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sábado, 26 de julho de 2014

Evangelho – XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 13, 44-52

Conclusão dos comentários ao Evangelho – XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 13, 44-52
IV – A Parábola da Rede
“O Reino dos Céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que apanha toda a espécie de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para fora e, sentados na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os maus. Será assim no fim do mundo: Virão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes.”
Continuamos ouvindo Jesus falar nas cercanias do mar de Tiberíades, em cujas águas, segundo informações de entendidos, há aproximadamente trinta espécies diferentes de peixes. Descreve bem a realidade histórico-geográfica dessa parábola o Pe. Manuel de Tuya, OP, ao analisar segundo a legislação levítica os peixes que eram considerados impuros — devido à ausência de escamas, etc. — e outros classificados como maus por serem defeituosos. Daí que, ao chegar à praia a rede, após ter sido puxada pelos pescadores, os bons fossem postos em canastras e os maus recusados.12
Essa cena, tão comum na vida diária de Seus discípulos, é recordada pelo Divino Mestre com o intuito de lhes deixar claro que, para penetrar no Reino dos Céus, é indispensável ser bom cidadão neste mesmo Reino, que aqui começa com a vida sobrenatural. Só assim não seremos excluídos no nosso Juízo particular e, portanto, também no Final. “Ou dito de outra forma: compara-se a Santa Igreja a uma rede, porque foi entregue a alguns pescadores, e todos por meio dela são arrastados das ondas da vida presente ao Reino Eterno, a fim de que não pereçam submergidos no abismo da morte eterna.
“Esta rede reúne todo tipo de peixes, porque chama para perdoar a todos os homens: aos sábios e aos insensatos, aos livres e aos escravos, aos ricos e aos pobres, aos fortes e aos fracos. Estará completamente cheia a rede, isto é, a Igreja, quando no fim dos tempos haja terminado o destino do gênero humano. Por isso, continua: ‘a qual, quando está cheia’, etc., porque assim como o mar representa o mundo, assim também a margem do mar figura o término do mundo; e neste término são escolhidos e guardados em canastros os bons, e os maus são lançados fora, ou seja, os eleitos são recebidos nos Tabernáculos Eternos, e os maus, depois de terem perdido a luz que iluminava o interior do Reino, serão levados às trevas exteriores: porque agora a rede da Fé contém igualmente, como peixes mesclados, todos os maus e bons; mas logo na margem se verá os que estão dentro da rede da Igreja”.13
Não só segundo São Gregório esta “rede” pode ser interpretada como uma imagem da Igreja; muitos outros autores opinam no mesmo sentido. A Igreja se compõe de justos, mas também de pecadores. O mal que às vezes encontramos na sua parte humana não deve nos assustar, nem mesmo escandalizar; já está previsto. Nem por isso deixa a Igreja de ser Santa em sua essência, pois é Ela divina. O que nos deve importar é buscar essa “pérola” e, encontrando esse “tesouro”, abandonar todo apego para sermos bons “peixes” nessa rede.
A tarefa da separação caberá aos Anjos, no dia do Juízo: os bons à direita, os maus à esquerda; os sacerdotes santos serão apartados dos sacerdotes sacrílegos; os religiosos observantes, dos sensuais; os magistrados íntegros, dos injustos; serão recebidas as virgens prudentes, rejeitadas as néscias; as esposas fiéis, afastadas das adúlteras; em síntese, os eleitos serão postos de um lado, e os réprobos de outro.
Caberia aqui uma exaustiva descrição a respeito dos tormentos eternos dos maus no inferno, como também e em contraposição a estes, dos gozos celestiais que terão os bons na vida eterna. Não faltará ocasião para se discorrer sobre tão importante matéria.
V – Epílogo
Jesus ensinava aos Seus discípulos a substância e as belezas do Reino dos Céus, constituindo-os doutores. E assim, altamente formados, deviam eles ensinar aos outros com abundância e variedade de doutrina, segundo o nível e necessidade de seus ouvintes, sem jamais serem surpreendidos “de mãos vazias”. “Porque da mesma maneira que o pai de família deve alimentar os seus com o mantimento corporal, assim o doutor evangélico deve sustentar o povo cristão com o sustento espiritual”.14
Para nós também constitui uma necessidade, quando temos outros sob nossa responsabilidade, empregarmos todos os meios da melhor erudição — antiga e atual — e da mais atraente didática, a fim de bem instruí-los e formá-los.
Jesus contemplava, nessa ocasião, o futuro de Sua obra, já não mais somente com os conhecimentos eternos de Sua divindade, nem apenas com os da visão beatífica de Sua alma na glória, mas através de Sua experiência humana, e discernia os esplendores do desenlace final de todos os acontecimentos, depois de Seus dramas e sofrimentos durante a Paixão. Exultava de alegria por ver com antecipação o triunfo de Seus discípulos, da Igreja, e dos bons em geral após o Juízo, assim como a justiça do Pai desabando sobre aqueles que rejeitariam Sua Revelação. Por isso, descortinava diante do público — como também de Seus discípulos — panoramas do porvir, ora com tintas sombrias e carregadas de gravidade, ora com fulgores deslumbrantes e maravilhosos. Seus ouvintes, às vezes, enchiam-se de temor e de terror, e, em outros momentos, de consolação e esperança. Pois o pavor é um excelente freio face ao convite do mal, e a esperança é um dos melhores estímulos para nos conduzir a Deus.
Fixemos nosso entendimento e nosso coração nas maravilhas do Reino dos Céus, e conservemos um perseverante terror da eternidade no Inferno. Assim, estaremos em condições para nos localizar entre aqueles convidados que se encontrarão à direita de Jesus, no Juízo Final!
1Confissões, l. 12, c. 25.
2 Suma Teológica III, q. 7, a. 7, rep.
3 Suma Teológica III, q. 42, a. 1, ad 2.
4 Suma Teológica I, q. 1, a. 5c.
5 JERÔNIMO, São, Commentariorum in Evangelium Matthaei Libri Quattuor: PL 26, 108.
6 MALDONADO SJ, P. Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios. Madri: BAC, 1950, v. I, p. 508.
7 Idem, pp. 508-509.
8 Idem, pp. 509-510.
9 Cfr. Plinio o Velho, Hist. Nat., 1. IX, 34 apud FILLION, Louis-Claude. Vie de N.-S. Jésus-Christ. Paris: Letouzey et Ané, 1922, t. II, p. 379.
10 MALDONADO. Op. cit. p. 510.
11 Apud AQUINO, São Tomás de. Catena Aurea
12 Cf. TUYA OP, P. Manuel de. Bíblia Comentada. Madri: BAC, 1964, v. II, p. 321.
13 GREGÓRIO I MAGNO, São. XL Homiliarum in Evangelia, h. 11: PL 76, 1114-1118.

14 MALDONADO. Op. cit. p. 512.

domingo, 20 de julho de 2014

Evangelho – XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 13, 44-52

Continuação dos comentários ao Evangelho – XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 13, 44-52
II – A Parábola do tesouro escondido
“O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo que, quando um homem o acha, esconde-o e, cheio de alegria pelo achado, vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo.”
Os detalhes secundários são omitidos pelo Evangelista. Terão, ou não, sido tratados pelo Divino Mestre? Não temos como o saber. Contudo, pode-se imaginar o quanto a exposição de Jesus deve ter sido atraentíssima, pelo fato dEle discorrer sobre os temas através de Sua humanidade e, pari passu, ir iluminando, bem dispondo e auxiliando, pela graça e por Seu poder divino, o fundo da alma de cada um ali presente.
Mateus tem um objetivo concreto em mente. Por isso sintetiza a parábola nos seus elementos essenciais, deixando de lado, por exemplo, a indicação de como foi descoberto o tal tesouro. Conhecemos nós episódios havidos na História, a propósito de descobertas deslumbrantes nessa linha. Por isso, fica ao encargo de nossa imaginação ambientá-la, completando os pormenores.
O homem esconde novamente o tesouro. De uma perspectiva moral, procede bem, não se apropriando das riquezas encontradas. E, ao mesmo tempo, mostra-se prudente não deixando à vista aquelas preciosidades, para evitar as tentações que alguém pudesse ter ao deparar-se com elas. “Não é necessário adequar este dado [o fato de esconder o tesouro] ao significado da parábola, porque, segundo minha teoria, não é parte dela, senão ornato”.7 Maldonado discorre sobre este ponto em particular com muito e sábio critério, glosando considerações feitas por São Jerônimo e São Beda.
Parece-nos curioso que os autores concentrem seus comentários sobre o homem que encontra o tesouro, mas sejam displicentes em considerar o terreno onde estava ele escondido. Seja-nos permitido fazer uma aplicação a esse propósito.
Olhando para os primeiros tempos da Igreja, vemos quanto custou aos judeus e pagãos convertidos “comprar o terreno” no qual se escondia o tesouro da Salvação. A renúncia exigida era total: família, bens, reputação e até a própria vida. Quão bem procederam, entretanto, os que então abraçaram a Fé Católica!
A humanidade atual, qual dos dois papéis representa: o do homem que deseja comprar, ou o do que quer vender? Infelizmente, a quase totalidade dos fatos nos inclina à segunda hipótese. Muitos de nós, hoje em dia, caímos na insensatez de não mais nos importarmos com esse tesouro de nossa Fé, que tanto custou aos nossos antepassados, e pelo qual o Salvador derramou todo o Seu Preciosíssimo Sangue no Calvário. Por quão miserável preço vendemos, alguns de nós, esse tão elevado tesouro, tal como fez Esaú com sua primogenitura, ao trocá-la por um mísero prato de lentilhas! Hoje, mais do que nunca, multiplicam-se as “lentilhas” da sensualidade, da corrupção, do prazer ilícito, da ambição, etc.
Aqui também poderia estar incluída a figura do religioso que se deixa arrastar pelos afazeres concretos e vai se olvidando do “tesouro” pelo qual tudo abandonou em seu primitivo fervor.
Essa plenitude de alegria do homem da parábola deve nos acompanhar a vida inteira, sem interrupção, por ser um dos efeitos da verdadeira Fé. A virtude é um dom gratuito; não se compra. Entretanto, sua posse contínua e crescente custa esforços de ascese, piedade e fervor. É preciso “vendermos” todas as nossas paixões, caprichos, manias, vícios, sentimentalismos, etc., em síntese, toda a nossa maldade. É o melhor “negócio” que se possa fazer nesta Terra.
III – A Parábola da Pérola Preciosa
“O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que busca pérolas preciosas, e tendo encontrado uma de grande preço, vai, vende tudo o que tem e a compra.”
“O Reino dos Céus é semelhante não ao mercador, mas sim à pérola; como na presente parábola ele não é semelhante ao homem que acha o tesouro, mas ao próprio tesouro em questão”.8 Na Antiguidade, as pérolas eram consideradas de um valor inestimável. Por essa razão, quem encontrasse à venda alguma de excelente categoria, estaria disposto a desfazer-se de todos os seus bens para comprá-la.9 O texto nos fala de “um negociante que busca pérolas preciosas”. Ele, ao adquirir uma de altíssima qualidade, não pensa em vendê-la — pelo menos nada consta a esse respeito na letra do Evangelho.
Sobre detalhes secundários, debatem entre si diversos autores. O importante é reter a idéia de que a presente parábola “tem o mesmo significado que a precedente, variando apenas na matéria” 10, ou seja, trata-se de, se necessário for, deixar tudo o que se possui com vistas a adquirir esse “tesouro”, ou “pérola”, que nada mais é do que o próprio Reino dos Céus.
A esse respeito pondera São João Crisóstomo: “A pregação do Evangelho é não só uma fonte de múltiplas riquezas, como o é um tesouro, mas é também preciosa como uma pérola”. E mais adiante, completando seu pensamento, afirma: “A verdade é una, não pode ser dividida em várias partes; por isso se fala numa só pérola encontrada. E assim como quem possui uma pérola de grande preço conhece bem sua riqueza — enquanto todos os outros a ignoram, porque essa pérola é tão pequena que cabe numa mão — da mesma forma, na pregação do Evangelho, aqueles que têm a felicidade de recebê-la sabem quais riquezas espirituais adquiriram, riquezas completamente ignoradas daqueles que não conhecem o valor desse tesouro”.11
De fato, quantos pensadores pagãos acabaram por aderir à verdade do Cristianismo, naqueles primeiros tempos, ao se sentirem atraídos por sua doutrina, chegando alguns deles a entregar sua vida por amor a ela? Eram “bons negociantes de pérolas”.
Pelo contrário, numerosos chegam a ser hoje os que abandonam a “pérola” da verdade e preferem rolar no precipício do erro, do equívoco e da confusão. Lançam-se, sem receio, nas águas turvas da indiferença e da tibieza a propósito de sua salvação eterna, do Reino e do próprio Deus. Para esses, o senso do ser vai se tornando cada vez mais embotado, a ponto de quase não mais distinguirem entre bem e mal, belo e feio, verdade e erro.
E quantos há que, conhecendo a verdade, a ela não se entregam, por pura falta de generosidade? Não “vendem tudo o que possuem...” E quais são os que, no mundo atual, estão dispostos a tudo sacrificar para manter o estado de Graça?

Enfim,essas duas parábolas completam-se harmoniosamente. Uma se refere ao pulchrum do Reino (a da pérola); a outra busca inculcarnos a idéia da vantagem, utilidade e prêmio (a do tesouro). Nesta última se reflete a gratuidade do Reino (“encontra”); na anterior, o esforço (“procura”). Em ambas torna-se patente quanto deve desapegar-se dos bens deste mundo todo aquele que deseja adquirir o Reino dos Céus.
Continua no próximo post

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Evangelho – XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 13, 44-52

Comentário ao Evangelho – XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 13, 44-52
 As parábolas sobre o Reino
Três parábolas sobre o Reino — a do tesouro escondido, a da pérola e a da rede —, preciosos ensinamentos para a nossa vida espiritual a fim de alcançarmos a eterna salvação. Quando os “pescadores” separarem os “peixes”, no fim do mundo, estaremos nós entre os bons, ou entre os maus?
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
Naquele tempo disse jesus a seus discípulos: 44“O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo que, quando um homem o acha, esconde-o e, cheio de alegria pelo achado, vai e vende tudo o que tem e compra aquele campo.
45 O Reino dos Céus é também semelhante a um negociante que busca pérolas preciosas, e tendo encontrado uma de grande preço, vai, vende tudo o que tem e a compra.
47 “O Reino dos Céus é ainda semelhante a uma rede lançada ao mar, que apanha toda a espécie de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para fora e, sentados na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os maus. Será assim no fim do mundo: Virão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes.
51 Compreendestes tudo isto?”. Eles responderam: “Sim”. Ele disse-lhes: “Por isso todo o escriba instruído nas coisas do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13, 44-52).
 I – O Reino revelado pelo Divino Mestre
Tendo sido enviados alguns soldados pelas autoridades religiosas do Templo para prender Jesus, retornaram sem cumprir a missão, alegando ter sido impossível executá-la, pelo simples fato de nunca ninguém ter falado como Ele. Transparece, nesse episódio, o grande poder de expressão da verdade ensinada pela Verdade Encarnada. Ninguém jamais chegou a ser Mestre, ou virá a sê-lo, em toda significação do termo, como o foi Jesus Cristo. Quem, de fato, conseguirá ultrapassar em pedagogia o Pregador Divino?
Consideremos também quanto o homem é moralmente incapaz de conhecer por si só e plenamente as verdades religiosas, necessitando para tal do concurso da Revelação. E também a esse respeito devemos questionar: quem melhor do que o próprio Jesus para oferecer essa Revelação? Ele trazia do alto uma rica variedade de temas para nos instruir, entre os quais se encontrava o do Reino de Deus.
Objetivo dos ensinamentos de Jesus
Seu grande desejo era nos fazer conhecer diretamente as maravilhas que o Pai tinha nos preparado, pois não é fácil exprimi-las em linguagem humana, como o próprio São Paulo diria: “Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem, o que Deus preparou para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9). Mas se Ele nos mostrasse o Reino dos Céus, ao invés de no-lo revelar, perderíamos os méritos. Por isso, tornava-se indispensável servir-se de imagens aproximativas, muito penetradas de lógica e verossimilhança, e facilmente acessíveis à nossa inteligência. Os recursos de uma oratória empolada não eram necessários ao Mestre, por ser Ele quem era e por comunicar uma doutrina eterna, grandiosa, portanto, na sua própria substância.
Em face do anteriormente dito, e analisando os fatos como se realizaram, torna-se claro para um simples leitor dos Evangelhos o quanto Jesus não teve por objetivo, em Sua vida pública, formar profissionais, artistas ou especialistas em ciência. Ele Se empenhou em constituir as pedras vivas de Sua Igreja para encaminhá-las ao Seu Reino eterno. Compreendemos também melhor algumas das razões que O levaram a Se apresentar, em Sua missão, como perfeito e excelente modelo para todos os que são chamados a ensinar. Pelo Seu modo de agir, advertia os erros, enganos e desvios daqueles que visam fazer-se conhecidos através da docência, ou daqueles que procuram se apropriar da verdade, quando na realidade é ela um bem comum.
Depois de Jesus, os Santos e os Doutores muito nos esclareceram sobre este ponto particular, como o fez Santo Agostinho ao escrever: “Quem reivindica para si próprio aquilo que Vós ofereceis para uso de todos, querendo como particular o que é de todos, é reduzido do que é de todos para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira”.1 Sim, debaixo deste prisma, Jesus nos deu o mais alto exemplo de despretensão, tal como nos diz São Paulo: “Sendo de condição divina, não reivindicou o direito de ser igual a Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-Se semelhante aos homens” (Fl 2, 6-7). Por isso, invariavelmente, nós O encontramos reportando-Se ao Pai.
Supremacia do Divino Magistério
Eis alguns elementos que nos levam a melhor entender o porquê de Jesus Se fixar nos céus da História como o Divino Mestre. Assim, afirma o Doutor Angélico: “Cristo é o principal doutor da doutrina espiritual e da fé, conforme a Carta aos Hebreus: ‘Tendo começado a ser anunciada pelo Senhor, foi depois confirmada entre nós pelos que a ouviram, confirmando Deus o seu testemunho por meio de sinais, prodígios’, etc. (Hb 2, 3-4)”.2
E, de fato, com toda segurança pode-se falar numa excelência do Magistério de Cristo, pois “o poder de Cristo ao ensinar se vê, seja pelos milagres com que confirmava a doutrina, seja pela eficácia com que persuadia, seja pela autoridade com que falava, pois o fazia como quem tinha domínio sobre a lei, afirmando: ‘Eu, porém, vos digo’ (Mt 5, 34), seja finalmente pela retidão de seu proceder, vivendo sem pecado”.3
Reforçando ainda mais essa visualização sobre o Sagrado Magistério do Divino Mestre, São Tomás nos mostra como a ciência sagrada supera todas as outras, seja quanto ao seu objeto, pois se ocupa de temas elevados que são inacessíveis à pura razão humana, enquanto as outras só abrangem o que se encontra em seus limites; seja quanto à certeza, pois a ciência sagrada baseia-se na Luz divina que é infalível, e as outras na luz da razão, que é passível de erro. Daí concluir: “Logo, é evidente que, sob todos os aspectos, a ciência sagrada é mais nobre que as demais”.4
Diante dessa supremacia do Divino Magistério de Jesus, reconsideremos por que razão servia-se Ele de parábolas em Seu ensino.
Método que entrelaça simplicidade e eternidade
As parábolas eram muito comuns no Antigo Testamento. Entre elas podemos mencionar a do canto da vinha de Isaías (cf. 5, 1-7), ou a usada por Natã para invectivar Davi por seus pecados (cf. II Sam 12, 1-4). Tudo leva a crer que, nos tempos da vida pública de Nosso Senhor, elas haviam se tornado ainda mais utilizadas, sobretudo entre os rabinos. Eram de tipo muito variado, incluindo uma comparação com o intuito de tornar acessível um ensinamento árduo de ser entendido. Enquanto instrumento pedagógico, apesar de sua simplicidade –– e talvez até por essa razão —, acabavam por ser atraentes, pois, devido a certa nota de ambigüidade que sempre as acompanhava, resultavam enigmáticas. Assim, ficavam curiosamente intrigados aqueles que não alcançavam seu inteiro significado, e os que captavam seu conteúdo gozavam de alguma alegria. Daí dirigir-se o Divino Mestre aos Seus ouvintes nestes termos: “Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça” (Mc 4, 9).
Discutem entre si os autores a esse propósito. Alguns, através de um prisma feito de justiça, analisam as parábolas enquanto sendo um procedimento utilizado pelo Messias com o objetivo de castigar os que se negavam a acreditar na Revelação, apesar de Seus milagres. Entre eles sobressai Maldonado, bem como Knabenbauer e Fonk. Outros, pelo contrário, a partir da misericórdia explicam que o suave véu das parábolas visava estimular o interesse dos circunstantes, levandoos a fazer perguntas, e por isso afirma São Jerônimo: “Mistura o claro com o obscuro para que, por meio do compreensível, alcancem o que não entendem”.5
Também era indispensável que Jesus formasse Seus discípulos passo a passo — e não de maneira brusca — dentro dos novos horizontes. E sob este ponto de vista, o método por Ele adotado não poderia ser melhor. De si, a parábola deveria ser simples, desprovida de qualquer caráter rebuscado e, ao tratar de matéria ligada à eternidade, tornava-se sempre atual. Simplicidade e eternidade eram termos que se entrelaçavam no cerne da Revelação trazida por Jesus a respeito do Reino.
Duas visões opostas do Reino
Os judeus tinham uma concepção equivocada sobre este ponto em particular. Julgavam ser a vinda do Messias uma oportunidade única para a realização do sonho nacionalista do povo eleito: uma intervenção divina para instaurar uma era histórica na qual a supremacia política, social e financeira sobre todos os povos seria atingida com glória e triunfo.
Bem no sentido oposto estava o conteúdo da Revelação sobre o verdadeiro Reino. Neste, tudo é despretensão, lentidão e enfrentamento de obstáculos. Daí sua aproximação com as figuras do grão de mostarda, do joio e do trigo, parábolas contrapostas aos erros de visualização do povo judeu.
Jesus prega à multidão
Essa é a temática tratada ao longo de todo o capítulo 13, de São Mateus. Neste, acompanhamos a pregação de Jesus na Galiléia. Ao sair de casa, Jesus se senta à margem do mar de Tiberíades. Envolve-O tal multidão que se vê Ele na contingência de subir a uma das barcas, para dali falar a todos. Discorre novamente em parábolas: o semeador, a cizânia, o grão de mostarda, o fermento. Depois disso, despede os ouvintes e retorna para casa. Uma vez a sós com os discípulos, Lhe é feito o pedido de explicações sobre a metáfora da cizânia. Se continuarmos a ouvi-Lo, penetraremos no trecho do Evangelho da Liturgia de hoje.

Se bem que São Mateus apresente esses ensinamentos como tendo sido proferidos em casa, somente aos discípulos, e não à multidão, Maldonado opina em sentido contrário: “Eu creio ser mais provável que os tenha dito a todos antes, junto com as outras parábolas”.6
Continua no próximo post

quinta-feira, 17 de julho de 2014

EVANGELHO XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM —ANO A — Mt 13, 24-43

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO — XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
III – A PARÁBOLA DO GRÃO DE MOSTARDA
31 Propôs-lhes outra parábola, dizendo: “O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. 32 É a menor de todas as sementes, mas, depois de ter crescido, é maior que todas as hortaliças e chega a tornar-se uma árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar nos seus ramos”.
Os ouvintes desta parábola conheciam bem a denominada Sinapis nigra em botânica, vulgarmente chamada mostarda (Mustum ardens), característica por sua minúscula semente que, entretanto, ao ser plantada, produz um viçoso arbusto sempre verde. Não é raro acontecer de um exegeta, por pura curiosidade, cultivá-la em seu jardim e arrancá-la depois de um ou dois anos, pelo receio de sua vigorosa fecundidade. É erva muito comum na Palestina, sobretudo nas regiões de maior calor, chegando a atingir três a quatro metros de altura, de modo que as aves fazem ninhos em suas ramagens.
Quiçá Deus tenha criado a mostarda principalmente para servir de elemento para esta bela parábola do Salvador. Pequeníssima em seu ponto de partida, surpreendente em seu desenvolvimento final, esse vegetal bem serve para ilustrar a etiologia e força do apostolado católico, e o próprio Reino dos Céus. Quem esteve presente quando Jesus, pouco antes de subir aos Céus, transmitiu suas instruções aos onze Apóstolos (9), não poderia imaginar que, no futuro, haveria multidões de fiéis assistindo aos funerais de João Paulo II, ou à Missa inaugural do Pontificado de Bento XVI.
O crescimento é um elemento essencial no ensinamento desta parábola. O Reino de Deus e o apostolado são quase imperceptíveis em seu começo, mas ao longo do tempo sua expansão será incalculável, sobretudo pela desproporção entre a escassez dos meios e a grandeza dos efeitos.
Quando um bebê é levado à pia batismal e ali é tocado pelas águas da graça, Deus o santifica. Anos mais tarde algumas dessas tenras e delicadas crianças serão gigantes na fé, e não há quem não conheça um São João Bosco, ou uma Santa Teresinha do Menino Jesus, por exemplo. Árvores frondosíssimas, nascidas de cerimônia tão simples... Seguindo o conselho de São Jerônimo, comparemos as máximas evangélicas com as sentenças dos grandes sistemas filosóficos, ou até mesmo com as grandes descobertas científicas dos dias de hoje. Nada mais oposto em termos de simplicidade e complexidade. Entretanto, é só dar tempo ao tempo para comprovarmos os efeitos diversos.
IV – A PARÁBOLA DO FERMENTO
33 Disse-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha até que tudo esteja fermentado”.
Certos antigos e conceituados comentaristas julgaram, erroneamente, tratar-se esta parábola de uma repetição da anterior. Elas possuem muita afinidade entre si, mas aqui Jesus tem outro objetivo: “até que tudo esteja fermentado”. Não se trata, portanto, da mera união da farinha com o fermento, mas da força e do vigor na capacidade de ação do elemento menor sobre o maior. Do mesmo modo o Reino dos Céus tem essa intensidade de penetração e transformação das almas, fermentando-as com os ensinamentos evangélicos.
A anterior parábola retrata a capacidade de expansão universal do Reino dos Céus. Esta última mostra o vigor interno que ele possui para influenciar as almas.
V – CONCLUSÃO
Foram de fácil assimilação para os Apóstolos as parábolas da mostarda e do fermento; entretanto, a do joio deixou-os muito intrigados. Por isso quiseram saber seu exato significado (vv. 36-43). O Divino Mestre insiste na questão do fim do mundo e do Juízo final, importante Novíssimo, cuja meditação nos ajuda a evitar o pecado.
No seu todo, a Liturgia de hoje acentua o quanto devemos crer na força de expansão e de penetração da Igreja, enquanto insiste também na necessidade da vigilância — sobretudo nas horas de diminuição da sensibilidade — quer quanto a nós individualmente, quer no tocante à opinião pública.
Com olhos de fé, esperança e caridade, pensemos no período final do acontecer humano e preparemo-nos para o dia da grande ceifa, dentro de uma plena santidade de vida, costumes e relações sociais, de tal modo que, quando chegar a hora, possamos “resplandecer como o Sol no Reino do Pai”.
1 ) Comentario a los cuatro Evangelios — I Evangelio de San Mateo, BAC, Madrid, 1950.
2) Idem.
3 ) Cf. Mc 4, 27.
4 ) Hom. 47 in Mt.
5 ) Cf. Suma Teológica II-II, q 165, a 1c.
6 ) Conselhos e lembranças, n. 37.
7 ) Hom. 47, in Mat.
8 ) Cf. P. Luis de la Puente, Meditaciones, Apostolado de la Prensa, Madrid, 1950, t. I, p. 3ª méd. 45, pág. 976.

9 ) Cf. Mc 16, 15-18.

terça-feira, 15 de julho de 2014

EVANGELHO XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM —ANO A — Mt 13, 24-43

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO — XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
Para nossa humildade e vigilância, Deus permite a permanência do joio da concupiscência em nós, pois seu aguilhão nos faz compreender a existência de um incentivo ao pecado no nosso próprio ser. E por isso necessitamos recorrer sempre ao auxílio da graça.
26 Tendo crescido a erva e dado fruto, apareceu então o joio.
Comenta São João Crisóstomo (7) este versículo, dizendo que assim costumam agir os hereges, ou seja, no princípio ocultam suas doutrinas e intenções, mas, quando se vêem apoiados, aí se declaram como tais. Também assim se desenvolve nossa vida espiritual. Como já vimos, no início temos o “fervor de noviço” a nos inundar de consolação; todavia, quando se reduz a sensibilidade, deparamo-nos com o joio da concupiscência existente em nosso interior.
27 Chegando os servos do pai de família, disseram-lhe: Senhor, porventura não semeaste tu boa semente no teu campo? Donde veio, pois, o joio? 28 Ele respondeu-lhes: Foi um inimigo que fez isto. Os servos disseram-lhe: Queres que vamos e o arranquemos?
Há um certo momento em nossa existência no qual a inclinação para o mal, em nós e nos outros, nos espanta, e não raramente desejamos extirpá-la ato contínuo. Nascem então em nossa consciência múltiplos “por quês”. Jesus, na simplicidade comovedora de sua pregação, imagina um diálogo ingênuo entre os servos e o senhor, procurando ressaltar a perplexidade impaciente e aflita de uns, e a sábia calma do outro.
Os servos querem um mundo sem a menor mancha, sem pecado, feito somente de bons. Este foi, aliás, o erro defendido pelos donatistas (séc. IV). Ora, isto só se realizará no Céu, segundo ensinam o Antigo Testamento e São João Evangelista. Nesta terra, o bem e o mal caminham juntos.
29 Ele respondeu-lhes: Não, para que talvez não suceda que, arrancando o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo. 30 Deixai-os crescer juntos até à ceifa, e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: Colhei primeiramente o joio, e atai-o em molhos para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro”.
Possuindo um robusto discernimento dos espíritos e serenidade de temperamento, o senhor da parábola pondera sobre a conveniência de deixarem a separação para a época da colheita. Muitos são os autores que comentam esta passagem, mostrando não só a impossibilidade de se eliminar todo o mal deste mundo, como também a conveniência de sua coexistência com o bem. Pelos maus, são exercitados os bons, dirão uns; muitas ocasiões de sofrimentos, paciência e caridade, etc., são proporcionadas pelos maus aos bons, afirmarão outros.
Em realidade, transparece aqui a grande misericórdia de Deus, não permitindo que as criaturas se precipitem sobre o pecador logo após o pecado, mas concedendo-lhe a oportunidade de se arrepender e obter o perdão.
Eis o ponto central do Evangelho de hoje: “Não arranqueis a cizânia”. Por que o Senhor não deseja que seja arrancada a cizânia? O zelo dos servos é exagerado, uma vez que é impossível desarraigar da lei ordinária todos os vícios e paixões (8).
III – A PARÁBOLA DO GRÃO DE MOSTARDA
31 Propôs-lhes outra parábola, dizendo: “O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. 32 É a menor de todas as sementes, mas, depois de ter crescido, é maior que todas as hortaliças e chega a tornar-se uma árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar nos seus ramos”.

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domingo, 13 de julho de 2014

EVANGELHO XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM —ANO A — Mt 13, 24-43

COMENTÁRIO AO EVANGELHO — XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
Joio, mostarda, fermento e o Reino
Retificar os conceitos errôneos do povo judeu sobre o reino messiânico, acentuar quanto devemos crer na força de expansão da Igreja, e insistir na necessidade da vigilância — são os principais objetivos destas parábolas.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias
A PARÁBOLA DO JOIO
Propôs-lhes outra parábola, dizendo: “O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Porém, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo e semeou joio no meio do trigo, e foi-se. 26 Tendo crescido a erva e dado fruto, apareceu então o joio. 27 Chegando os servos do pai de família, disseram-lhe: Senhor, porventura não semeaste tu boa semente no teu campo? Donde veio, pois, o joio? 28 Ele respondeu-lhes: Foi um inimigo que fez isto. Os servos disseram-lhe: Queres que vamos e o arranquemos? 29 Ele respondeu-lhes: Não, para que talvez não suceda que, arrancando o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo. 30 Deixai-os crescer juntos até à ceifa, e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: Colhei primeiramente o joio, e atai-o em molhos para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro”.
 O GRÃO DE MOSTARDA
31 Propôs-lhes outra parábola, dizendo: “O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. 32 É a menor de todas as sementes, mas, depois de ter crescido, é maior que todas as hortaliças e chega a tornar-se uma árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar nos seus ramos”.
FERMENTO
Disse-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha até que tudo esteja fermentado”. 34 Todas estas coisas disse Jesus ao povo em parábolas; e não lhes falava sem parábolas, 35 a fim de que se cumprisse o que estava anunciado pelo profeta, que diz: “Abrirei em parábolas a minha boca, publicarei as coisas escondidas desde a criação do mundo”.
EXPLICAÇÃO DA PARÁBOLA DO JOIO
36 Então, despedido o povo, foi para casa, e chegaram-se a Ele os seus discípulos, dizendo: “Explicanos a parábola do joio no campo”. 37 Ele respondeu: “O que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que o semeou é o Demônio. O tempo da ceifa é o fim do mundo. Os ceifeiros são os anjos. 40 De maneira que, assim como é colhido o joio e queimado no fogo, assim acontecerá no fim do mundo. 41 O Filho do Homem enviará os seus anjos e tirarão do seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, 42 e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então resplandecerão os justos como o Sol no Reino de seu Pai. O que tem ouvidos para ouvir, ouça (Mt 13, 24-43).

I – INTRODUÇÃO
Assim como uma moldura pode contribuir para a apreciação de uma bela pintura, assim também as cenas evangélicas, em toda a sua simplicidade, freqüentemente realçam a figura de seus protagonistas.
Sabendo que as parábolas acima foram pronunciadas por Jesus de dentro de uma barca, ancorada bem próxima da margem do Mar da Galiléia, podemos nos perguntar como deveria ter sido a cena. Águas certamente serenas e, portanto, silenciosas, como também a multidão que curiosa se espremia para ouvi-Lo e vê-Lo, sentado num banco de rústica madeira, proferindo atraentes metáforas. Poesia e lógica, encanto e sabedoria, simplicidade e grandeza, osculavam-se num entranhado afeto, corrigindo os errôneos conceitos daquele povo a respeito do reino messiânico.
Ao longo dos séculos, desenvolvera-se entre os judeus uma mentalidade triunfalista a propósito do ansiado Messias. Sua chegada seria acompanhada da implantação de um reino estável, esplendoroso e justiceiro, eliminando-se os pecadores e inaugurando-se assim uma era na qual não mais haveria maldade humana. Evidentemente, esse raciocínio era falho em suas premissas, de onde resultava uma tão equívoca conclusão: em sua lógica não levavam em consideração a existência do pecado original e do atual. Por causa da influência dos fariseus, o triunfo dos bons — que de fato será fulgurante no Juízo Final — era visto erroneamente por aqueles hebreus como a essência de uma era histórica feita da supremacia da virtude. E aqui se encontra um dos principais objetivos da parábola do joio e do trigo: retificar a distorcida visualização farisaica sobre a possibilidade de uma purificação absoluta do Reino. Ademais, ela deita uma luz insuperável para o desenvolvimento da Igreja Católica ao longo dos tempos, em múltiplos aspectos, conforme diremos adiante.
II – A PARÁBOLA DO JOIO
Para bem aproveitarmos a sabedoria dos ensinamentos do Divino Mestre, é muito útil figurarmos a cena, os costumes, e até mesmo as psicologias daqueles tempos. Esse procedimento não só nos permite saborear amplamente as profundidades de cada passagem, como também torna mais fácil transpor suas aplicações à nossa vida atual.
No domingo anterior, o Evangelho (Mt 13, 1-23) nos introduzia na seqüência de sete parábolas do Salvador. Conforme vimos, Ele escolheu a beira do lago para proferi-las. Naquele tempo os ruídos do mundo moderno, com motores de toda espécie, não existiam nem sequer na imaginação. A vida era muito orgânica e transcorria serena.
Era, sobretudo, benfazejo o silêncio junto às águas tranqüilas. Ademais, as orlas em suave declive constituíam um esplêndido e natural anfiteatro, permitindo ao Divino Locutor sentar-se na barca e manter um contato visual com toda a platéia. Sua voz era clara e forte, fazendo-se ouvir comodamente até pelos mais distantes assistentes.
Tal como nos presentes dias, a possibilidade de irrigação convidava os agricultores a cultivarem seus campos naquelas cercanias. Portanto, é bem possível tratar-se de um público muito acostumado com as figuras empregadas por Jesus naquela ocasião. Assim, aproveitando-se dos elementos utilizados para expor a parábola do Semeador, começa Ele a elaborar uma outra, a fim de esclarecer mais alguns mistérios do Reino dos Céus.
24 O Reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo.
À primeira vista — e com fundamento — somos levados a crer que se trata de um homem rico, tanto mais quanto ele possuía servos. Qual a razão pela qual ele não os envia para semear e, pelo contrário, trabalha o campo com suas próprias mãos? Alguns autores chegam a manifestar essa perplexidade. Entretanto, conforme mais adiante veremos, é cheia de sentido a figura proposta pelo Divino Mestre.
Convém também deixar claro que, ao afirmar Jesus ser o Reino dos Céus “semelhante a um homem”, não quis delimitar-se exclusivamente a uma pessoa, mas à cena toda na qual esse homem desempenha um papel, conforme assevera o teólogo jesuíta Pe. Juan de Maldonado, com quem estão de acordo os comentaristas atuais.
Repare-se também tratar-se da “boa semente”, pois, caso contrário, os frutos não seriam bons. A terra se caracteriza por sua fidelidade, ou seja, ela retorna o que a ela foi dado. Se a semente é de má qualidade, do mesmo teor será a colheita.
Versar sobre a semeadura da boa semente não é o objetivo principal da parábola, mas sim sobre a atividade do inimigo, segundo veremos.
25 Porém, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo e semeou joio no meio do trigo, e foi-se.
Os comentaristas se perguntam se não houve incúria da parte dos servidores. Os antigos são rigorosos na interpretação dessas palavras, como, por exemplo, Maldonado: “Todos os intérpretes antigos entendem os que dormiam como sendo os bispos e aqueles que têm na Igreja o cuidado das almas. E — advirto — mesmo se a muitos deles não agrada essa aplicação, oxalá ela não se mostre verdadeira. Faço essa afirmação, embora não ignore que Cristo só quis dizer que o diabo joga sua semente clandestinamente” (2).
Por outro lado — ponderam os autores mais recentes — Jesus não afirmou que o inimigo praticou o mal “porque os servos dormiam”, mas, sim, “enquanto dormiam”. Lembram, então, outra passagem da Escritura na qual Ele afirma ter sido a noite feita para dormir (3). Ademais, o normal é vigiar o campo nas proximidades da colheita, e não logo após ter sido semeado, pois ninguém será tentado a roubar sementes lançadas à terra.
Não se trata de um inimigo qualquer, mas “do inimigo”, o principal. Seu gesto não poderia ser mais maldoso. Uma péssima ação como a sua só poderia ser movida por um grande ódio ou uma grande inveja. Entretanto, segundo relatos muito antigos, de pessoas que viveram em Jerusalém, vinganças como essa, de cortar uma árvore frutífera (oliveira, figueira, vinha, etc.) eram pecados próprios daquela região. Não falava apenas hipoteticamente o Senhor. O público não estranhou a menção a isso na parábola, e nem sequer ao caso da cizânia. Muito conhecida é essa erva por aqueles que cultivam o trigo. Ao desenvolver- se a plantação, o joio — cujo nome científico é Lolium temulentum — até chegar à fase das espigas, assemelhase muitíssimo ao trigo, de onde resulta interessante sua utilização metafórica.
Aí estão algumas razões pelas quais o v. 25 não insiste na nocividade do joio que entrelaça suas raízes às do trigo. Seu objetivo é apenas ressaltar a presença dessa erva daninha na plantação. Ademais, chama a atenção para o fato de ele ter sido ali espalhado pelo inimigo de forma clandestina, à noite, enquanto todos dormiam.
Comentando este versículo, São João Crisóstomo assim se expressa: “Com essas palavras nos faz ver que o erro vem depois da verdade, fato demonstrado pela experiência. (...) Tal é a malícia do diabo: semeia quando nasceram as sementes, para dessa maneira causar mais danos aos interesses do agricultor”.
Deus, em sua infinita sabedoria, criou os seres inteligentes em estado de prova, a fim de receberem meritoriamente o prêmio da glória eterna. E, por essa mesma razão, permitiu que os homens fossem tentados. Daí a necessidade da preciosa virtude da vigilância. Assim, independentemente da discordância entre comentaristas antigos e mais recentes, no tocante a este versículo conter ou não uma recriminação aos que dormem, é patente a ação do inimigo: “semeou joio no meio do trigo, e foi-se”. Ora, ele aproveitou o sono de seus adversários para praticar sua má ação. E neste particular o Evangelho de hoje reafirma o preceito do Senhor: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41).
Nós semeamos no entusiasmo; é a fase de “fervor de noviço” durante a qual não há obstáculo que faça esmorecer nossas decisões. A própria virtude da prudência parece-nos um empecilho nesses momentos, e, de fato, sentimos viver um tempo mais de ousadia que de ponderação, no qual comprovamos quanta razão tinha Santa Teresinha do Menino Jesus ao dizer: “Para o amor nada é impossível”. Aliás, referindo- se à situação oposta, São Bernardo costumava afirmar que “é impossível ao noviço prudente perseverar na vocação”.
Com ou sem culpa de nossa parte, há um momento em que essa sensibilidade diminui, não mais sentimos aquele impulso fervoroso, e nos vemos na contingência de nos apoiar somente na razão (iluminada pela fé, é verdade), e no esforço de nossa vontade. É o cair da “noite escura”, segundo a linguagem de São João da Cruz. Durante esse período, o demônio, o mundo e a carne encontram em nossa alma terra fértil para lançar o joio.
Aqui se entende melhor a figura do sono: quando a sensibilidade se evanesce, é chegado o momento da vigilância, tal como nos aconselha Santa Teresinha de Lisieux, que dizia às noviças: “Vós vos entregais com excesso às coisas que fazeis; vossos afazeres vos preocupam demasiado. Há algum tempo, eu li que os israelitas construíam os muros de Jerusalém trabalhando com uma das mãos, enquanto que na outra mantinham sua espada. Eis aí a imagem do que temos de fazer: trabalhar com uma das mãos; a outra, devemos usá-la para defender nossas almas dos perigos que possam impedir a união com Deus”.
Poderíamos dar ainda outra aplicação à parábola: há uma “semente de joio” que levamos em nosso interior em estado latente, a da concupiscência. O Senhor semeou o bom trigo no Paraíso, ao criar nossos primeiros pais, Adão e Eva, concedendo-lhes a graça e dons que constituíam o estado de justiça original. Por seu lado, o demônio semeou a cizânia do pecado e, com este, o homem perdeu o dom de integridade.
Daí a concupiscência, que não é senão a inclinação natural do apetite aos bens sensíveis contrários à razão e à Lei de Deus.
Como opera em nós a concupiscência?

Nosso conhecimento natural se realiza através dos cinco sentidos, como afirma a Escolástica: “Nada há em nosso intelecto que não tenha antes passado pelos sentidos”. Ora, antes mesmo de a razão ter emitido seu juízo sobre a liceidade ou não de qualquer bem sensível, nosso apetite já se sentiu inclinado a ele. Mais ainda, sobretudo quando fortemente impressionado pela atração do bem sensível, nosso apetite continuará agindo sobre a razão, depois de esta ter baixado sua sentença proibitiva, procurando arrastá- la. Daí, ou há uma férrea força de vontade — que só pela graça de Deus se obtém — para se opor às febricitações da sensibilidade, ou buscaremos uma justificativa para nosso comportamento ilícito.
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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Evangelho – XV Domingo do Tempo Comum – Ano A

Conclusão dos comentários ao Evangelho – Mt 13, 1-23 – XV Domingo do Tempo Comum –Ano A
III – A alma que deu frutos na plenitude
Quem ouviu e compreendeu por inteiro essa parábola senão Maria Santíssima, a qual certamente dela tomaria conhecimento com insuperável enlevo e amor? Ao falar em “terra boa” e em semente que produziu cem por um, muito compreensível seria estar Jesus pensando em sua Imaculada Mãe, a terra fertilíssima por excelência para fazer desabrochar a semente divina na plenitude.
Toda a vida da Santíssima Virgem foi um contínuo sim à vontade de Deus. Quando Ele A inspirou a fazer voto de virgindade, Ela aquiesceu com todo entusiasmo. Ao Lhe ser anunciada a Encarnação do Verbo, sua resposta foi: “Faça-se em Mim segundo a vossa palavra” (Lc 1, 38), e a Palavra Se fez carne nessa terra imaculada. Ao ouvir dos pastores o que os anjos lhes haviam comunicado, Ela guardou e conferiu em seu coração todas essas palavras (cf. Lc 2, 51). E o mesmo fez durante toda a vida com tudo quanto os adoráveis lábios de seu Divino Filho proferiram, até o “Consummatum est!”.
Constata o Padre Garrigou-Lagrange, escrevendo com fervor marial: “É consolador pensar que há uma alma que recebeu plenamente tudo quanto Deus lhe queria dar e nunca impediu que o esplendor da graça atingisse as demais almas. Existe uma alma absolutamente perfeita, a qual, sem obstáculo algum, deixou manar em Si mesma o rio de vida divino, que nunca esteve por um instante sequer abaixo daquilo que d’Ela Deus desejava”.11
Enfim, o Coração Imaculado de Maria Santíssima é um Evangelho vivo, cujas maravilhas ainda estão para ser conhecidas!
Roguemos a Ela, protetora por excelência de todos quantos querem ouvir e pôr em prática a palavra de Deus, a graça de não deixarmos nenhuma semente que tenhamos recebido, sem produzir todos os frutos esperados pelo Criador. 
1SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Epistolam B. Pauli ad Hebraeos, c.4, lect.2.
2 Cf. CIC 53.
3 Idem, 65.
4 Lembre-se que, após saber que João Batista havia sido preso, Jesus “deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia” (Mt 4, 13). Tuya afirma que essa casa está muito bem determinada e “devia ser a d’Ele” (TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.II, p.302).
5 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, III, q.42, a.3, resp.
6 SÃO JERÔNIMO. Obras Completas. Comentario a Mateo. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.167.
7 SÃO BERNARDO. Obras Completas. Madrid: BAC, 1953, v.I, p.338.
8 BENTO XVI. Audiência Geral, 11/5/2011.
9 SÃO GREGÓRIO MAGNO. Las parábolas del Evangelio.2.ed. Madrid: Rialp, 1999, p.76.
10 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Principium Rigans montes, c.3.

11 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Reginald. El Salvador y su amor por nosotros. Madrid: Rialp, 1977, p.477.