavam para a Primeira Comunhão, das quais participavam também incontáveis fiéis.1 E afirmava algo impressionante: para lecionar uma hora de catecismo são necessárias duas de estudo. De modo análogo, um bom pregador, incumbido de dirigir exercícios espirituais pelo período de cinco dias, precisa dedicar cerca de quinze para organizá-los, selecionar matéria adequada e se adaptar à psicologia do público, a fim de obter os frutos desejados. Idêntico processo compete a professores, conferencistas e todos os que têm a missão de ensinar, dado que o princípio geral é invariável: sempre que nos cabe formar outros, devemos aprender muito além do que vamos transmitir e nos embebermos de seu conteúdo.
Foi o que sucedeu aos Apóstolos: Deus os escolheu para serem testemunhas e difusores do Evangelho no mundo inteiro, e para isso era indispensável que se tornassem profundos conhecedores de tudo quanto haviam sido chamados a comunicar. No entanto, o que escreveram ou disseram era uma porcentagem ínfima em comparação com o que viram e viveram.
O fogo do Apóstolo: fruto da experiência mística
Exemplo cogente disto é a figura de São Paulo. De onde hauriu ele tudo quanto declara em suas densas cartas? Em primeiro lugar, recebeu uma graça de conversão — aquela que produz os efeitos para o que foi criada (cf. At 9, 1-19; 22, 4-16; 26, 10-18; Gal 1, 13-17). Ia ele capturar cristãos na região de Damasco quando, ainda a caminho, Nosso Senhor o fez “cair do cavalo” e perguntou: “‘Saulo, Saulo, por que Me persegues?’. Saulo disse: ‘Quem és, Senhor?’. Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão’. Então, trêmulo e atônito, disse ele: ‘Senhor, que queres que eu faça?’” (At 9, 4-6). Nesta hora foi-lhe concedido o dom da fé, para crer na voz que o interpelava; caso contrário, teria se levantado arrogante, desafiando a Deus.
A partir daí, o Divino Mestre trabalhou a fundo sua alma e começou a prepará-lo para ser o propagador do Evangelho por excelência. O retiro feito por ele no deserto da Arábia (cf. Gal 1, 17-18) teve enorme papel nesta transformação, pois ao longo deste período, segundo revelações particulares, gozou da companhia do Homem-Deus em Corpo glorioso.
E quiçá mais assinalável tenha sido o êxtase no qual São Paulo, sendo arrebatado ao terceiro Céu, “ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir” (II Cor 12, 4). Tais prerrogativas levaram-no a empreender um anúncio da Boa-nova mais eficaz que o dos Doze (cf. I Cor 15, 10). Poderíamos comparar a pregação do Apóstolo à situação de alguém que fosse contar às pessoas de uma civilização hipotética existente debaixo da terra o que se passa à luz do Sol. Neste caso talvez houvesse certa proporção entre um mundo e outro, mas o que foi dado a São Paulo vislumbrar está tão acima daquilo que conhecemos, que ele apenas conseguiu dizer: “os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9).
Semelhante dificuldade enfrentam os que, contemplados com graças místicas que lhes fazem sentir em seu interior quem é Deus, não encontram termos adequados no vocabulário humano para explicar sua experiência: “A razão humana desfalece ante tão incompreensíveis mistérios, mas os corações iluminados sentem e experimentam, já nesta vida, tal realidade inefável que não pode caber em palavras nem em conceitos e, menos ainda, em sistemas humanos. O que estas almas conseguem balbuciar desconcerta as nossas débeis apreciações: elas multiplicam os termos que parecem mais exagerados, sem ainda estar satisfeitas com isso, pois sempre veem que ficam aquém, que a realidade é incomparavelmente maior de quanto possa ser dito”.2
O segredo da profundidade dos escritos paulinos

A Epístola aos Efésios — da qual a Liturgia recolhe um trecho para uma das opções de segunda leitura (Ef 1, 17-23) — é ilustrativa neste sentido. Mais que uma missiva, ela é quase um tratado no qual São Paulo se empenha em transmitir o que lhe foi manifestado a respeito de Nosso Senhor e da glória eterna que nos está reservada. Suas afirmações demonstram de sobejo que ele viu mais do que aquilo que escreveu: “O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-Lo revele e faça verdadeiramente conhecer” (Ef 1, 17). São Paulo deseja instruir sobre algo, que a tal ponto foge aos interesses humanos, materiais e imediatos, que sem o espírito da sabedoria de Deus não pode ser assimilado. Afinal, como é possível discorrer sobre o que ninguém vê? De que maneira tratar de uma realidade acima de toda e qualquer cogitação humana? Como falar daquilo que depende de um fenômeno místico? Para entender é preciso uma revelação vinda do Céu, e é a isto que ele se refere, como indica a construção de sua frase em grego: “os dois genitivos ‘de sabedoria e de revelação’ [...], dependentes do substantivo ‘espírito’, se complementam mutuamente e aqui significam um conhecimento íntimo e profundo de Deus e de seus planos de salvação, ao qual o homem, por suas próprias forças, não pode chegar”.3 Por este motivo insiste, pedindo a Nosso Senhor que “abra o vosso coração à sua luz para que saibais qual é a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os Santos” (Ef 1, 18).
Continua no próximo post

domingo, 10 de maio de 2015

EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Mc 16, 15-20 - ANO B

COMENTÁRIO AO EVANGELHO – SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR

Naquele tempo, Jesus Se manifestou aos onze discípulos, 15 e disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! 16 Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. 17 Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; 18 se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”. 19 Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao Céu, e sentou-Se à direita de Deus. 20 Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam (Mc 16, 15-20)
Subiremos ao Céu em virtude da Ascensão!
A Ascensão de Jesus nos dá a certeza de que teremos o mesmo destino se seguirmos o mandato que Ele nos deu neste dia.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

I – A MISSÃO DE TRANSMITIR O INTRANSMISSÍVEL...
O Papa São Pio X, mesmo em meio às inúmeras ocupações inerentes à sua condição de Pastor Universal da Santa Igreja, empenhava-se em dar aulas de catecismo, todas as semanas, a crianças das paróquias de Roma que se preparavam para a Primeira Comunhão, das quais participavam também incontáveis fiéis.1 E afirmava algo impressionante: para lecionar uma hora de catecismo são necessárias duas de estudo. De modo análogo, um bom pregador, incumbido de dirigir exercícios espirituais pelo período de cinco dias, precisa dedicar cerca de quinze para organizá-los, selecionar matéria adequada e se adaptar à psicologia do público, a fim de obter os frutos desejados. Idêntico processo compete a professores, conferencistas e todos os que têm a missão de ensinar, dado que o princípio geral é invariável: sempre que nos cabe formar outros, devemos aprender muito além do que vamos transmitir e nos embebermos de seu conteúdo.
Foi o que sucedeu aos Apóstolos: Deus os escolheu para serem testemunhas e difusores do Evangelho no mundo inteiro, e para isso era indispensável que se tornassem profundos conhecedores de tudo quanto haviam sido chamados a comunicar. No entanto, o que escreveram ou disseram era uma porcentagem ínfima em comparação com o que viram e viveram.
O fogo do Apóstolo: fruto da experiência mística
Exemplo cogente disto é a figura de São Paulo. De onde hauriu ele tudo quanto declara em suas densas cartas? Em primeiro lugar, recebeu uma graça de conversão — aquela que produz os efeitos para o que foi criada (cf. At 9, 1-19; 22, 4-16; 26, 10-18; Gal 1, 13-17). Ia ele capturar cristãos na região de Damasco quando, ainda a caminho, Nosso Senhor o fez “cair do cavalo” e perguntou: “‘Saulo, Saulo, por que Me persegues?’. Saulo disse: ‘Quem és, Senhor?’. Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão’. Então, trêmulo e atônito, disse ele: ‘Senhor, que queres que eu faça?’” (At 9, 4-6). Nesta hora foi-lhe concedido o dom da fé, para crer na voz que o interpelava; caso contrário, teria se levantado arrogante, desafiando a Deus.