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terça-feira, 16 de setembro de 2014

EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a
A figura da vinha
Ao contrário do que geralmente se supõe, a região na qual hoje se incluem a Palestina e Israel era, no tempo de Nosso Senhor, extremamente fértil. O panorama muitas vezes árido e desolador de nossos dias é resultante de dois mil anos de lutas e arrasamentos. Mas ali de fato era um país onde, além de “correr o leite e o mel” e produzir ótimo azeite, cultivavam-se excelentes vinhas, conforme no-lo atestam as Sagradas Escrituras (Nm 13, 24), certamente sinal de bênção de Deus.
No trabalho da vinha, utilizavam-se dois períodos do ano: o começo da primavera e o outono. O primeiro para deixá-la pronta para o florescimento e o outro para a colheita. Para ambas as ocasiões se necessitava um bom número de trabalhadores extras, pois poucos eram permanentes. Por isso vemos, na parábola em questão, o pai de família ir à procura dos operários, contratando uns por necessidade e outros pelo puro desejo de lhes oferecer um meio de ganhar algo.
As horas de trabalho eram divididas em quatro partes de sol a sol, ou seja, de três em três horas, das seis da manhã às seis da tarde. Entretanto, na parábola dos vinhateiros, os últimos trabalharam tão-só das 17 às 18h, constituindo um quinto grupo. O salário, como é óbvio, era o contratado.
A explicação
Uma boa explanação sobre essa parábola, dada com a clareza, concisão e objetividade próprias ao estilo francês, é de autoria do conhecido exegeta L. Cl. Fillion, na Vie de N. S. Jésus-Christ. Segundo ele, de modo geral os comentaristas dos Evangelhos são concordes em que, nas parábolas, há circunstâncias cuja função é apenas de ornamento. No presente caso, muitos comentadores tropeçam na análise, ao forçar uma interpretação de cada detalhe.
Tendo isto em vista, Fillion procura apontar a idéia dominante na parábola: “Parece ser que Deus, figurado no proprietário rico, cumpre fielmente suas promessas para os que O servem, e que a todos dá, sem exceção, em qualquer ponto da vida em que tenham começado seu trabalho, uma justa recompensa de todas as suas fadigas.”
Contudo, esse homem reparte seus dons na proporção que lhe apraz. Para vários exegetas, aqui reside a principal dificuldade da parábola: à primeira vista, pareceria uma injustiça o senhor da vinha pagar o mesmo salário tanto para os que trabalharam mais, como para os que menos o fizeram.
Fillion ressalta que, na narrativa, ninguém foi esquecido na hora da distribuição, de modo que não há motivo para queixas. São Tomás é do mesmo parecer: “Naquilo que é dado gratuitamente, uma pessoa pode dar mais ou menos, conforme lhe agradar (desde que não prive ninguém do que lhe é devido), sem de modo algum infringir a justiça” (Summa, 1 q. 23 a. 5). Voltando a Fillion, completa ele seu raciocínio com uma sentença da maior importância, sobre a qual voltaremos adiante: “Cada um deve se satisfazer com o recebido e demonstrar reconhecimento, sem olhar com vista invejosa os que ganharam mais”.
O chamado de Deus
Ao terminar o comentário, o autor francês aponta outra relevante lição da parábola: “Não são todos que começam a trabalhar em sua salvação e santificação na mesma época de sua vida. Alguns o fazem na primeira hora, a infância; outros, na juventude; outros ainda, na idade madura; e alguns iniciam quando já se manifestam os sinais precursores da morte. Felizes os operários da primeira hora, que só tenham vivido para Deus! Felizes também aqueles que, tendo ouvido em qualquer época da vida o chamado da graça, correspondem a ele e acorrem para junto de seu Salvador, a fim de trabalhar com Ele e para Ele!”

Conforme dizíamos no princípio deste artigo, Jesus preparava com suas pregações, nesta fase, o chamado a seus seguidores futuros. Deus, tal como consta nesta parábola, chama todos à perfeição, apesar de o fazer em horas e circunstâncias diversas da vida. Ninguém deve desanimar, se tiver deixado para muito tarde o preocupar-se com sua salvação, pois para todos a misericórdia de Deus reserva um prêmio. Mas também é necessário atender logo à convocação de Jesus, de modo decidido. Nenhum dos chamados ao trabalho, nesta parábola, chegou a propor um horário mais tardio, mas imediatamente se pôs a trabalhar. Nenhum também recusou. Assim devemos proceder nós: não devemos retardar o nosso “sim” ao chamado do Mestre.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a

COMENTÁRIO AO EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a
 O verme roedor da inveja
Veneno que corrói as almas, a inveja ainda é pior quando se revolta contra os favores espirituais concedidos por Deus ao próximo. A este vício moral se dá o nome de inveja da graça fraterna.
Naquele Tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 1O reino dos céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu para contratar trabalhadores para sua vinha. Acertado com eles o preço da diária, mandou-os para sua vinha. Saiu pelas nove horas da manhã e viu outros na praça sem fazer nada. E lhes disse: “Ide também vós para a vinha e eu vos darei o que for justo”. E eles foram. Saiu de novo, por volta do meio-dia e das três horas da tarde, e fez o mesmo. E, ao sair por volta das cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam desocupados e lhes disse: “Como é que estais aqui sem fazer nada o dia todo?” Eles lhe responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele lhes disse: “Ide também vós para a vinha”. Pelo fim do dia, o dono da vinha disse ao seu feitor: “Chama os trabalhadores e paga os salários, a começar dos últimos até os primeiros contratados”. Chegando os das cinco horas da tarde, cada um recebeu um denário. E quando chegaram os primeiros, pensaram que iam receber mais. No entanto, receberam também um denário. Ao receberem, reclamavam contra o dono, dizendo: “Os últimos trabalharam somente uma hora e lhes deste tanto quanto a nós, que suportamos o peso do dia e o calor”. E ele respondeu a um deles: “Amigo, não te faço injustiça. Não foi esta a diária que acertaste comigo? Toma pois o que é teu e vai embora. Quero dar também ao último o mesmo que a ti. Não posso fazer com os meus bens o que eu quero? Ou me olhas com inveja por eu ser bom?” Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos (Mateus 20, 1-16a).
Não raras vezes, o trecho do Evangelho a ser comentado ganha em perspectiva, quando o situamos no seu contexto de tempo e lugar, observando o comportamento do público e as repercussões psicológicas dos protagonistas.
O ambiente no qual Jesus expôs a parábola
A parábola dos operários da vinha foi proferida pelo Divino Mestre em sua última viagem, quando retornava a Jerusalém. Era um momento crucial. Atingindo o ápice de seus milagres, prova inequívoca de sua divindade, Jesus havia ressuscitado Lázaro e, por razões prudenciais (tendo em vista as reações iradas de seus inimigos), resolvera retirar-se de Jerusalém. Passado algum tempo, retomou o caminho da Cidade Santa, onde entraria solenemente no Domingo de Ramos. E é neste último itinerário que vamos encontrá-Lo.
Naquela época, muito anterior a Guttenberg, não existia evidentemente a imprensa, e menos ainda se podia pensar em rádio, televisão e internet. Acostumados como estamos a todos esses meios de comunicação, custa-nos imaginar como as notícias podiam se difundir. Na verdade, embora fossem transmitidas de boca a ouvido, nem por isso era lenta sua divulgação, sobretudo se revestidas de um caráter espetacular. Assim, por exemplo, as novas sobre a intensa atividade de São João Batista, cuja atuação pouco antecedera a de Jesus, haviam corrido por todo o país e até além-fronteiras, causando grande burburinho entre o povo e profunda preocupação no Sinédrio. Havia sido só o começo. Desde os dias nos quais o Precursor batizara seus primeiros penitentes, Israel não mais deixara de ser sobressaltado por uma crescente onda de acontecimentos inusitados e abaladores. E essa sucessão de fatos culminaria na ressurreição de uma pessoa falecida havia quatro dias.
Todavia, tanto quanto os milagres — e até mais que eles —, eram surpreendentes os ensinamentos do Divino Mestre. Suas palavras caíam como refrescante chuva num arenal sedento, como era o mundo de então, incluindo o povo eleito. Encontramo-nos ali numa perspectiva psicológica plena de curiosidade e inquietação, que levava as pessoas a se interessarem pelos mínimos detalhes dos sermões de Jesus de Nazaré. Daí o grande número dos que se reuniam ao redor d’Ele, chegando ao ponto de os evangelistas falarem às vezes de “grande multidão”, como aconteceu na travessia do Jordão (Mt 19, 1-2), quando da volta da Galiléia à Judéia. De outro lado, a doutrina de Jesus e suas movimentações eram motivo de grande intranqüilidade para escribas, fariseus e doutores da lei. A progressiva fama do Divino Mestre os levara a Lhe apresentar questões aparentemente insolúveis e cada vez mais capciosas, mas o único resultado de suas investidas era dar-Lhe oportunidade de expor os seus divinos ensinamentos, que constituem o fundamento da Doutrina Católica. E o ensino de uma doutrina nova criava clima para a explicação de outra, num encadeamento natural extraordinário.
Doutrinas concatenadas
Vemos isto ocorrer na referida viagem de volta a Jerusalém, antecedente ao Domingo de Ramos. Nessa ocasião dá-se o pronunciamento de Nosso Senhor sobre a indissolubilidade do vínculo matrimonial e a beleza da virgindade (Mt 19, 3-12). Com isto, ficava criada a ambientação favorável para Jesus chamar a todos a fazer parte de sua futura Igreja.
Na sequência da narrativa evangélica, depara-se-nos o encontro d’Ele com as crianças: “Deixai vir a Mim os pequeninos, e não os queirais impedir, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 19, 14).
Logo depois, Nosso Senhor diz que o primeiro no Reino dos Céus será o que se fizer como um menino, indicando a necessidade de os homens se assemelharem às crianças para entrar no Reino dos Céus.
Segue-se o episódio do moço rico. Por ele, torna-se patente para toda a História um dos maiores obstáculos para a adesão plena e total à Igreja: o apego aos bens deste mundo (Mt 19, 16-26). .oi o ensinamento de Jesus, decorrente da recusa do jovem em atender ao chamado do Mestre, que provocou uma intervenção de Pedro. Por seu caráter em extremo comunicativo, não resistiu ele em perguntar: “Eis que abandonamos tudo e Te seguimos; qual será a nossa recompensa?” (Mt 19, 27). Pela resposta a essa interrogação, vemos como estava Jesus preparando a opinião pública para receber seu chamado. E Ele responde com divina clareza: “Todo aquele que deixar a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as terras, por causa do Meu nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 29). Como o “cêntuplo” se refere à vida presente, a frase de Nosso Senhor nos conduz à fácil conclusão de ser-nos prometidos dois prêmios diferentes: um na terra, outro na eternidade. Trata-se de um grande encorajamento a todos os seguidores de Cristo, ajudando-os a permanecerem inabaláveis no caminho a ser trilhado.

Precisamente neste ponto do Evangelho se inicia a parábola dos operários da vinha, com a qual Jesus faz uma espécie de remate de mais uma fase de instrução para seus seguidores, incluindo os do futuro.

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Evangelho Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Continuação dos comentários ao Evangelho da Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

O Filho desceu do Céu para abraçar a Cruz
Qual foi a via escolhida por Deus para consumar a entrega de seu Filho ao mundo? A mais perfeita de todas — pois Ele não pode desejar para Si nada que seja inferior — mas causa espanto: a morte de Cruz! Nós preferiríamos que Ele triunfasse sobre o mal desde o início e não sofresse os tormentos da Paixão. Na verdade, se Jesus oferecesse ao Pai um simples fechar de olhos, um gesto, uma palavra ou um ato de vontade, seria suficiente para reparar nosso pecado. Contudo, segundo ensina São Paulo na segunda leitura de hoje (Fl 2, 6-11), “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas Ele esvaziou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-Se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-Se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até a morte, e morte de Cruz” (Fl 2, 6-8). Sendo Deus, o Filho possui a alegria eterna e poderia ter dado à sua natureza humana uma vida terrena cheia de deleites. Não obstante, a natureza divina comunicou a Cristo-Homem o gozo de abraçar a Cruz, ser nela pregado e morrer, cumprindo a vontade d’Aquele que O enviara (cf. Jo 5, 30), para salvar os homens da morte eterna.
Símbolo da perfeição do universo
17 “De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”.
Ao ouvir estas palavras, Nicodemos entendeu, decerto — ainda que de modo um tanto nebuloso —, que se iniciava um novo regime na história do povo eleito: a era da justiça inclemente estava terminada e começava a era da misericórdia. E esta, tão mais forte do que aquela! A tal ponto, que o irretorquível ímpeto da justiça, capaz de levar suas determinações até as últimas consequências, se rende quando encontra a misericórdia. Porque a misericórdia é como a água, e a justiça, como o fogo. Este queima, destrói e consome, mas no contato com a água, ele se extingue, desaparecendo as chamas, as brasas e todo o ardor. À humanidade que gemia sob a ameaça de um castigo, a Providência mandou o oxigênio da misericórdia, do qual vivemos há mais de dois milênios.
Em suma, foi com o intuito de nos salvar que a Santíssima Trindade promoveu a vinda do Filho ao mundo. Desde toda a eternidade a Cruz esteve na mente de Deus, com um papel central na História, como instrumento para a realização da perfeição das perfeições do universo, sua maior honra e sua excelsa beleza: a Redenção. Diante deste panorama é possível, inclusive, entender porque Deus permitiu o pecado. No plano da criação, a suprema glória não é a inexistência deste mal, mas o Homem-Deus, que Se deixou prender e crucificar, por amor a nós.
IV – A CRUZ, FONTE DE GLÓRIA
À primeira vista, então, pareceria contraditório o que comemoramos nesta festa: a Exaltação da Santa Cruz. No entanto, a Cruz, outrora considerada como o pior dos desastres na vida de alguém, um símbolo de ignomínia que serviu para a execução de tantos criminosos, é hoje exaltada pela Igreja porque Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo mostrando o quanto ela Lhe é própria. É “o sinal do Filho do Homem” (Mt 24, 30) e Ele a transformou em sinal de triunfo! Por isso, a Cruz triunfa no alto das catedrais, na ponta das coroas e no centro das mais importantes medalhas.
A Cruz é a via da glória. Com quanta razão se diz: “Per crucem ad lucem — É pela cruz que se chega à luz”. E é este o princípio que a Liturgia de hoje oferece para nosso benefício espiritual: se queremos atingir a santidade, nada é tão central quanto saber sofrer. O traço comum de todos os Santos é justamente sua atitude diante da Cruz. De fato, o momento decisivo de nossa perseverança não é aquele em que a graça sensível nos toca e damos passos vigorosos na virtude, mas, sim, a hora da provação, quando as tentações nos assaltam e experimentamos nossa debilidade. Não foi sem motivo que, ao ensinar o Pai Nosso, o Divino Mestre disse “livrai-nos do mal”; mas Ele não empregou o mesmo verbo no pedido referente às tentações: “não nos deixeis cair em tentação”. Ser tentado é algo inevitável e necessário depois do pecado original. Nessa hora, devemos resistir abraçados à cruz, certos de que nela se encontra nossa única esperança: “Ave Crux, spes unica!”. E quando cometemos uma falta ou nossa vida interior parecer encalhada, dando-nos a impressão de não sermos amados por Deus, lembremo-nos de que esta sensação é contrária à revelação feita por Nosso Senhor no Evangelho que acabamos de considerar; pensemos que Deus nos ama tanto, que o Filho teria Se encarnado e sofrido a Paixão de Cruz para salvar a cada um de nós, individualmente.
Glorifiquemos transbordantes de júbilo, nesta festa, o sinal de nossa salvação e o penhor da ressurreição futura, e saibamos carregar sempre a própria cruz com amor e veneração, tal como o fez nosso Salvador antes de começar a Via-Sacra.
1) Cf. SAO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.25, a.4. Tal adoração não se presta só à Cruz na qual Nosso Senlior foi crucificado, mas também às imagens desta, como explica o Doutor Angélico neste mesmo artigo: “Se falamos da imagem da Cruz de Cristo, feita de qualquer outra matéria, por exemplo, de pedra, madeira, prata ou ouro, a Cruz é venerada só como imagem de Cristo, com uma adoração de latria”.
2) Cf. Idem, I, q.25, a.6, ad 4.
3) Cf. Idem, ad 3.
4) Cf. COLUNGA, OP, Alberto; GARCIA CORDERO, OP, Maximiliano. Biblia Comentada. Pentateuco. Madrid: BAC, 1960, v.1, p.847.
5) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., T-II, q, a.2.
6 COLUNGA; GARCIA CORDERO, op. cit., p.847.
7 Cf. CCE 1472-1473.
8 SÃO JUSTINO. Diálogo con Trifón, 94, 2. In: RUIZ BUENO, Daniel (Org.). Padres Apologetas Griegos (s.II). 2.ed. Madrid: BAC, 1979, p.470.
9 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XXIV, n.1. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (1-29). 2.ed. Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.I, p.289.

10 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., III, q.52, a.5, ad 1.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Evangelho Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Continuação dos comentários ao Evangelho da Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Um fariseu simpático ao Messias
Toda essa doutrina está bastante vincada na conversa noturna de Nosso Senhor com Nicodemos, da qual este Evangelho recolhe um curto trecho que se conjuga de maneira extraordinária com a primeira leitura. Além de suculentíssima em conteúdo, essa conversa deve ter durado várias horas. Infelizmente São João a sintetiza em escassos parágrafos, de per si repletos de maravilhas.
Segundo São João Crisóstomo, Nicodemos “estava já bem disposto em relação a Cristo, se bem que sua fé fosse ainda débil e tão rude como a de todos os judeus”.9 Sendo fariseu e membro do Sinédrio, ele sabia do mau conceito que este tinha acerca de Jesus, e não queria manifestar sua adesão a Ele para não ter de enfrentar o próprio ambiente. E por tal razão “foi ter com Jesus, de noite” (Jo 3, 2), deslocando-se de modo sorrateiro pelas ruas, as quais, naquela época, eram iluminadas somente pelo brilho da Lua e das estrelas. Talvez ele tenha esperado uma noite de Lua nova ou de céu enevoado, a fim de evitar que sua silhueta se projetasse nos caminhos e, aproveitando-se da queda noturna da temperatura, tenha se acobertado bem, até a cabeça.
Este bom fariseu vai à procura de Nosso Senhor não só pela curiosidade de ver de perto aquele Mestre, cuja fama se espalhava por todos os recantos de Israel, como também porque desejava descobrir de onde vinha o poder de operar milagres, a força de expressividade de Jesus e a capacidade de penetração de seus ensinamentos, e se perguntava se não seria Ele um profeta precursor do Messias. Nicodemos tinha a mente repleta de interrogações, pois era um homem de espírito lógico, de princípios doutrinários muito sólidos e exímio conhecedor da Lei e das Escrituras, constante objeto de seu estudo. E ele queria conferir seu saber com a novidade trazida por Cristo. Aos poucos, no decorrer da conversa, o Divino Mestre irá trabalhando sua alma e abrindo-lhe os olhos para a Fé.
Uma alusão à união hipostática
“Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 13 ‘Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem’”.
Como Nicodemos era fariseu convicto, o Divino Mestre usa um método muito didático e prudente para lhe falar da Encarnação. Se Ele lhe revelasse o mistério da união hipostática, dizendo: “Eu sou Deus, sou a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e assumi a natureza humana”, seu interlocutor não entenderia e até julgaria tal afirmação uma blasfêmia. É por meio de uma linguagem figurada que Jesus conversa a esse respeito, de forma a permitir que a graça, criada por Ele próprio, atue na alma de Nicodemos. Eis um princípio para o apostolado: quando nos encontramos num ambiente hostil à Fé ou despreparado para receber a Boa-nova, o melhor modo de evangelizar é através de figuras. Por isso, a arte, toda feita de símbolos, é um estupendo meio de tirar do pecado as gerações mais pervertidas e levá-las à santidade.
De início, Nosso Senhor diz que “ninguém subiu ao Céu”, referindo-Se à situação dos homens depois do pecado original, que ali estavam impedidos de entrar. Todos os justos do Antigo Testamento se encontravam no Limbo, onde não havia fogo, nem escuridão ou tormentos, mas o anseio de felicidade eterna, inerente a toda criatura humana, permanecia insaciado.10 Entretanto, quando o Filho “desceu do Céu”, encarnando-Se, Ele não abandonou o Céu, pois é Deus. E como sua Alma humana foi criada na visão beatífica desde o primeiro instante de sua existência, Jesus podia dizer com propriedade que “subiu ao Céu”. Logo, “ninguém” subiu ao Céu antes da Redenção, a não ser Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta afirmação levanta uma interrogação na cabeça de Nicodemos, enquanto Nosso Senhor prosseguia o discurso, remontando ao episódio das serpentes no deserto.
A realização da pré-figura
14 “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15 para que todos os que n’Ele crerem tenham a vida eterna”.
Assim como aqueles animais peçonhentos se propagaram pelo acampamento dos hebreus, o mal penetrou na face da Terra com o pecado de Adão. E não há outra salvação para os homens senão olhar para a verdadeira serpente de bronze, Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado.
A pré-figura da serpente, porém, é nada em comparação com o que se verificou de fato, porque a realidade sempre é muito mais rica do que o símbolo. Nosso Senhor poderia perdoar apenas nossa culpa, de maneira que, com a alma em ordem, tivéssemos uma eternidade feliz do ponto de vista natural. Mas Ele, além de nos curar do pecado, oferece a possibilidade de participarmos de sua própria vida divina, que jamais obteríamos pelos nossos esforços. Somos convidados a crer n’Ele, acolhendo tudo quanto nos trouxe ao vir ao mundo, quer sua doutrina, quer sua graça, recebida, sobretudo, através dos Sacramentos. Numa palavra, aceitar a Igreja e viver em união com ela. Para isso, era necessário que o Filho do Homem fosse levantado no Madeiro, como Jesus revela aqui a Nicodemos. Nesta afirmação também transparece a divina didática de Nosso Senhor, que toma o cuidado de não usar o termo crucifixão, mas emprega a expressão “ser levantado”, que poderia significar também sua Ascensão aos Céus, dependendo de como Nicodemos a interpretasse. No apostolado, muitas vezes, devemos agir desta forma, de proche en proche, a fim de predispor as almas a aceitar a verdade plena, sem lhe pôr obstáculos.
O infinito amor do Pai pelos homens
16 “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que não morra todo o que n’Ele crer, mas tenha a vida eterna”.
Para aproveitarmos a imensa riqueza teológica deste versículo, pensemos, em primeiro lugar, que o Pai celeste não pode Se esquecer de nenhuma de suas criaturas. Se, por absurdo, isso acontecesse, elas voltariam ao nada no mesmo instante, pois é Ele quem tudo sustenta no ser. Lembremo-nos também de que Deus não pode criar algo que não seja para Si, para seu proveito e sua glória. Sendo assim, Ele nunca deixará de ter apreço pelos seres aos quais deu a existência. E tão grande é esse amor que Ele dá ao mundo seu Filho Unigênito, para que todos tenham vida e “a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

Sem essa oblação, nós — na melhor das hipóteses — estaríamos destinados a passar a eternidade no Limbo, à luz de nossa própria inteligência, o que não pode ser chamado de verdadeira vida. Nosso Senhor Jesus Cristo nos oferece a vida eterna no Céu, onde receberemos a luz do próprio Deus para contemplá-Lo por todo o sempre, como diz o Salmo: “in lumine tuo videbimus lumen — na vossa luz veremos a luz” (35,10), a luz da visão beatífica.
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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Evangelho Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Continuação dos comentários ao Evangelho da Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

O povo eleito se revolta contra Deus e contra seu profeta
Humanamente falando, a revolta seria uma reação compreensível na conjuntura em que os israelitas se encontravam. Entretanto, o texto relata que o povo não manifestou apenas inconformidade com a precariedade material, mas “se pôs a falar contra Deus e contra Moisés” (Nm 21, 5a). Dirigindo-se ao profeta, cobravam-the aquilo que exigiriam do próprio Deus, caso O encontrassem: “Por que nos fizestes sair do Egito para morrermos no deserto? Não há pão, falta água e já estamos com nojo desse alimento miserável” (Nm 21, 5b). Ora, o maná era um milagre renovado por Deus todos os dias! Imaginemos essas palavras sendo ditas pelo convidado de um banquete ao seu anfitrião... Não deve ter sido muito diferente a vociferação que Lúcifer lançou contra Deus quando se rebelou no Céu, tal é a falta de generosidade e de amor que esta queixa encerra! Foi um pecado contra o Primeiro Mandamento: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5).
O povo é castigado
Deus, porém, não tolera que haja revolta contra seus mediadores, a ponto de tomar as murmurações do povo como reclamações feitas a Si próprio. Também nós O provocamos de forma análoga quando não aceitamos os reveses, provações e dores da vida, pois essa atitude é, no fundo, um protesto contra Deus.
Para castigar os filhos de Israel, o Senhor mandou terríveis serpentes — “ardentes”,6 segundo o original hebraico —, que infestaram o acampamento. Não está dito que Deus as tenha criado naquele instante; decerto Ele as reuniu, em grande quantidade, e soltou-as ali. Sua venenosa picada causava febre altíssima que matava em pouco tempo, tendo sido grande o número de vítimas.
Depois de ter morrido “muita gente em Israel” (Nm 21, 6), o povo reconheceu nessa calamidade um castigo divino e, afinal, o medo, que nem sempre propicia a conversão, os levou ao arrependimento. E era este o objetivo de Deus. Foram eles pedir a intercessão de Moisés, admitindo que o pecado cometido tinha duplo alcance, pois ofendera o Altíssimo e seu representante: “Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti” (Nm 21, 7).
A serpente de bronze
Deus respondeu aos rogos de Moisés com a seguinte recomendação: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela, viverá” (Nm 21, 8). E não eliminou as serpentes, permitindo que elas continuassem suas investidas contra os hebreus. Já perdoados por Deus — livres, portanto, da pena eterna daquele pecado —, os israelitas expiavam desse modo a pena temporal, à qual o pecador fica sujeito em virtude do apego desordenado aos bens terrenos, que todo pecado, seja mortal ou venial, acarreta.7
Moisés cumpriu a determinação divina, estabelecendo-se a partir de então uma situação de milagre permanente e incontestável diante de quantos haviam assistido a inúmeras mortes produzidas pelas abrasadoras serpentes. Quem era picado sabia que não existia remédio para o seu mal, e a única chance de sobrevivência estava junto a Moisés, pois o profeta sempre levava consigo o cajado em cuja extremidade fixara a serpente de bronze. Assim, Deus manifestava empenho em manter o princípio de mediação e fazia os israelitas comprovarem não só sua onipotência e bondade, como também os benefícios de ter um profeta que os guiasse e interviesse em favor deles.
A consequência de não aceitar o sofrimento
A narração presente no Livro dos Números chama a atenção para algo muito importante: a atitude dos homens perante a dor. O povo eleito, livre da escravidão dos egípcios e conduzido à Terra Prometida, já presenciara portentosos milagres realizados por Deus através de Moisés, como, por exemplo, a abertura do Mar Vermelho. Não obstante, quando se viram obrigados a enfrentar uma situação difícil, imediatamente culparam o profeta, seu libertador — e também o próprio Deus, por ter posto aquele varão no seu caminho —, acusando-o de ser a causa do infortúnio deles. Pretendendo suprimir todo e qualquer sofrimento, revoltaram-se eles contra Deus e caíram numa atribulação muito maior: o Senhor Se retraiu e castigou-os com as serpentes.
Cabe a nós extrair daí uma lição: nunca procurarmos fugir da cruz, pois, além de ser uma tentativa inútil, ela se tornará maior e mais pesada, como aconteceu aos hebreus no deserto.
III – A VERDADEIRA SERPENTE LEVANTADA NA HASTE
Á luz do Evangelho de São João proposto pela Liturgia desta festa, a imagem da serpente de bronze se reveste de novo colorido, apresentando-se como pré-figura da ação redentora de Jesus Cristo na Cruz. Deus quis que este mesmo animal, por cuja sugestão o pecado e a morte se introduziram no mundo, se transformasse em sinal de cura para os filhos de Israel, representando o Divino Redentor, que nos traria a verdadeira vida, como se lê no Livro da Sabedoria: “Quem se voltava para ele era salvo, não em vista do objeto que olhava, mas por Vós, Senhor, que sois o Salvador de todos” (16, 7). Explicando essa pré-figura, São Justino assevera que nela “Deus anunciava um mistério, por meio do qual haveria de destruir o poder da serpente, autora da transgressão de Adão, e, ao mesmo tempo, a salvação para os que cressem em quem era simbolizado por este sinal, ou seja, n’Aquele que haveria de ser crucificado e de livrá-los das picadas da serpente, que são as más ações, as idolatrias e demais iniquidades”.8
Apesar de nos causar certo choque, essa imagem da serpente é rica em simbolismo. Com efeito, trata-se de um animal perigoso e que, curiosamente, sempre esteve relacionado à medicina, sendo emblemático do poder curativo. Seu veneno é letal, mas também possui propriedades terapêuticas que, uma vez trabalhadas, são utilizadas como remédio. Eis a vida e a morte sintetizadas num mesmo animal, qual pedra de escândalo: quem sabe aproveitá-lo, obtém elementos para a restauração da saúde; quem se descuida, é picado e morre.
Ao contrastarmos a figura com a realidade, veremos que Deus também poderia ter operado a Redenção eliminando para sempre o pecado e seus efeitos, por uma simples deliberação, sem o concurso de nenhum intercessor. Todavia, permitiu que os homens continuassem pecáveis, deixando à disposição de todos a possibilidade de encontrar o perdão junto ao “mediador da Nova Aliança” (Hb 12, 24), Nosso Senhor Jesus Cristo. Por aí se entende porque Simeão, quando recebeu nos braços o Menino Jesus, proclamou que Ele seria pedra de escândalo, pois serviria para a salvação ou condenação de muitos (cf. Lc 2, 34). Ele é, de fato, divisor. Quem é tocado pelo pecado e O olha, encontra o remédio para seus males. Mas, ai de quem procura a solução fora d’Ele!
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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Comentários ao Evangelho da Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 13“Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. 14Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.
16Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. ( Jo 3, 13-17)

A Cruz, centro e ápice da História

Para compreender a arquitetonia do magnífico plano divino da criação, devemos ver a Redenção operada na Cruz como o centro da História, em torno do qual tudo se conjuga para a glória de Deus, até mesmo o pecado.
I – A CRUZ NOS ABRIU AS PORTAS DO CÉU
Quando Adão e Eva, por causa do pecado, foram expulsos do Paraíso, as portas do Céu se fecharam para o homem, e assim teriam permanecido até hoje se não fosse a Redenção. Poderíamos chorar nossa culpa, mas as lamentações de nada adiantariam para nos alcançar o convívio eterno com Deus, pois só uma iniciativa d’Ele o poderia fazer. E foi o que aconteceu quando Se encarnou e morreu por nós na Cruz.
É por isso que a Igreja quer concentrar a atenção dos fiéis nesse augusto Madeiro, celebrando a festa da Exaltação da Santa Cruz, e no dia seguinte a comemoração de Nossa Senhora das Dores, que une à Cruz as lágrimas de Maria Santíssima, Corredentora do gênero humano. Em ambas as celebrações, a Liturgia nos permite venerar de modo especial o instrumento de nossa salvação, o qual passou a ser objeto de adoração a partir do momento em que Jesus Cristo foi nele crucificado, com terríveis cravos que transpassaram sua Carne sagrada. Tal é o poder do preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo! Devemos adorar a Cruz com a mesma latria que tributamos ao Homem-Deus, tanto por ser imagem d’Ele quanto por ter sido tocada por seus membros divinos e inundada por seu Sangue.1 Por este motivo, recomenda-se manter duas velas acesas durante a exposição de uma relíquia do Santo Lenho.
Diante do panorama apresentado pela Igreja nesta ocasião, é preciso considerarmos de maneira apropriada o mistério de um Deus crucificado.
O universo é ótimo no seu conjunto
Como ensina a teologia, tudo quanto Deus criou poderia ser mais perfeito, à exceção de três criaturas: a humanidade santíssima de Jesus Cristo, a visão beatífica e a Mãe de Deus.2 No entanto, é importante lembrar, no seu conjunto o universo não poderia ser melhor, pois sua ordem é insuperáve1. O Gênesis descreve como, ao longo dos dias da criação, Deus deitou seu olhar sobre cada uma das partes de sua obra e viu que eram boas; no sexto dia, porém, quando a contemplou inteira, viu que era ótima (cf. Gn 1, 31).
Contudo, parece difícil conciliar essa ideia de perfeição do universo com a existência do pecado. Seria bem mais do nosso agrado um mundo livre de qualquer entrave, problema ou complicação, em que todas as criaturas fossem excelentes, os Anjos e os homens correspondessem plenamente à graça, sem cometer uma só falta, e não houvesse inferno. Ora, nessas condições a Redenção seria desnecessária, e é provável que o Verbo também não Se encarnasse, do que se infere que Deus não escolheria uma Mãe para Si. Das três criaturas perfeitíssimas existentes agora — Jesus, Maria e a visão beatífica —, só ficaria esta última. O universo seria menos belo e daria ao Criador uma glória menor do que o nosso, maculado pela culpa original e por todas as suas consequências.
Passemos, então, a analisar a Liturgia de hoje de dentro dessa perspectiva, para entendermos com profundidade o problema da Cruz.
II – UMA PRÉ-FIGURA DE CRISTO CRUCIFICADO
A primeira leitura, extraída do Livro dos Números (21, 4-9), aborda um episódio da travessia do deserto rumo à Terra Prometida: “Os filhos de Israel partiram do Monte Hor, pelo caminho que leva ao Mar Vermelho, para contornarem o país de Edom” (Nm 21, 4). Era uma marcha penosa, por ser um terreno árido, inóspito e sem água.4 Além disso, o povo se enfastiara com o maná, o “pão vindo do céu” (Sl 104, 40) que Deus lhes concedia para sustento, fazendo-o chover junto com o orvalho (cf. Nm 11, 9). Como os israelitas, por terem saído de um ambiente impregnado de tremenda volúpia, deviam adquirir gostos temperantes, o maná, que era uma comida leve, da qual só se podia recolher uma determinada medida. embora satisfizesse o apetite deixava-os com a sensação de que lhes faltava algo. Eles queriam alimentos fortes, como as cebolas e os alhos do Egito de cuja privação já se haviam lamentado pouco antes (cf. Nm 11, 5).
Essa situação do povo hebreu nos sugere uma analogia com a vida espiritual. Todos nós, batizados, somos convocados a entrar na “Terra Prometida” da santidade e, a certa altura do percurso, temos de atravessar o deserto da aridez. A sensibilidade do sobrenatural se retira, desaparece de nosso panorama interior qualquer consolo ou amparo palpável e, se não soubermos sofrer a ausêncja desses estímulos, choramos pelas “cebolas do Egito”, que são os elementos do passado aos quais renunciamos para trilhar as vias da virtude. Em tais fases de provação, só temos para a caminhada um maná vindo do Céu: a graça cooperante, que Deus nunca deixa de conceder, mas exige de nós o esforço e o sacrifício.5

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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20

Conclusão dos comentários ao Evangelho – XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 18, 15-20
V – A humanidade Sempre precisará de perdão
“Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a Terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos Céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles”.
Sem nenhum receio, pode-se afirmar que nestes dois versículos encontra-se a síntese de toda a obra do Salvador. Jesus é o elo entre todos aqueles que tomam a deliberação de se unir em Seu nome, pois, nessas circunstâncias, Ele estará no meio deles. Por sua intercessão, será comovida a misericórdia do Pai e saberão os discípulos o que pedir, pois neles gemerá o Espírito (cf. Rom 8, 26), e assim, tudo obterão. Jesus estará agindo sobre todos e cada um, oferecendo-lhes Seu amor, Seu poder e Sua sabedoria. E essa é a verdadeira Igreja que vive de compaixão, misericórdia e piedade, pois a humanidade, que sempre pecará, sempre necessitará do perdão do Divino Redentor, dado por meio de Sua Igreja.
1 CLÍMACO, São João. Scala Paradisi – Gradus IV (De obedientia).
2 LAPIDE, Cornelius a. Commentaria in Scripturam Sacram.
3 Cf. PLUTARCO. De capienda ex inimicis utilitate.
4 Cf. SAINT-VICTOR, Hugues de. De institutione novitiorum líber, cap. X.
5 CRISÓSTOMO, São João. Homiliæ in Matthæum, hom. 60, § 1.
6 JERÔNIMO, São. Commentariorum in Evangelium Matthæi Libri Quattuor, Cap. XVIII, Vers. 15 seqq.
7 AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
8 JERÔNIMO, São. Op. cit., ibidem.
9 AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
10 JERÔNIMO, São. Op. cit., ibidem.
11 CRISÓSTOMO, São João. Op. cit. ibidem.
12 AGOSTINHO, Santo. Epístola 210, § 2.
13 Cf. BASÍLIO, São. Sermones viginti quator – De moribus. Sermo II – De doctrina et admonitione.
14 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. v. II. Madrid: Ediciones Rialp S.A., 2000. p. 310.
15 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea.
16 JERÔNIMO, São. Op. cit., Cap. XVIII, vers. 18.

17 CRISÓSTOMO, São João. Op. cit., ibidem.